Terça-feira, Outubro 31, 2006

A SOLIDÃO


Por Charles Baudelaire
(Tradução de Aurélio Buarque de Holanda )

Diz-me um jornalista filantropo que a solidão é má
Para o homem; e, em abono de sua tese, cita, como todos
Os incrédulos, palavras dos Padres da Igreja.
Eu sei que o Demônio é dado a freqüentar os sítios
Áridos, e que o espírito do homicídio e da lubricidade seInflama prodigiosamente nos ermos.
Mas talvez esta solidão
Só fôsse um perigo para a alma ociosa e divagadora que a
Povoa de suas paixões e de suas quimeras.
Certo é que um tagarela, cujo supremo prazer consiste
Em falar do alto de uma cátedra ou de uma tribuna, se
Arriscaria muito a tornar-se louco furioso na ilha de Robinson.
Não exijo do meu jornalista as corajosas virtudes
De Crusoe, mas peço-lhe que não incrimine os amantes da
Solidão e do mistério.Há em nossas raças palradoras indivíduos que aceitariam
Com menor repugnância o suplício máximo, se lhes fôsse
Permitido fazer do alto do cadafalso uma copiosa arenga,
Sem temer que os tambores de Santerre lhes cortassem
Intempestivamente a palavra.
Não os lastimo, porque adivinho que as suas efusões
Oratórias lhes proporcionam volúpias iguais àquelas que
Outros encontram no silêncio e no recolhimento; porém os
Desprezo.Desejo, antes de tudo, que o maldito jornalista me deixe
Divertir-me a meu gôsto.-Então o senhor não sente nunca - perguntou-me,
Com um tom nasal muito apostólico - a necessidade de
Compartir os seus prazeres?Vejam lá o sutil invejoso! Êle sabe que eu desdenho os
Seus, e vem insinuar-se nos meus, o horrível desmancha-prazeres!"A grande desgraça de não poder estar só!..."- diz algures La Bruyère, como para envergonhar os que
Procuram esquecer-se na multidão, temendo, sem dúvida, não se
Poderem suportar a si mesmos."Quase tôdas as nossas desgraças nos advêm de não
Têrmos sabido ficar em nosso quarto" - diz outro sábio,
Creio que Pascal, lembrando assim, na célula do recolhimento,
Todos os insensatos que buscam a felicidade no
Movimento e numa prostituição a que eu poderia chamar
Fraternitária, se quisesse falar a bela língua do meu século.

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Segunda-feira, Outubro 30, 2006

O CORVO


Uma brilhante tradução do poema de Poe, O CORVO, clique aqui

Domingo, Outubro 29, 2006

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A Lenda da Louca Estéril


Essa é mais uma daquelas lendas dos povos interioranos. Um mito passado de geração em geração, contando a luz de fogueiras pelos mais velhos a seus filhos e netos.Ela reza que antigamente, numa vila isolada de tudo e todos, existia uma mulher, muito linda e prendada, que prometida a um homem simples e trabalhador, casou-se nova com um sonho de ter com ele uma linda família.Apesar de no começo não o ama-lo, logo devota de criação e de caráter, começou a lhe dedicar um carinho especial, algo que ela podia até chamar de amor. Afinal era casada com um homem digno, respeitado por todos, trabalhador e muito amoroso com ela Os anos se passaram e seu sonho foi ficando cada vez mais distante. O lindo casamento começou a ficar vulnerável. Por mais que eles tentassem ela não conseguia engravidar. Seu marido, homem de honra, não podia aceitar que sua mulher não gerasse um filho dele. Não agüentava mais os olhares nas ruas, os comentários em voz baixa, as risadinhas discretas .As brigas começaram a surgir e seu marido cada dia mais violento, vitima agora da bebida e do ópio. Por muitas vezes a deixou roxa, sangrando , estendida no chão, e não era raro a molestar depois de tudo.Mas no seu coração, bem no fundo, o sonho de uma família feliz ainda permanecia, aquele sonho ainda vivia forte em seu interior. Sabia que tudo aquilo era apenas pela falta de um filho, sabia que se ela pudesse dar um filho ao seu amado, o tão sonhado filho que eles tanto tentaram ter e que agora era motivo de discórdia entre eles.Em uma de suas raras saídas pelas ruas, passou por entre os amontoados de pobres coitados, marginais, esguios da sociedade. Mas agora eles não eram mais uma ameaça, nem sequer tinha medo de se esgueirar por aqueles guetos sujos, pois ali ninguém lhe olharia piedosamente, ninguém comentaria seus olhos roxos e nem o ferimento de sua boca, ali ela era só mais uma pobre infeliz.Mas seus passos foram diminuindo, parando seus pés um do lado do outro, ficando de frente a uma pobre mulher segurando uma menina. A garota devia ter seus cinco anos, usava uns farrapos, mas mesmo assim lhe chamou muita a atenção, principalmente seus olhos, azuis claros como o céu. Ficou ali vendo aquela menina um longo tempo até ver a senhora olhando a ele o que fez ela correr daliOs dias passaram, mas aquela menina não saia de sua cabeça. Aquela cena, aquela menina jogada naquela imundice, aquela menina tão linda, tão perfeita, podia ser até sua filha.Os dias continuaram a passar e ela agora ia quase todos os dias ver a pequena menina nos guetos imundos. Ficava ali por horas as vezes, indo e voltando, vendo de longe a menina e cada vez era mais forte a idéia de que ali estava sua filha, a filha que Deus nunca tinha lhe posto no frente, mas que agora ela a havia encontrado.As surras continuaram e as humilhações se tornaram mais freqüentes. Ela tinha que salvar seu casamento, tinha que realizar seu sonho.Numa noite em que seu marido não voltou a casa, ela tomou em suas mãos uma faca e a colocou em um dos panos de seu vestido, pôs seu véu e antes de sair pegou uma das lamparinas e a acendeu seguindo até o gueto onde iria encontrar sua filha perdida.Foram cerca de oito golpes até conseguir tirar a vida da jovem, golpes cuidadosos afim de manter a pobre menina livre de tal cena, golpes que ela deu com uma força e destreza que nem ela sabia que possuía. Recolheu então a criança e fugiu dali o mais rápido que podia. Suas pernas tremiam agora que dera conta do que havia feito, mas tudo havia sido por uma boa causa, pois agora ela tinha uma filha, a filha que ela sempre sonhou, a filha que faltava na vida dela e de seu maridoAo chegar em casa, ainda um pouco tonto por causa do vinho, viu no sofá sua mulher toda suja de sangue e uma menina que dormia ao seu lado em um sono profundo. Um desespero tomou conta dele, enquanto ela lhe dizia que agora tudo seria diferente, pois ali estava a filha que tanto sonharam. Ele desesperado correu da casa, deixando sua esposa parada em frente a porta em prantos.Mas as coisas não duraram por muito tempo, e naquela noite mesmo já se sabia da barbaria que a jovem havia praticado, pois seu marido em desespero saiu gritando pelas ruas que sua esposa era uma assassina e junto com algumas pessoas que viram a jovem sair do gueto com a criança. As tochas foram acesas e o amontoado de aldeões enfurecidos se dirigiam a casa onde estaria a jovem assassina.Os aldeões enfurecidos arrombaram a porta e lincharam a mulher. Enquanto agonizava ela olhou nos olhos do marido e disse que voltaria com a filha que ele tanto desejou e eles seriam enfim uma família feliz.Desde então o marido se pôs a peregrinar afim de fugir do espírito de sua mulher que lhe perseguia onde ia, até morrer de sede no meio de um deserto em meio a uma visão de sua mulherMuitos dizem que ela ainda busca a sua filha e que em noites sem lua ela corre as regiões próximas em busca de uma criança de olhos azuis, de cinco anos, para que seu espírito consiga enfim a paz...

LINX


Encontre esse e outrox contos no site Recanto das Letras - www.recantodasletras.com.br

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

OS GATOS DE ULTHAR


Do imortal H. P. Lovecraft

Dizem que em Ulthar, lá atrás do rio Sakai, ninguém jamais mata um gato; e ao olhar para aquele que ronrona perto do fogo aceso na lareira, sei que é verdade. Pois o gato é enigma chegado às coisas que o homem não consegue ver. Ele é a alma do Egito antigo, conhecedor de histórias das cidades esquecidas de Meroe e Ophir. É sangue do sangue dos senhores das selvas, herdeiro dos segredos da África venerável e sinistra. Primo da Esfinge, fala a sua lingua e, ainda mais antigo, se lembra de coisas que a Esfinge já esqueceu.
Em Ulthar, antes que o prefeito proibisse o assassinato de gatos, havia uma chácara onde um velho e sua esposa se divertiam roubando e matando os gatos de seus vizinhos. Por que faziam isso não se sabe; há quem odeie a voz dos gatos na noite e as tome como mau agouro; e ache mesmo que os gatos deveriam correr imperceptíveis pelos jardins e quintais 'a luz mortiça da madrugada.
Seja por que for, esse velho e sua mulher gostavam de prender e matar qualquer gato que chegasse perto de sua casa: e pelos gritos que se ouviam depois que escurecia a gente da vila imaginava que a maneira de assassinar os gatos era perversamente insólita. Mas os camponeses não falavam disso com o casal de velhos, seja por que a expressão habitual de seus rostos era má ou por que sua chácara era pequena, escura e arruinada demais, escondida entre carvalhos gigantes.
Na verdade os donos dos gatos odiavam o casal estranho mas os temiam ainda mais. E em vez de castigá-los como assassinos brutais que eram, tratavam de vigiar para que nenhum bichano querido ou valente caçador de camundongos chegasse perto do bosque sombrio.
Quando sumia um gato por algum descuido e se ouviam os sons depois que chegava a escuridão, seu dono se lamentava impotente ou se consolava agradecendo 'a Sorte por não ter perdido uma de suas crianças. Pois as pessoas de Ulthar eram simplórias e não conheciam a origem dos primeiros gatos.
Um dia, vindos do Sul, viajantes estranhos chegaram em caravana, a percorrer as ruas estreitas de Ulthar. Era gente morena e escura, diferente dos outros que costumavam atravessar a cidade duas vezes por ano. Acamparam na Praça do Mercado e compravam contas coloridas dos mercadores e liam a sorte dos passantes por dinheiro. Faziam rituais estranhos e ninguém sabia dizer de onde vinham e suas carroças eram pintadas com figuras de corpos humanos com cabeças de gatos, gaviões, carneiros e leões. O chefe da caravana usava um capacete com dois chifres e círculos de metal com inscrições.
E nessa caravana singular vinha um garoto pequeno que, sem ter pai nem mãe, tinha só um gatinho preto como companheiro. A peste havia castigado sua vida, mas deixara com ele aquela coisinha peluda para diminuir sua tristeza; e quando alguém é muito jovem pode achar que as vivas brincadeiras de um gatinho preto são tudo o que se precisa. E esse menino de pele escura, chamado de Menes por seu povo, ria muito mais do que chorava, a se distrair com as brincadeiras cheias de graça de seu bichano, sentado nos degraus de sua carroça pintada tão esquisito.
Na terceira manhã da chegada da caravana a Ulthar o gatinho de Menes sumiu. E enquanto o garoto chorava alto na Praça do Mercado alguém da cidade contou a ele do casal de velhos e dos sons que se ouviam 'a noite. E quando Menes ouviu essas histórias parou de chorar, ficou pensativo, depois rezou.
Estendeu os braços para o alto, em direção ao Sol, e rezou em uma lingua que o povo de Ulthar desconhecia; e para dizer a verdade os camponeses nem tentaram entender o que Menes falava, por que aconteciam coisas no céu e as nuvens tomavam formas incomuns.
Era estranho. Menes rezava e sobre suas cabeças formavam-se nebulosas figuras exóticas de criaturas híbridas, vestindo capacetes com chifres e discos de metal. A Natureza cria tais ilusões que impressionam as pessoas imaginativas. Naquela noite a caravana deixou Ulthar e nunca mais voltou.
E então os camponeses perceberam que em toda a cidade não havia um só gato. Todos os bichanos de todas as casas desapareceram: gatos grandes e pequenos, pretos, cinzentos, rajados, brancos, amarelos... O burgomestre Kranos jurou que o povo moreno levara embora os gatos como vingança pela morte do gatinho preto de Menes e praguejava contra a caravana e o menino. Mas Nith, o tabelião esquelético, dizia que o velho casal do bosque era suspeito, já que seu ódio aos gatos era conhecido e cada vez mais ameaçador.
Ainda assim ninguém teve coragem de se queixar ao casal sinistro. Até mesmo quando Atal, o filho do estalajadeiro, jurou ter visto todos os gatos de Ulthar no bosque maldito ao por do sol, caminhando aos pares, solenes e vagarosos, num ritual jamais conhecido, formando um círculo em volta da cabana. O povo da cidade não sabia se acreditava no garoto; e mesmo achando que os velhos da chácara encantaram os gatos da cidade para depois matá-los, se acovardaram e preferiram deixar para falar com os dois quando viessem 'a cidade.
E assim Ulthar foi dormir em ódio e covardia. E quando o povo acordou de manhã, surpresa! cada gato voltara 'a sua casa: grandes e pequenos, pretos, cinzentos, rajados, amarelos e brancos, não faltava nenhum. Ronronavam alto, felizes, gordos, luzidios. O povo maravilhado só falava nisso. Kranon insistia: o povo moreno levara os gatos, já que nenhum bichano jamais voltara vivo da casa no bosque. E todos concordavam: era curiosa a recusa dos gatos em comer, por dois dias inteiros deixaram seus pratinhos de carne e pires de leite intactos, dormindo preguiçosos ao sol ou perto das lareiras acesas.
Passou uma semana antes que o povo da vila notasse que as luzes da chácara dos velhos não acendiam mais 'a noite. E então Nith se deu conta de que os velhos não apareciam na cidade desde o dia em que os gatos sumiram. Na outra semana o burgomestre superou o medo e decidiu averiguar o acontecido. Para testemunhas chamou Shang, o ferreiro e Thul, o açougueiro. E eles arrombaram a porta da chácara e foi só isso que acharam: dois esqueletos humanos no meio do chão de terra, limpos de todo vestígio de carne ou pele, e uma quantidade de besouros estranhos a se arrastar pelos cantos da sala.
Muito se falou em Ulthar. Zath, o médico legista, Nith, o tabelião e Kranon e Shang e Thul eram assediados com perguntas. Até mesmo o pequeno Atal, filho do estalajadeiro, foi interrogado minuciosamente e recompensado com doces. Falava-se do velho posseiro e sua mulher na chácara, da caravana do povo moreno, do pequeno Menes e seu gatinho preto, da reza de Menes e da transformação do céu durante a reza, do que os gatos fizeram depois que a caravana partiu e do que foi achado na casa sombria no bosque.
E por fim o burgomestre decretou por lei o que foi depois contado por mercadores em Hatheg e discutido por viajantes em Nir: que na cidade de Ulthar ninguém jamais pode matar um gato.
(tradução de Leila Galvão)
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A MÁSCARA DA MORTE RUBRA


Do imortal Edgar Allan Poe

DURANTE muito tempo devastara a "Morte Rubra" aquele país. Jamais se vira peste tão
fatal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinete: a vermelhidão e o
horror do sangue. Aparecia com agudas dores e súbitas vertigens, seguindo-se profusa
sangueira pelos poros e a decomposição. Manchas escarlates no corpo e sobretudo no
rosto da vítima eram o anátema da peste, que a privava do auxílio e da simpatia de seus
semelhantes. E toda a erupção progresso e término da doença não duravam mais de meia
hora.

Mas o Príncipe Próspero era feliz, destemido e sagaz. Quando seus domínios se viram
despovoados da metade de seus habitantes mandou chamar à sua presença um milheiro
de amigos sadios e joviais dentre os cavalheiros e damas de sua corte, retirando-se com
eles, em total reclusão, para uma de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e
magnífico, criação de príncipes de gosto excêntrico, embora majestoso. Cercava-o forte e
elevada muralha com portas de ferro. Logo que entraram, os cortesãos trouxeram fornos e
pesados martelos para rebitar os ferrolhos. Tinham resolvido não proporcionar meios de
entrada ou saída aos súbitos impulsos de desespero dos de fora ou ao frenesi dos de
dentro.

A abadia estava fartamente provida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o
contágio. Que o mundo exterior se arranjasse por si. Enquanto isso, de nada valia nele
pensar, ou afligir por sua causa. Providenciara o príncipe para que não faltassem
diversões. Havia jograis, improvisadores, bailarinos. músicos. Havia beleza e havia vinho.
Lá dentro, tudo isso e segurança. Lá fora a "Morte Rubra".Foi quase ao término do quinto
ou sexto mês de sua reclusão enquanto a peste raivava mais furiosamente lá fora, que o
Príncipe Próspero ofereceu a seus mil amigos um baile de máscaras da mais
extraordinária magnificência.

Que voluptuosa cena a daquela mascarada! Mas antes descrevamos os salões em que ela
se desenrolava. Era uma série imperial de sete salões. Em muitos palácios, contudo, tais
sucessões de salas formavam uma longa e reta perspectiva quando as portas se abrem de
par em par não havendo quase obstáculo à perfeita visão de todo o conjunto . Aqui, o
caso era bastante diverso, coisa aliás de esperar do amor do duque pelo fantástico. Os
aposentos estavam tão irregularmente dispostos que a visão abrangia pouco mais de um
de cada vez. De vinte ou de trinta em trinta jardas havia uma curva aguda e, a cada
curva, uma nova impressão.A direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma enorme
e estreita janela gótica abria-se para um corredor fechado que acompanhava as voltas do
conjunto. Essas janelas eram providas de vitrais, variava de acordo com o tom dominante
das decorações do aposento para onde se abriam. O da extremidade oriental, por exemplo
era azul, e de azul vivo eram suas janelas. O segundo tinha ornamentos e tapeçarias
purpúreos, e purpúreas eram as vidraças. O terceiro era todo verde, e verdes eram
também as esquadrias das janelas. O quarto estava mobiliado e iluminado com
laranjada. O quinto era branco, e o sexto, roxo. O sétimo o estava totalmente coberto de
tapeçarias de veludo preto, que pendiam do teto e pelas paredes, caindo em pesadas
dobras um tapete do mesmo material e da mesma cor. Mas somente nesta sala a cor das
janelas não correspondia à das decorações. As vidraças ali, eram escarlates, da cor de
sangue vivo.

Ora, em nenhum daqueles sete salões havia qualquer lâmpada ou candelabro em meio à
profusão de ornamentos dourados que se espalhavam por todos os cantos ou pendiam do
forro. Luz de espécie alguma emanava de lâmpada ou vela, dentro da série de salas. Mas,
nos corredores que acompanhavam a perspectiva, erguia-se em frente de cada janela,
uma pesada trípode com um braseiro que projetava seus raios pelos vitrais coloridos e
assim iluminava deslumbrantemente a sala, produzindo numerosos aspectos vistosos e
fantásticos. Na sala negra, porém, o efeito do clarão dava sobre as negras cortinas,
através das vidraças tintas de .sangue, era extremamente lívido e dava uma aparência tão
estranha às fisionomias dos que entravam que poucos eram os bastante ousados para
nela penetrar.

Era também nesse salão que se erguia, encostado à parede que dava para oeste, um
gigantesco relógio de ébano. O pêndulo oscilava para lá e para cá, com um tique-taque
vagaroso, pesado, monótono. E quando o ponteiro dos minutos concluía o circuito do
mostrador e a hora ia soar, emanava dos pulmões de bronze do relógio um som claro,
elevado, agudo e excessivamente musical, enfático e característico que, de hora em hora,
os músicos da orquestra viam-se forçados a parar por instantes a execução da musica
para ouvir-lhe o som: e dessa forma, obrigatoriamente, cessavam os dançarinos suas
evoluções e toda a alegre companhia sentia-se por instantes, perturbada. E enquanto os
carrilhões do relógio ainda soavam, observava-se que os mais alegres tornavam-se
pálidos e os mais idosos e serenos passavam as mãos pela fronte, como se em confuso
devaneio ou meditação. Mas quando os ecos cessavam por completo, leves risadas
imediatamente contagiavam a reunião; os músicos olhavam uns para os outros e sorriam
de seu próprio nervoso e loucura, fazendo votos sussurrados, uns aos outros para que o
próximo carrilhoar do relógio não produzisse idêntica emoção. E, no entanto, passados os
sessenta minutos ( que abarcam três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), ou de
novo outro carrilhoar do relógio, e de novo se viam a mesma perturbação, o mesmo
tremor, as mesmas atitudes meditativas a despeito, porém, de tudo isso, que esplêndida e
magnífica folia.

O duque tinha gostos característicos. Sabia escolher cores e efeitos. Desprezava os
ornamentos apenas em moda. Seus desenhos muito audazes e vivos, e suas concepções
esplendiam com um lustre bárbaro. Muita gente o julgava louco. Mas seus cortesãos
achavam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo, para se estar certo que ele não o
era.

Por ocasião dessa grande festa, dirigira ele próprio, em grande parte, os mutáveis adornos
dos sete salões e fora o seu próprio gosto orientador que escolhera as fantasias. Mas não
havia dúvidas de que eram grotescas. Havia muito brilho, muito esplendor, na coisa
berrante e fantástica - muito disso que depois se viu no Hernani. Havia formas
arabescas, com membros e adornos desproporcionados.

Havia concepções delirantes, como criações de louco; havia muito de belo e muito de
atrevido, de esquisito, algo de terrível e pouco do que poderia causar aversão. Na
realidade, uma multidão de sonhos deslizava para lá e para cá nas sete salas. E estes
sonhos giravam de um canto para outro, tomando a cor das salas, e fazendo a música
extravagante da orquestra parecer o eco de seus passos.

Mas logo soava o relógio de ébano que se erguia na parede de veludo. E então, durante
um instante, tudo parava e tudo silenciava exceto a voz do relógio. Os sonhos paravam,
como que gelados. Os ecos do carrilhão, porém, morriam - haviam durado apenas um
instante -, e uma leve gargalhada, mal contida, acompanhava os ecos que morriam. E
logo depois a música explodia, e os sonhos reviviam e rodopiavam mais alegremente do
que dantes, tingiam da cor das janelas multicoloridas, através das quais se filtravam ,os
luminosos raios das trípodes.

Mas então nenhum dos mascarados se aventurava até a sala que, entre as sete, mais ao
ocidente se encontrava, porque a noite estava declinando e ali dimanava luz mais
vermelha através das vidraças sangüineas, e o negrol dos panejamentos tenebrosos
apavorava. E, para aqueles cujos pés pisavam o tapete negro, do relógio de ébano ali perto
provinha rumor abafado, mais solenemente enfático do que o que alcançava os ouvidos
de quem se comprazia nas alegrias dos outros aposentos mais distantes.

Mas esses outros aposentos estavam densamente apinhados e palpitava febrilmente o
coração da vida. E a folia continuou a rodopiar, até que afinal o relógio começou a soar a
meia-noite. E, então a música parou, como já disse; e aquietaram-se as evoluções dos
dançarinos; e, como dantes, houve uma perturbadora parada de tudo. Mas agora o
carrilhão do relógio teria de bater doze pancadas. E por isso aconteceu talvez que maior
número de pensamentos, e mais demoradamente, se inserisse nas meditações daqueles
que, entre os que se divertiam, meditavam. E por isso talvez aconteceu também que,
antes de silenciarem por completo os derradeiros ecos da última pancada, muitos foram
os indivíduos, em meio a multidão, que puderam certificar-se da presença de um vulto
mascarado que até então não havia chamado a atenção de ninguém, tendo-se espalhado,
aos cochichos, a notícia dessa nova presença elevou-se imediatamente dentre a turba um
burburinho ou murmúrio que exprimia desaprovação e surpresa a princípio e, terror,
horror e náusea.

Numa assembléia de fantasmas, tal como a descrevi, bem se pode supor que tal agitação
não podia ter sido causada por aparência vulgar. Na verdade, a licença carnavalesca da
noite quase ilimitada; mas o vulto em questão excedia o próprio Herodes em
extravagância e ia além dos limites indecisos de decência exigidos pelo próprio príncipe.

Há no coração dos mais levianos fibras que não podem ser tocadas sem emoção. Mesmo
para os mais divertidos, para quem a vida e a morte são idênticos brinquedos assuntos
com os quais não se pode brincar. Todos os presentes de fato, pareciam agora sentir
profundamente que nos trajes e atitudes do estranho não havia finura nem conveniência.

Era alto e lívido, e envolvia-se, da cabeça aos pés, em mortalhas tumulares. A máscara
que ocultava o rosto era tão de modo a quase representar a fisionomia de um cadáver
enrijecido que a observação acurada teria dificuldade em perceber o engano. E, contudo,
tudo isso poderia tolerar-se, se não mesmo aprovar-se, pelos loucos foliões, não tivesse o
mascarado ido ao de figurar o tipo da "Morte Rubra". Seu traje estava salpicado de
sangue, e a ampla testa, assim como toda a face, borrifada de rendas placas escarlates.

Quando os olhos do Príncipe Próspero caíram sobre aquela imagem espectral (que, em
movimentos lentos e solenes, como se quisesse representar mais completamente seu
papel, rodopiava aqui e ali entre os dançarmos), viram-no ser tomado de convulsões, a
princípio um forte tremor de pânico ou repugnância, para logo depois enrubescer-se de
raiva.

-Quem ousa - perguntou ele, roucamente, aos cortesãos que o cercavam -, quem ousa
insultar-nos com tão blasfema pilhéria? Agarrem-no e desmascarem-no, para podermos
conhecer quem teremos de enforcar, ao amanhecer, no alto das ameias!

Ao pronunciar estas palavras achava-se o Príncipe Próspero no salão dourado e azul, do
lado do poente. Elas atravessaram todas as sete salas, alta e claramente, pois o príncipe
era um homem ousado e robusto e a música havia silenciado a um gesto de sua mão.

Era no salão azul que se achava o príncipe, tendo ao lado um grupo de cortesãos pálidos.

Logo que ele falou, houve um leve movimento de investida por parte daquele grupo na
direção do intruso que, no momento, se encontrava quase ao alcance da mão, em
passadas firmes e decididas, mais se aproximava do príncipe. Mas em virtude de um
indefinível terror que a todos os presentes causara o louco atrevimento do mascarado,
não se achou que ousasse estender a mão para agarrá-lo. De modo que.sem impecilho,
passou a uma jarda do príncipe, e, enquanto toda a assembléia, como movida por um só
impulso, recuava do centro das salas para as paredes, seguiu ele seu caminho sem deterse
com os mesmos passos solenes e medidos que o haviam distinguido, do salão azul ao
salão purpúreo, do púrpuro ao verde, do verde ao alaranjado, deste ao branco e até o
roxo, sem que um movimento de decisão se fizesse para detê-lo.

Foi então, porém, que o Príncipe Próspero, enlouquecido de vergonha de sua própria e
momentânea covardia, correu precipitadamente através das seis salas, sem que ninguém
o seguisse, pois um terror mortal de todos se apossara. Brandia um punhal
desembanhado e se aproximara, com rápida impetuosidade, a poucos passos do vulto que
se retirava, quando este último, tendo alcançado a extremidade do salão de veludo,
voltou-se subitamente e arrostou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo e o punhal
caiu, cintilante sobre o negro tapete, onde, logo, instantaneamente, tombou mortalmente
abatido o Príncipe Próspero. Então, recorrendo a coragem selvagem do desespero,
numerosos foliões lançaram-se sem demora no lúgubre aposento, e, agarrando o
mascarado, cujo alto vulto permanecia ereto e imóvel dentro da sombra do relógio de
ébano, pararam, arfantes de indizível pavor, ao sentir que nenhuma forma tangível se
encontrava sob a mortalha e por trás da mascara cadavérica, quando as seguraram com
violenta rudeza.

E foi então que reconheceram estar ali presente a "Morte Rubra". Ali penetrara, como um
ladrão noturno. E um a um, foram todos os foliões, nos salões da orgia, orvalhados de
sangue, morrendo na mesma posição desesperada de sua queda. E a vida do relógio de
ébano se extinguiu com a do último dos foliões. E as chamas das trípodes expiraram. E o
ilimitado poder da Treva, da Ruína, e da "Morte Rubra" dominou tudo.

Terça-feira, Outubro 24, 2006

O VAMPIRO DO CASTELO DE BRAN

O VAMPIRO DO CASTELO DE BRAN

Autor: Paulo Soriano
1
O peso opressivo do luar, incidindo sobre os meus longos cabelos negros, escorria, num fluxo impiedoso, caudaloso, sobre os meus ombros, impelindo-me para frente, como se eu estivesse tocada pelo vento que precede às mais violentas tempestades.

Eu caminhava sozinha – descalça e andrajosa – por uma estrada milenar, aberta pelos eslavos, mas pavimentada pelos romanos, que ladeia os vales relvosos, salpicados de árvores agulhosas. Sobre esses extensos vales, as montanhas escarpadas deitam, eternamente, as suas sombras melancólicas, que azulam e amolecem ao luar. Eu saíra de Vesta Verde quando anoitecera, já corroída pela fome e pelo cansaço. A fria madrugada grassava e eu precisava buscar um refúgio para um merecido descanso.

Eu devia ter, de alguma forma, errado o caminho. Porque, sob os meus pés descalços, a estrada ganhara uma aspereza incomum, serpenteando para cima, galgando as encostas de uma montanha cuja imponência a sombra da noite não deixava margem à imaginação.

O luzeiro que vi adiante me animou. Assim, redobrei a intensidade de meus passos e em breve alcancei o passadiço que conduzia aos portões de um castelo milenar, uma estrutura negra, pesada, sulcada por estrias ancestrais, onde as sombras e as heras adensavam e buscavam o lúgubre mergulho.

O luzeiro era, na verdade, uma simples lanterna, que um homem idoso empunhava em riste, em uma das torres da construção secular. Decerto que ele me viu, porque não foi necessário que eu tangesse as cordas que faziam girar os sinos da campainha. Por uma abertura em arco, ao sopé da torre, o homem saiu ao meu encontro, tomando-me pelas mãos. Eram mãos pálidas, incrivelmente frias, extremadas por longas e amoladas unhas. Quando o homem ergueu a lanterna para subir as úmidas escadas de pedra, pude constatar que a sua fisionomia era assustadora. Naquele rosto exangue, encimado por um crânio completamente nu, dois olhos negros, duros, ornados de grossas sobrancelhas, bailavam sobre olheiras violáceas, que caíam, desfalecidas, em dobras pesadas, sobre os ossos salientes dos maxilares. O nariz era finíssimo, recurvo como um gancho e, dos seus lábios, eu nada pude ver, porque, naquela rachadura, insinuava-se apenas a brancura dos dentes pontiagudos, quase mergulhados sobre a curva suave que lhe compunha o queixo. E como eram asquerosos aqueles negros tufos de pêlos desgrenhados, que se esgueiravam a partir do poço escuro das orelhas pontudas, repuxadas como as de um demônio helênico!

- É tarde – disse-me ele. – Já não tenho como te alimentar, pobre criaturinha bela e suja. Mas te darei um quarto para dormir, onde te envolverás nos flácidos vincos de teu roto vestido. Fica a cela no cume da torre e logo lá chegaremos. Lá há água, se tiveres sede. E há um catre pouco confortável. Desculpa-me a franqueza, mas não costumo hospedar gente desconhecida. Nem mesmo os nobres, como eu, gozam de minha hospitalidade, se não tenho como me certificar de sua verdadeira origem e intenções.

Ao dizer isso, logrou girar a chave no caixilho, fazendo-me menção para que entrasse. Foi o que eu fiz. Imediatamente, a porta se encerrou atrás de mim.

- Chamo-me Dragoş Valicescu, sou o Terceiro Conde de Bran, e vivo completamente só – disse, enquanto descia vagarosamente as escadas. – E não me espere pela manhã, porque sou notívago e odeio a luz do Sol – concluiu, com um quê de sensualidade malévola em sua voz de animal.

Estava quase amanhecendo quando fechei o único postigo do quarto da torre e procurei descansar no desconforto daquele catre infeliz, onde a escuridão cairia sobre mim como uma negra mortalha, pegajosa e fria.

2

Quando despertei, já anoitecera. O postigo da torre achava-se escancarado e sobre o parapeito ardia um enorme círio, cuja ereta chama não se movia. A porta do quarto jazia aberta, e a silhueta longelínea de Dragoş, o Conde de Bran, desenhava-se como uma sombra nefasta, a enturvar os umbrais.

- Tu deves estar faminta – disse-me ele. – Aproxima-te de mim, linda e desolada jovem, que eu te trouxe algo para comer.

De fato, eu estava faminta. Extremamente faminta. Certamente, em toda Romênia, não haveria um ser mais faminto do que eu. Tomei a bandeja de carnes e frutas que ele trazia e a depositei sobre a cama. Mas não me debrucei sobre a iguaria.

- Dá-me um beijo em agradecimento – ele exigiu, em tom feroz.

O Conde avançou, tomou-me pelas mãos, e mergulhou o arremedo de lábios em minha boca, sorvendo a minha saliva com uma fúria bestial. Seus dentes longos tremiam como resultado de uma convulsão atroz.

Ao contato com a língua daquele homem decrépito, a minha fome recrudesceu. Sim, recrudesceu assustadoramente. Quase tremi, assaltada por uma ansiedade ensandecida, por uma compulsão tão premente que somente os animais mais ferozes podem experimentar. E, num frêmito, os meus dentes caninos, até então retraídos, deslizaram celeremente, conformando-se em presas amoladas, próprias para perfurar e dilacerar.

Depois do beijo, veio o peso opressivo do luar, que se infiltrava pelo postigo aberto. Incidindo sobre os meus longos cabelos negros, o luar escorria, num refluxo impiedoso, caudaloso, sobre os meus ombros, impelindo-me para frente, para a garganta do Terceiro Conde de Bran, onde minhas presas aguçadas afundaram profundamente e de onde eu extraí a seiva morna, densa, repleta de delícias, que saciou a minha fome infinita. E pouco me custará a encontrar a cripta do castelo, que doravante será minha; lá, regenerada, dormirei profundamente, por vários dias, o meu tranqüilo sono de morte.
*

Nota do autor: qualquer semelhança com Stoker e Murnau não é mera coincidência.

*

O ABRIGO


O Abrigo
Por Roberto A. Brandão

Nós já estávamos lá há alguns dias. Nossos suprimentos estavam praticamente esgotados. Um único garrafão de 20l de água era o que tínhamos . Comida? Não mais que 20 pães, uma barra de queijo e 2 pacotes de biscoitos. Dormíamos mal em nosso esconderijo, sempre nos revezando em turnos de 2 horas para cada. Afinal, devíamos estar atentos a única porta de entrada e saída daquele porão frio e escuro em que nos encontrávamos. Porta esta que foi cuidadosamente reforçada com tábuas e pregos encontrados no próprio porão. Lá fora ouvia- se apenas os passos... e inconstâncias sonoras; como que lamentos vindos de gargantas sem cordas vocais. Às vezes nos parecia familiar certos fonemas... palavras. Como podia isso estar acontecendo?! Como aquelas coisas surgiram? Porque surgiram?
Éramos em quatro; presos em nosso próprio abrigo. Eu, considerado líder pelos outros. Meu primo Lucas, excelente pessoa; formado em Jornalismo; dado a bebedeiras, surf e belas mulheres. Meu outro primo, Cláudio; era um cara mais sério que Lucas, porém não menos excelente. Formado em Física, já cursando um Doutorado, talvez fosse o mais inteligente de nós. Por último, meu irmão Miro, o qual não palavras para descrever tamanho pessimismo e ironia que habita aquela mente perturbada . Somente por causa dele ainda estávamos no abrigo, pois toda vez que planejávamos uma fuga ele nos aconselhava do contrário. De qualquer modo nos dávamos muito bem.
-- Temos que sair daqui! Em pouco tempo não teremos o que beber ou comer—disse Lucas com uma certa firmeza em sua voz.
-- Concordo—retruquei. Ou saímos agora ou eles darão um jeito de entrar.
-- É? E como vamos fazer isso? Ao que me recordo não aprendi a desaparecer e aparecer em outro canto—ironizou meu irmão com um sorriso sarcástico. Vamos ficar por aqui. Uma hora essas coisas vão embora. Aí a gente sai—completou ele, voltando para os papelões onde dormíamos.
-- Deixa de ser burro, Miro! Eles têm todo o tempo do mundo. Nós, não!—ao falar isso os 3 me fitaram apreensivos.
-- Beto está certo, Miro—disse Cláudio após alguns minutos. Nós teremos alguma chance de sobreviver se sairmos daqui.
--- Vamos ao plano—falou Lucas decididamente.
Eu tinha uma pistola cal. 380 como 12 tiros, a qual havia comprado há algum tempo, sendo- me de grande valia naquela ocasião. Meu irmão estava com um revólver cal. 38, que pertenceu ao nosso falecido pai. Tinha, apenas, 8 munições. No canto esquerdo do porão, próximo à porta, havia uma caixa de ferramentas da qual Lucas tirou um facão um pouco enferrujado. Quanto a Cláudio coube- se a incumbência de retirar, cautelosamente, as tábuas da porta. Pois bem. O plano era o seguinte: deixar adentrar a primeira criatura para que nós a eliminássemos, ao passo que Cláudio verificaria se outros viriam ou não. Tentaríamos não disparar um único tiro a fim de não atrair a atenção dos demais. Se isto ocorresse estaríamos perdidos.
Cláudio pôs- se a retirar as tábuas, lenta e cuidadosamente. Ao término da tarefa ele conseguiu abrir a porta; apenas alguns centímetros. Foi o suficiente para observar o exterior que, com grande ansiedade, almejávamos. Lá fora ele observou um dos seres que tanto nos atormentava. Era um morto! Sim! Um morto- vivo! Figura sórdida e desalmada que, agora, perambulava pelas ruas do planeta. Mas não só um! Eram milhões... e milhões, devorando as carnes de nossos semelhantes numa fome insana!
A coisa voltou- se para Cláudio e, num ímpeto bestial, o agarrou pelo braço, puxando- o para fora do porão. Ao tentarmos ajudá- lo ouvimos sua última ordem: -- Fujam seus tolos! Os outros estão vindo!
Saímos correndo feitos loucos pela casa, que um dia foi bela e cheia de alegria, enquanto ouvíamos os gritos de Cláudio e identificávamos palavras como “ cérebro, carne” , proferidas por aquelas aberrações.
Outros mortos postaram- se à nossa frente, o que foi necessário fazer uso de nossas armas. Explodi a cabeça de um deles como um tiro certeiro. Lucas decapitou outro com a precisão de uma guilhotina. Já meu irmão não teve a mesma sorte que nós. Apesar de também acertar um tiro em uma das várias criaturas, que agora chegavam, foi mordido por outro monstro que aproximou- se sorrateiramente. Com isso ele gritou: -- Porra! Eu disse que não ia dar certo! Quanto a isto só pude lamentar tamanha desgraça!
-- Vão vocês! Eu ficarei aqui para segurar essas bestas imundas! Já estou morto, mesmo!
O que fazer diante de tal situação? Ser solidário e ficar para morrer como meu irmão? Ou ser covarde e fugir feito um louco ensandecido, procurando salvar a própria vida? A segunda opção me pareceu melhor.
Fugimos eu e Lucas, ouvindo meu irmão esbravejar em meio aos disparos do revólver; até que estes cessaram.
À nossa frente ainda restava um imenso corredor do antigo casarão e logo após o hall de entrada. Depois disto estaríamos livres. Ou não?
No corredor, passamos a caminhar cautelosamente, haja vista, haver muitas portas de cômodos, aparentemente fechadas.
-- Não estou gostando disso, Beto! Está muito quieto aqui! – disse Lucas, um tanto apreensivo. Balancei a cabeça positivamente enquanto me esgueirava pela parede suja de sangue e tripas. Há poucos metros de uma porta podíamos ouvir aquelas coisas; sempre mastigando; sempre com fome. Pelo canto da porta, sem ser visto, constatei a presença de 3 zumbis devorando os restos de uma pessoa que não consegui reconhecer, tal era o estado desfigurado de sua face e corpo. Continuamos prosseguindo, passando, como muito medo, pelas portas dos outros cômodos vazios, até chegarmos no hall de entrada da mansão. Lá pude perceber a gravidade de nossa situação!
Trêmulo, contabilizei 13 mortos- vivos em um espaço de 8 metros quadrados; era o hall. Quando voltei- me para meu primo este me perguntou qual o motivo de meu espanto.
-- Olhe você mesmo! – sussurrei com um ar de surpresa e desolação.
-- Como vamos passar por ali?! – perguntou- me embasbacado.
-- Não sei, cara!
Arriscamo- nos um pouco ao ficarmos parados, no corredor, em frente a porta, sem saber qual decisão tomar.
-- Tive uma idéia, Lucas!
-- Qual?
-- Vamos pegar um cadáver qualquer e jogar para eles. Se funcionar, será uma distração e nós fugiremos.
-- Tudo bem. Mas teremos que voltar o corredor até sabe- se lá onde!
Voltamos o corredor, tendo cuidado para não interromper a funesta refeição, chegando ao local onde meu irmão havia perecido. Seu cadáver jazia inerte e esquartejado no chão frio que o acolhia. Senti grande amargura e desespero, mas, era a nossa única salvação. Pegamos os poucos restos mortais, embrulhados nas roupas dele mesmo e retornamos pelo corredor até o hall. Lucas também pegou o revólver. Apenas um cartucho intacto, disse ele.
Da porta joguei os restos de Miro na direção de algumas aberrações. Deu certo! Com a fome que eles estavam aquilo era o melhor banquete e nossa presença já não mais importava. Começamos a travessia pelo hall, muito apreensivos. Já havíamos combinado que se algo desse errado, quem escapasse deveria correr como um louco, fugindo daquela insanidade, sem olhar para trás!
Ah! Se meu irmão estivesse aqui... diria que o plano não iria dar certo.
Uma daquelas bestas apocalípticas, não satisfeita como a refeição que lhe dera, agarrou Lucas pela perna, derrubando- o ao chão. Isso atraiu os outros, lógico! Tratava- se de carne fresca! Eles o agarraram, esquecendo- se de mim por completo, dilacerando- lhe o tórax. Nesse momento percebi Lucas puxar, com suas últimas forças, o gatilho do revólver, dando cabo da própria vida! Já restava mais nada a fazer naquele local dos infernos. Fugi aos prantos, daquele local nefasto, pela rua, esquivando- me de alguns mortos que caminhavam; tentavam me agarrar. Encontrei um carro aberto com a chave no banco e monte de carne humana espalhada pelo banco e pelo chão. Dava para ver uns tufos de cabelo, um olho e muito sangue. Não pensei mais! Entrei no carro, limpando as vísceras que ali estavam, dei a partida e saí em disparada, atropelando mais daquelas coisas que estavam por toda a cidade.
Até hoje não consigo dormir direito. Estou em outro abrigo, agora. Tenho como única companhia minha pistola cal. 380. Tenho, também, mais água e comida do que o outro abrigo de 3 semanas atrás. Também tenho a certeza de que minhas provisões irão acabar.
Oh! Eles já batem à porta; e murmuram fonemas desconexos... aquele cheiro putrefato invade o abrigo. Só posso esperar!

Roberto A. Brandão (vulgo Beto Satanás)

Segunda-feira, Outubro 23, 2006

CADA DIA MAIS SOMBRIA!!!



MESMO COM ALGUNS ODIANDO NOSSA IDÉIA, A ASSOMBROSA I.S. CRESCE CADA DIA MAIS, CADA DIA ADEREM MAIS ADEPTOS E AO QUE TUDO INDICA TENDE AO INFINITO. CRESCEREMOS CADA DIA MAIS, CONTRA TUDO E TODOS, SE NECESSÁRIO, RUMO AO UNDERGROUND DO HORROR NO BRASIL. E QUE O INFERNO ACOLHA TODOS AQUELES CÃES MISERÁVEIS E MEDÍOCRES QUE SE OPUSEREM A NÓS!

IRMANDADE DAS SOMBRAS - UM NOVO ESPAÇO DO TERROR NA INTERNET (MADE IN BRASIL), O NÚCLEO MALDITO DO CAOS CRIATIVO NA LITERATURA SOMBRIA!

Domingo, Outubro 22, 2006

Liberdade para os mortos


Autor: ROBERTO BRANDÃO

Ele tentou... um século contemplando o teto, desejando bocejar sem que a mandíbula caísse... e tentou... uma década contando as unhas repetidas vezes, outra, estudando o crescimento de um único fungo... e tentou... gerações após gerações de besouros passaram diante de seus olhos sem pálpebras... mas não adiantou. Ele não conseguiu dormir!
Acima do solo castigado pelo sol, ele sentiu o ar da noite... abaixo, sua existência revia amargos anos, recordando- se das respirações desperdiçadas que ele não saboreou, supondo que fossem eternas... e por fim, não pôde mais suportar.
Frustrado, esquecido... sua memória era um fragmento enterrado, obsoleto, morto.
Ansiando por ser uma semente, ter possibilidades outra vez... ele se levantou!

O jantar



- Mãe,eu to com fome! – Disse o garotinho loiro largando o livro de colorir.
- Fique calmo Allan,o entregador já vai chegar... – Disse a mulher também muito loira,passando a mão nos cabelos do menino.
Sentados no sofá,com a tv ligada mesmo sem estarem vendo eles formavam uma família bonita mesmo que algo estranho fosse obvio nos olhos dos dois.
A campainha toca,a mulher levanta,conversa com o entregador e colocando a pizza em cima da mesa ela pergunta se ele pode olhar o garotinho enquanto ela preenche um cheque no quarto.
Mesmo pouco a vontade com o quieto e estranho garotinho ele concorda olhando o belo corpo da mãe.Vendo o estranho garotinho colorir seu livro ele pensa o quanto o dia foi cansativo,pensa nas noites que ficou sem dormir por causa dos dois empregos.Seus pensamentos são interrompidos pelo ruído da porta sendo fechada.Ele vira ainda em tempo de ver o estranho garotinho trancando a porta.Pensando que se trata apenas de uma travessura de criança ele diz.
- Ei garoto!Eu não vou ficar não...Por que você não chama a sua mãe,pra que ela abra a porta e eu possa ir?
- Porque você não vai... – Disse o garotinho fixando os olhos agora vermelhos no entregador.
Achando tudo aquilo tudo estranho o entregador sentiu uma vontade enorme de sair daquele apartamento.Ao tentar se aproximar da porta ele sente uma mão tocar seu ombro.A voz sussurrante da mãe parece se espalhar pelo apartamento todo.
- Acho que você não ouviu meu filho...
Ao olhar para a mulher ele viu que ela tinha um facão nas mãos.No primeiro golpe o entregador gritou,mas ela sabia que ele faria isso,era o que todos faziam.Por isso tinha reforçado a porta e as janelas.Os gritos dele jamais sairiam do apartamento...Enquanto o encostava na porta e fatiava-o abaixo das costelas a mulher ouvia os gritos de seu filho que dizia.
- Eu também quero fatiar!Eu também quero fatiar!
- Cale-se Arthur!Sente-se no sofá,o jantar está quase pronto! – Gritou a mulher jogando um pedaço de carne recém arrancada para o menino.
O entregador estava a beira de um desmaio,o ultimo de sua vida,mas com um fio de consciência e em meio a enorme dor ele ouviu o som do telefone.Aquela seria sua ultima chance de ser salvo,se ele pelo menos tivesse forças para gritar por socorro.
Jogando o homem no balcão da cozinha a mulher foi atender o telefone,suas mãos cobertas de sangue ainda escorregaram um pouco no botão de ligar,mas logo ela ouviu a voz do outro lado que dizia.
- Marion!Nossa,finalmente consigo falar com você.O chefe está uma fera e ...Marion?O que são esses gritos ai?
- Ah,desculpe Carlos,eu estou jantando com meu filho,está vendo um filme de terror...Sabe como são as crianças... – Falando isso Marion disse ao filho.
- Arthur,dê um jeito nessa TV!Mamãe não consegue ouvir nada...
Aproximando-se do entregador o menino lhe corta a língua fazendo os gritos cessarem.Marion continua sua conversa no telefone.
- Olha Carlos,eu ligo pra você daqui a alguns minutos...É que a hora da refeição é sagrada...
Quando ela desligou o entregador viu que estava perdido,a partir de então seria só dor.Ele se entregou a seu destino fechando os olhos pela ultima vez...
Algum tempo depois Marion recolhia os ossos e restos de carne do balcão jogando-os num saco escuro.Deitado no sofá o garotinho reclamava.
- Mamãe...Os garotos do colégio continuam me perseguindo...
Sem desviar os olhos do que estava fazendo e visivelmente chateada ela respondeu.
- Malditos garotos...Mas,não se preocupe Arthur...Mamãe vai convidá-los para jantar na semana que vem...Mamãe vai ensinar a eles o que é uma perseguição de verdade...
Aproximando-se da mão e jogando mais um osso dentro do saco o garotinho disse.
- Mamãe eu amo você mas não gosto de pizza...
- Eu também não meu filho,amanhã eu vou ligar para o restaurante mexicano...Dizem que esse povo tem sangue forte... – Respondeu Marion fechando o saco e jogando na lixeira cuidadosamente.
Novamente sentados no sofá a mãe e o filho formavam uma família bonita.Ela lia historias que ele pacientemente ouvia...Uma bela família.Mesmo que o sangue em suas roupas e o brilho de seus olhos fosse obviamente estranho...

Well (Miss Brasilia Três Anos Consecutivos RSRSRS)

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

Lamentações de um Prometeu

Caminhei pela colina enegrecida
Senti o Bóreas soprando no coração que finda
Nas entranhas o frio, o quedo, o horror que mina

Elevei me nas encostas fúnebres
Pés deslizando na lama podre em demasia,
Sorrindo, a fitar as figuras lúgubres,
Em devaneios, em sua introspecção doentia,
Nas alcovas flutuantes de divãs de veludo
Estáticos no escapar do ultimo suspiro de luz
Nos corredores obscuros no fim do dia.

O luto em seus olhos seus trajes, seus mantos,
Anjos de lamúria, carpideiras de um negro pranto,

Triunfante suportando este penar,
No cume desta subida impura,
Observo tal ser, presença sinistra,
A face da treva pura.

Aqui, edifico minha eterna morada,
Chorar sobre este punhal, afeto intruso,
Cravo em mim esta força atordoada!
Prisioneira que sou desta treva amada,
Peço te abutre, meu algoz!
Retorna, Sinistro Eu!

Em tua pedra encontro me acorrentada,
Em tua carne encontro-me rendida,
MINHAS VÍSCERAS POR UM BEIJO TEU!!!

Lady Catherine Gordon Of Gight

A LIBERTAÇÃO DO DHEGAMMON


Por Rogério Silvério de Farias
Se de fato existirem deuses que regem nossos destinos sombrios, que eles se apiedem de nossas almas miseráveis neste vale das sombras da morte que é a Terra!

Estou velho, agora, acabado e numa cadeira de rodas, mas minha mente continua lúcida e minha memória perfeita. Minha insônia crônica só é diminuída quando tomo o Nembutal, o Gardenal e outros barbitúricos. Assim, sedado, consigo algumas poucas horas de sono, tendo ao meu lado o fiel pastor alemão Átila, um cão que é o meu único e melhor amigo.

Passei uma boa parte de minha vida num presídio, pagando por crimes que dizem que cometi. Mas o que fiz foi apenas me defender.

Agora, livre depois de pagar por tudo aquilo que dizem que eu cometi, só me restam as lembranças sombrias e aterrorizantes de um passado metuendo e tenebroso.

Vou contar minha história, vou contar a verdade. Tudo será escrito nesta folha de papel e guardado na gaveta de minha escrivaninha como uma missiva reveladora a posteridade. Por favor, não me chamem de louco!Não sejam levianos e preconceituosos! Existem mistérios diabólicos aqui mesmo neste planeta amaldiçoado, segredos arcaicos de um mundo sobrenatural, invisível aos olhos das pessoas comuns. É todo um universo invisível que existe ao mesmo tempo que o nosso. Um mundo onde vagam estranhas e malditas criaturas, mortas ou não-humanas.

Confesso com toda a sinceridade de minha alma que não fui eu quem matou meus amigos Linx, Paulo Soriano, Henry Evaristo, Celly e Well. Eu juro, não fui eu quem os matou! Que suas pobres almas repousem em paz nos mundos edênicos do Além! Mas, repito, não fui eu quem os matei naquelas férias de verão nas regiões sombrias da Mata Atlântica, em Santa Catarina.

Tudo começou numa manhã de Fevereiro. Tínhamos combinado pescar naquela floresta sombria na encosta da Colina dos Ventos Sussurrantes. Saímos, cada qual com sua mochila às costas, pela trilha que iniciava na descida de uma grande duna nas terras sáfaras da restinga adjacente.

Lembro que Paulo tinha nos alertado sobre o fato de que a névoa insólita e esbranquiçada como uma alma penada estava por demais densa e cintilante naquela manhã sombria.

Well comentava com Celly de que parecíamos estar atravessando os portais que levam a uma outra dimensão.
Irônico, Linx, com os caniços com molinetes sobre o ombro, frisou que se estivéssemos deixando o mundo dos vivos através de algum mecanismo desconhecido da natureza por um caminho hiperespacial telúrico, seria um alívio, diante das desgraças que assolam o plano terrestre, com suas guerras, matanças e egoísmo desenfreado.

Well achou que o ambiente estava enevoado demais para a época. Logo a noite chegou e uma luminosidade débil parecia vir da lua. Paulo era o único que levava a lanterna, iluminando também precariamente o caminho a frente.

Perguntei a Henry onde ficava o lago do bosque onde, segundo ele nos havia dito, estariam os peixes suculentos à espera de nossos anzóis.

Através de uma picada estreita em meio a um oceano de folhas e arbustos, caminhamos durante mais de uma hora, sempre com aquela névoa pegajosa a nos envolver com seus afagos gélidos.

Paulo e a bela Well foram os primeiros a notarem a mudança no ambiente. Houve uma lufada quente de vento que turbilhonou as névoas, dispersando-as como revoadas de espectros na danação do Inferno.

Celly indagou a Linx se estávamos perdidos naquele bosque com fama de assombrado. Linx meneou a cabeça, sombrio, enquanto parava para beber a água de seu cantil, enxugando os lábios com o dorso da mão. Foi ele também o primeiro a sentir que algo nos observava, algo terrível, invisível, grotesco, malévolo. Uma coisa inominável oriunda, não de nosso Cosmo, mas dos reinos demoníacos do caos de ultra-mundos!

Indaguei a Linx o motivo de sua apreensão. Disse-me que tinha a sensação de estarmos sendo espreitados.

De repente Paulo confirmou o que Linx suspeitava, chamando-nos a atenção para um cheiro nauseabundo pairando no ar como um perfume maldito da morte.

Enxofre!, gritei. Parece enxofre!

Linx disse que conhecia certos elementos químicos e substâncias. Não era enxofre, disso ele tinha certeza. Era um aroma bizarro, disse ele, um aroma animalesco, bestial, talvez não do mundo dos vivos, mas de um ser de lugares além de onde os mortos peregrinam na tribulação cíclica do purgatório.

Celly entrou em pânico e começou a chorar quando ouvimos aquele rosnar medonho em algum ponto entre as sombras do bosque maldito.

A bela Well ajudou Celly, amparando-a e dizendo que talvez fosse algum animal herbívoro da floresta.

Henry assentiu, retirando de sua mochila uma arma, um revólver calibre 38.

Perguntei-lhe, nervoso, por que diabos trouxera aquilo, no que ele me retrucou, dizendo que numa floresta como aquela poderia haver alguma fera, por exemplo uma sussuarana faminta vagando por ali, então, antes de vir, achara melhor se prevenir, trazendo a arma consigo.

Foi nesse momento que notei o olhar estranho de Henry. Há muito eu suspeitava de seus estudos estranhos, de seus gostos por livros medonhos e proibidos, particularmente grimórios e formulários de magia negra. Certa vez eu o vira estudando as páginas mofadas daquele tenebroso Necronomicon, o que me causara um arrepio na espinha, pois eu sabia os conhecimentos malignos que aquele livro maldito encerrava!

Paulo Soriano, perspicaz, notara algo também. Ele sabia do envolvimento de Henry Evaristo com rituais necromânticos e esotéricos, evocações proibidas, no passado recente. Henry, com sua sede de conhecimento de coisas do Ocultimo o levara a caminhos do fanatismo, fazendo com que fosse expulso de seitas místicas da selva amazônica, onde um templo piramidal estaria sendo construído para atrair forças energéticas de uma entidade interdimensional malévola que alguns chamavam de Deghammon, o devorador de almas.

A idéia da pescaria naquela região distante tinha sido de Henry. Mas agora, de algum modo eu sabia que ele nos usara o tempo todo, ele tinha segundas intenções naquela pescaria, eu já desconfiava ligeiramente.

Um novo urro bestial fez-se ouvir no silêncio críptico do bosque das assombrações metuendas.

Celly abraçou-se a Linx, apavorada diante daquele som grotesco e demoníaco.

A bela Well gritou para Henry, pediu-lhe que atirasse para o alto ou para as moitas que se agitavam nas proximidades, para assustar a besta, quem sabe. Atire, ela gritou, atire para espantar esse bicho, fera ou demônio do inferno! Atire, vamos! Atire, Henry!

Nesse momento foi que eu e Paulo vimos o cintilar da loucura nos olhos sombrios de Henry. Olhando-nos de um jeito perverso e zombeteiro, Henry mirou em direção a Well com o revólver e soltou uma gargalhada diabólica, uma gargalhada insana, cruel, maquiavélica. Vi quando o gatilho foi pressionado e a bala alojou-se na testa da bela Well, que caiu sobre um pequeno arbusto, morta, os olhos esgazeados pelo terror ao contemplar a morte.

Celly soltou um grito de pavor em meio a choros convulsos de desespero. Linx tentava acalmá-la, afagando-lhe os belos cabelos.

Eu e Paulo gritamos a Henry, dissemos que ele estava enlouquecido, clamamos para que abaixasse a arma.
Tarde demais, seus tolos!, disse-nos com um brilho insano nos olhos sombrios. Vocês foram a isca perfeita para atrair o todo-poderoso Dhegammon, aprisionado na quarta dimensão por magos da Magia Branca! Agora, através de meus rituais secretos, consegui atrair vocês todos, os sacrifícios humanos necessários para que Dhegammon retorne ao mundo dos mortais, e mais uma vez estabeleça seu reinado de terror e carnificina, num império apoteótico de violência e força! Não estamos mais numa simples floresta, meus amigos, pois ao atravessarmos os portões das névoas místicas, adentramos uma região sub-etérica do espaço tempo, estamos num limbo interdimensional, num mundo maldito onde a matéria existe ao mesmo tempo que o espiritual! E agora, em louvor ao todo-poderoso Dhegammon, vocês todos serão mortos como animais que são, servindo de oferendas ao Comedor de Corpos e Almas, ele , o Dhegammon, aquele que foi e sempre será, aquele que atravessa os ciclos negros da vida telúrica, os abismos gélidos do iliáster protoplasmático onde as forças místicas são geradas!

Paulo indagou-lhe, num grito: E que você receberá em troca disso? Libertar uma força inumana em troca de que, Henry? Acorde, não deixe a loucura dominar sua mente!

Tolo!, disse Henry, apontando a arma para Paulo. Eu terei a vida eterna aqui mesmo NO PLANO FÍSÍCO! A imortalidade do corpo, Paulo, foi o que Dhegammon, senhor dos abismos tenebrosos dos espaços negros interdimensionais prometeu-me em sonhos se eu o libertasse dos grilhões mágicos que o prendem!... Cinco vítimas são necessárias para que o ritual de libertação do Dhegammon seja concretizado. A bela Well foi a primeira, seja você, Paulo, a segunda vítima! Ah, ah, ah!

O tiro disparado tirou a vida de Paulo como um raio da morte. Estirado ao chão, seu cadáver era como um troféu conquistado pela loucura de Henry.

Irado, Linx avançou tentando tirar a arma de Henry, mas este se esquivou, dando-lhe uma coronhada na cabeça de seu adversário, que caiu desfalecido. Celly gritou de terror ao ver que Henry executou Linx, caído ao chão, com um tiro na nuca.

Ato contínuo, Henry apertou novamente o gatilho e atirou nas costas de Celly, que fugia apavorada no matagal.

Agora resta você, Roger! Há uma bala reservada para o seu coração sonhador, meu bom amigo! Ah, ah, ah! Vou matá-lo, Roger! E então o ritual místico de sacrifícios humanos ao Dhegammon estará concluído!

Confesso que tremi quando ele puxou o gatilho da alma que apontava para mim, entre gargalhadas diabólicas.

Percebi que Linx, nas vascas da agonia, conseguira forças derradeiras para apanhar seu canivete, e próximo das pernas de Henry como estava, enfiou a lâmina na panturrilha do enlouquecido, fazendo-o curvar-se de dor.

Antes de morrer, Linx gritou: Pegue ele Roger, mate-o e evite o ritual de sacrifícios ao Dhegammon!

Assim tentei fazer. Travamos uma luta corporal. Desferi-lhe socos e murros violentos. Mas Henry estava enlouquecido, e a loucura proporciona forças de ódio àquele que a aninha em sua alma. Ele me deu uma joelhada no ventre, projetando-me ao chão. Mesmo assim, peguei uma pequena pedra coberta de musgo que havia nas proximidades e lancei-o num dos olhos de Henry.

Maldito! Você me cegou de um olho!, berrou Henry, curvado de dor. Avancei e consegui derrubá-lo. Deus tenha piedade de minha alma. Consegui arrancar sua arma e o atingi mortalmente. Descarreguei o tambor em seu corpo. Antes de morrer ele curvou seus lábios num sorriso insano e murmurou: Tolo Roger, mataste a vítima que faltava...era pra ser tu, Roger, mas que seja eu,então...Agora ele, o Dhegammon está livre mais uma vez...Ah, ah,ah!...Adeus, Roger!... Ó deusa morte, abre os portais do teu palácio e acolhe minha alma!Acode a alma do mistagogo da Ordem dos Adoradores do Dhegammon...Aaaaaarrrggghhhh!...

Um urro aterrador se fez ouvir no bosque. Era ele, eu sabia. Era o Dhegammon se materializando por completo!...

Olhei para o cadáver de Henry, os olhos revirados como que contemplando infinitos reinos do Além. Estava morto! Morto, vagando nas terras do purgatório ou nas sombras do inferno.

Ouvi um novo urro bestial, era o Dhegammon se aproximando, se materializando pouco a pouco no mundo dos
homens!

Com todas as forças de meu ser, gritei enlouquecido de medo e corri, corri como um louco pela mata, atravessando o portão das névoas e voltando às dunas da restinga de onde iniciamos o passeio. Os primeiros clarões da aurora iluminavam meu caminho.

Na rodovia sinalizei para o primeiro carro que passava, felizmente - ou infelizmente - um carro da polícia rodoviária. Eu estava encrencado. Trêmulo, pálido, com um revólver na mão, vomitando de tanto pavor, os policiais me algemaram. Outras viaturas vieram e os corpos de meus amigos foram identificados na mata. Estavam, de fato, mortos.

Perguntei aos policiais se eles tinham visto o Dhegammon. Eles menearam a cabeça, silenciosos, um brilho de piedade nos olhos, como que me achando um louco assassino.

Fiquei muito tempo preso. Agora estou velho e liberto.

Quando anoitece, em minha casa fecho portas e janelas. Pego o rifle que comprei. Não estou paranóico. Apenas tento me proteger daquela coisa, daquela coisa blasfema chamada Dhegammon, que por certo tenta me encontrar. Estarei preparado, venha maldito Dhegammon, eu meterei uma bala em seus olhos cor das chamas do Inferno! Oh, Átila, meu cão, põe-se a latir estranhamente...como se me avisasse de que a coisa medonha me encontrou, finalmente, após longos anos...A porta da casa começa a ser arrombada, é ele, é ele! O terrível, o bestial, o demoníaco Dhegammon!...
FIM

NOTA DO AUTOR: O personagem “Dhegammon” é criação do imortal escritor Henry Evaristo. Os outros personagens são homenagens que fiz a alguns desses fantásticos autores da Irmandade das Sombras.

Quinta-feira, Outubro 19, 2006

Noite da Matança



Dedico esse conto a Celly, Well e Charlise de Orleans. Grandes Escritoras e grandes amigas

Era a primeira vez que L., um grande empresário do mundo da moda daria uma festa ou melhor era a primeira vez que ele apareceria para mais de três pessoas. Muitos diziam que ele não gostava de aparecer em publico por causa de uma cicatriz que tinha desde o pescoço até o lábio inferior que tinha ganhado quando brincava com fogo ainda criança e os que o conheciam diziam que seu comportamento era estranho, meio psicótico e que tinha medo de grandes multidões, mas hoje isso só despertava mais a curiosidade de todos, de ver sua reações, ver como ele era de verdade. Os convidados, todos do mundo da moda e da grande mídia, somavam mais de duzentos, o que exaltava claramente o porte gigantesco dessa festa. Diziam que foram convidadas apenas as modelos mais lindas do mundo da alta costura e os homens mais influentes do mesmo.
Já era noite e tudo estava para começar. Repórteres lutavam para obter um canto e um furo sobre a festa, mas o máximo que conseguiam era chegar a uns trezentos metros da entrada, pois a segurança era uma das mais reforçadas que já foi vista. Os primeiros convidados começaram a chegar, iam passando depois de rigorosa conferencia dos seguranças. Entravam e viam que L. não havia economizado nem sequer um centavo para sua comemoração ser inesquecível; comida farta que daria para alimentar muito bem umas quinhentas pessoas, vinhos e espumantes das melhores safras, decoração das mais empresas que haviam, tudo a disposição do seleto que grupo que não parava de chegar. O hall estava já quase todo preenchido e a festa, melhor impossível, pois logo a musica começou a tocar e todos começaram a dançar.
— Que festa show cara! Exclamava uma modelo a outra
— Nem fala. A melhor que já fui
— L. não economizou em nada! Dizia um dos empresários
— Isso é verdade.
Comentários eram os melhores possíveis, as noticias já chegavam na parte de fora e as televisões já falavam do sucesso que a festa estava fazendo e na repercussão que causaria no mundo da moda, principalmente a parte em que L. estava envolvido. Já passavam mais de duas horas de festa e por mais estranho que parecesse não se tinha nem mesmo um sinal de vida de L., em nenhum momento algum convidado viu ele na festa. O comentário virou algo geral, como o anfitrião não apareceria na festa? Onde ele estava? As perguntas ficavam no ar sem resposta, mas a festa não parava e todos se divertiam e comiam o banquete, logo ele apareceria, afinal ele não era acostumado muito com gente.
A hora foi passando e L. não aparecia e todos já falavam que ele tinha desistido de sua grande aparição e que tinha recuado sobre a idéia de aparecer em publico. Era bem provável que ele tivesse ficado assustado com o porte de sua própria festa e tenha se escondido, diziam alguns.
— Olha! Disse uma das modelos apontando ao topo da escada principal
Lá estava L., com um copo na mão e sorrindo, olhando para eles. O som abaixou e um microfone foi dado a L. As portas se fecharam e os seguranças foram todos para fora, formando uma barreira humana ao redor de todo perímetro da casa.
— Boa noite senhores. Disse ele em um tom um tanto sarcástico. Espero que estejam gostando de tudo na festa.
— Você devia dar mais dessas. Disse um empresário, acompanhado de uma salva de palmas e risos dos presentes
— Será um prazer. Mas agora gostaria de dividir com vocês um pouca da minha história.
O publico ficou em silencio, apesar da maioria nem querer saber de nada.
— Eu fui criado em um bairro pobre, cresci nas ruas e desde muito cedo me acostumei com o fato de ser um excluído. Mas um dia decidi que iria mudar tudo e que me tornaria alguém importante, que faria fortuna. Parece até brincadeira do destino eu ter feito minha fortuna em cima do mundo da beleza, coisa que perdi muito cedo – leva a mão no rosto – mas tudo passou e hoje sou alguém sou importante. Disse a mim mesmo que se um dia chegasse a algum lugar, eu faria o que estou fazendo hoje.
O publico grita e aplaude seu anfitrião.
— O que foi? Uma modelo grita no meio da multidão e se afasta, mostrando sua amiga vomitando uma gosma escura
— Ah! Um outro grito e outro vomito, a mesma gosma escura.
Todos começam a passar mal, como se seus estômagos quisessem sair pelas suas bocas. Vômitos por todos os lados e gritos de dor
— O que ta acontecendo... diz um deles quando consegue tomar um ar e voltar a vomitar
— Ah!
Uma modelo cai no chão e sua pele começa a descamar, soltando-se de seu corpo em placas, deixando um rastro de um liquido amarelado, meio purulento. O desespero é geral, os gritos também. Os que conseguem ainda correm, mas as portas estão fechadas. Do lado de fora nada se sabe, todos acham que a festa continua, pois os vidros são a prova de som e as portas estão impenetráveis. Logo o chão do salão se enche daquela gosma preta e de sangue das pessoas que descamavam sem parar
— Gostaram da comida. Eu envenenei tudo. Eu fui humilhado durante toda minha vida por pessoas como vocês; bonitos, ricos, vivendo suas vidinhas, pisando na minha. Um leve sorriso apontou nos lábios de L., admirando aquela cena.
Muitos já estavam mortos e outros ainda lutavam para continuar vivos, agonizando no chão. L. esperou até o ultimo parar de respirar, afogado no próprio vomito, para tomar seu copo. Sentiu seu corpo todo doer e sua visão ficar embaçada e caiu no chão também morto. As portas se abriram depois de um tempo, os seguranças entraram no local, mas apenas encontraram todos aqueles corpos banhadas em vomito e sangue. Nem mesmo a mais forte das criaturas conseguia ver aquilo sem passar mal.
A policia logo chegou e a noticia foi capa de todos os jornais do mundo durante muito tempo. Tudo tinha sido planejado nos mínimos detalhes, até mesmo o veneno, especial, vindo de um contrabando na Colômbia, fabricado com uma receita desenvolvida pelos nazistas durante a segunda guerra, nunca usado em grande escala e encomendado por uma grande quantia por L. a uns três meses. Muitos consideram L. como o homem mais cruel que já pisou na face da terra, sendo comparado a Adolf Hitler e Charles Mason, outro o veneram como um deus. Já foram descobertos mais de cinqüenta planos iguais inspirados nele pelo mundo.

LINX
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Quarta-feira, Outubro 18, 2006

O DEGHAMMON


O DEGHAMMON (Parte I) - por Henry Evaristo
Em uma região isolada do mundo, onde a presença do homem ainda hoje é inusitada e efêmera, há uma estrada que leva aos pés de uma montanha íngreme e gelada; Lá, pára abruptamente como se impedida de avançar por alguma força avassaladora que a transforma radicalmente em um pequeno caminho incrustado na pedra que vai subindo até se perder na altura imensurável.
Ao redor desta montanha estende-se, como um mar verde misterioso e inescrutável, um profundo bosque de pinheiros cujas copas estão constantemente recobertas por uma espessa camada de neve. Uma e outra, montanha e estrada, dormem solitárias em seu mundo gelado e não recebem nem gostam de receber visitas. O bosque silencioso e escuro é sua única companhia e o ballet das folhas e dos galhos dos pinheiros, açoitados pelo vento cortante, é o único movimento aceitável. Chuvas constantes mantêm a atmosfera húmida, mas a lama que se forma está sempre imaculada por que não há nenhuma vida animal que lhe possa imprimir marcas. Em silêncio e mantendo-se escondida, no entanto, há ali uma força indescritível e malévola.
Homens estranhos, vindos de algum lugar para além da montanha e dados à uma cultura de sortilégios e outras práticas mágicas, construíram a estrada há milênios pois precisavam dela para transitar com suas mercadorias escusas. Mas a mudança das eras e a chegada de um inimigo terrível os fizeram desaparecer da região para sempre a deixando abandonada e só pelos séculos vindouros. Antes, porém, um terrível conflito se deu neste lugar e o sangue jorrou abundante pelas matas e colinas alcantiladas emprestando a tudo um odor de mal-agouro; um presságio de eras malditas banhado nos fluidos de antigos conjuradores. Não houve sequer uma alma para se salvar da violência daqueles dias e, exauridas as vontades e as vidas, com o declínio do bem, o bosque mergulhou no mais profundo esquecimento. O inimigo, vencedor incólume, descansou e esqueceu-se de si mesmo perdendo-se depois no tempo tal qual o urso pardo que ali hibernava em outras épocas quando o sol ainda não se tornara tão cinzento.E o oponente devorador ficou tão quieto que o próprio mundo se esqueceu dele.
Então a floresta se calou, e assim também a estrada e a montanha; e o silêncio, tão comum e repetitivo, passados mil anos, tornou-se a única verdade conhecida.
No entanto, na noite do primeiro milênio, a consciência coletiva do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha percebeu uma alteração em suas verdades. Uma outra inteligência, conhecida de velhas eras, começou a se esgueirar pelos ermos, escondendo-se por trás das árvores na neblina, errando aqui e ali, perscrutando o ambiente. Uma força irresistível emanava daquela nova presença e toda a existência da região se abalou.
Diante da ameaça, a consciência do bosque, da estrada, dos pinheiros e da montanha sentiu-se impelida a reagir. De tudo tentou para dominar a vontade alienígena, mas estava impotente frente ao poder indescritível; aturdida com tão grande afronta a sua soberania. Ventanias vieram; nevascas, tremores de terra, mas nada foi capaz de afugentar a entidade obscura que tentava se apossar de tudo.
O tempo passou. Impotente, a consciência do bosque, da floresta, da estrada e da montanha aceitou a autoridade de um poder maior que o seu e um silêncio angustiado se fez onde antes havia uma calma milenar. O inimigo dos homens de outrora estava de volta.
Na primeira madrugada do século XXI todo o existir daquele lugar antigo encolheu-se e resignou-se a dar passagem a uma aberração que estava solta no mundo e os moradores da cidade mais próxima, a mil quilômetros de distância, inquietaram-se com os gritos pavorosos emitidos pelos animais da região. No momento em que o horror saltou dos confins do bosque para o meio da estrada escura todos os cães uivaram num lamento que congelou o sangue nas veias de quem ouviu. Os ânimos se acirraram e antigas contendas, há muito sufocadas, vieram à tona e foram às vias de fato. Ataques violentos tomaram conta da noite da cidade e, nos hospitais, doentes terminais e depressivos levaram a cabo a própria eutanásia. À polícia, impotente e despreparada, coube a tarefa de tentar conter as ondas de ódio súbito que congestionavam a linha de chamadas de emergências enquanto, nos hospícios, lunáticos dilaceravam, à dentadas, as veias dos próprios pulsos.
No meio da estrada solitária dois olhos de um vermelho-sangue prateado reluziram nas trevas enquanto um corpo imenso e negro erguia-se nas patas traseiras e começava a caminhar lentamente em direção à cidade. Seu intuito era alcançar regiões um pouco mais movimentadas pois, definitivamente, seu período de ócio terminara. Ainda que para um alívio há muito tempo ansiado o hóspede que foram obrigados a aceitar os estivesse abandonando, o bosque, os pinheiros, a montanha e a própria estrada sentiram uma imensa tristeza por saber que ele estava agora indo novamente espalhar maldades entre os homens.
( FIM DA PARTE PRIMEIRA )

O DEGHAMMON (Parte dois) - Por Henry Evaristo

INTRODUÇÃO
Esta é a continuação de "O Deghammon", um ser infernal que está para começar um período de trevas em uma localidade do interior de um país imaginário. Contudo, olhando agora, passado algum tempo de sua publicação original no site "Recanto das Letras", percebo que o nível criativo e literário que lhe foi aplicado não faz justiça à primeira parte. Não sou capaz de definir os motivos que levaram a este fato mas também não posso negar uma obra que existe, e já foi avaliada como está, sem alterações, tendo recebido elogios positivos apesar de tudo.
Tudo o que criamos é para nós muito importante e nos desperta amor incondicional. Assim ocorre com este texto. Porém, em famílias onde nascem muitos rebentos sempre pode ocorrer de vir ao menos um defeituoso.
Henry Evaristo
18-10-2006
CAPÍTULO UM
Através da escuridão de florestas sombrias uma entidade selvagem e brutal se esgueirou. Solitária e furiosa, mantivera-se incógnita nas sombras dos bosques avançando sempre até atingir seu objetivo. Apesar de seus longos anos de inércia todo o seu corpo encontrava-se num tal estado de efetividade como se jamais, em nenhum momento, houvesse entrado em descanso ou, invés disso, tivesse descansado tanto que recuperara todas as energias gastas em séculos e séculos de existência. Por entre as brumas das madrugadas solitárias de lugares que assustam os homens ela vogara avistando, aqui e ali, fazendas distantes e isoladas em campos imensos. Podia até mesmo divisar as pequenas janelas de vidro das casas cintilando no escuro e, em muitas ocasiões, aproximara-se para dar uma espiada no interior onde, inocentemente desprecavidos, seus habitantes dormiam. Seu imenso corpo ondulava com extrema facilidade enquanto corria pelos caminhos das vastidões frias por onde passava. Uma vez ou outra suspeitara ter sido flagrada por algum andarilho incauto que, com um calafrio, houvesse fitado os campos longínquos por onde sua sombra corria banhada pela metálica luz do luar, mas isso nunca fora algo que a detivesse em seu caminho. Ansiara tão ardentemente por localidades mais habitadas que, às vezes, arriscara-se a vagar pelas estradas em busca de indícios de alguma movimentação mas sempre deparara-se, ao contrário, com o mais completo isolamento nas regiões que cruzara. Atingira agora uma que lhe agradava. Após caminhar secretamente cerca de mil quilômetros a entidade alcançara o que lhe parecia ser a zona rural de uma cidade de médio porte; A primeira que vira desde que saltara para fora de seu esconderijo secular em bosques já distantes. Mergulhando na floresta, mas de forma a nunca perder de vista as casinhas brancas do bairro mais próximo, aquietou-se novamente a esperar. Em silêncio rondou por muitos meses aquela localidade sentindo cada vez mais dificuldades para controlar a fome crescente. Seus instintos estavam cada vez mais aguçados e a cada minuto passado sentia aproximar-se mais a sua hora; O momento em que reiniciaria o trabalho pelo qual fora solto no mundo. Para aliviar a ansiedade, primeiro passou a atacar ferozmente os caules das grandes árvores para depois, inconformado, avançar sobre todo e qualquer animal que lhe cruzasse o caminho. Em sua mente bestial não via mal algum em dispor de alguns itens daquele pequeno universo, e se assim não fosse, sentia-se vigoroso e faminto o bastante para desafiar até mesmo as potências as quais devia submissão. Assim, pois, foi como começou a se expor e a dar origem à especulações humanas.

CAPÍTULO DOIS

A grande e milenar floresta de Malgred extendia-se ao norte do estado de Elton e parecia envolver com tentáculos de um polvo gigantesco a cidade de Zalees, no ponto mais extremo da região já próxima à fronteira com as cordilheiras de Házdan. No inverno o frio intenso obrigava os moradores da cidade a se recolherem mais cedo de forma que as ruas, avenidas e becos escuros dos bairros residenciais e do centro ficavam abandonados e desertos até o dia amanhecer. Sempre que podiam os habitantes de Zalees se reuniam nas residências uns dos outros e confraternizavam com bolos e bebidas de fabricação própria. Eram, em sua maioria, descendentes de povos árabes dados a cerimônias pouco usuais no mundo ocidental.
Em 25 de Dezembro de 2001, por volta das duas da manhã, um homem alto e gorducho saltou para fora de uma das casinhas brancas tão comuns na cidade e caminhou apressadamente em direção aonde se iniciava a linha da floresta, pelo lado de trás da habitação. Parou a poucos metros de distância no ponto onde julgou mais improvável que fosse surpreendido por algum dos convidados da festa enquanto eliminava da bexiga parte do vinho alemão, do qual abusara durante a ceia de natal, em meio à neve que caia. Podia ouvir os ruídos da agitação no interior iluminado com velas e cheirando a incenso e, mesmo sob a gemedeira do vento cortante urrando por entre as árvores próximas, ainda conseguia ouvir os gritinhos das "meninas" da cidade e imaginar seus torpes movimentos. Com mãos trêmulas e semi-dormentes, já recobertas por uma fina camada de pequenos flocos de neve, desabotoou as calças e começou o que viera fazer; a torrente quente formando uma pequena cortina de vapor ao chocar-se com a temperatura congelante do exterior de seu corpo.
Primeiro foi a movimentação que atraiu a fera para próximo da casinha branca ainda cedo naquela noite. Depois veio a irritação por causa dos ruídos de risadas, gritos e música alta. Ela passara a rondar pelas matas ao redor da residência e observara cada um dos convidados chegando e saindo. Há alguns dias vinha recebendo impressões não-usuais do meio ao seu redor; impressões bem semelhantes às que já sentira antes, quando era chegada a hora de iniciar uma nova batalha; soubera então que era novamente tempo de guerra. Sabia-o agora também... e estava mais que disposta. Em meio a neve e a escuridão seus olhos faiscaram ao captarem a imagem de um homem solitário parado próximo do ponto onde se escondera quase à margem da floresta. A porta da frente da casinha branca se abriu de repente e por ela saiu uma garota loura de no máximo 20 anos. Com as mãos sobre o cenho franzido parou no limite da varanda e começou a gritar para o homem na neve mesmo sem poder vê-lo na parte de trás. "Dank, meu amor, Por que demora tanto? Estamos te esperando!!! Dank!!!". Mas o homem ainda não terminara o que fora fazer e virou-se para responder esforçando-se para se fazer entender em meio a algazarra do vento. "Já estou indo, meu bem!!! é que..." Mas não terminou a frase. Pelo canto do olho direito pensou ter visto um brilho estranho na escuridão pétrea da mata a sua frente mas no mesmo instante o perdeu de vista. Com as mãos sem tato tentou fechar o zíper da calça mas a operação lhe pareceu terrivelmente difícil. Como o brilho de duas lanternas que estivessem lado a lado dirigindo o facho de luz para ele de um ponto diretamente à sua frente no negrume da floresta surgiram, agora bem definidos, dois pontos brilhantes prateados. O homem parou de tentar fechar as calças e observou o estranho efeito que supôs tratar-se de algum reflexo da neve nas folhas enregeladas de alguma árvore bem próxima. Não podia divisar nada mais claramente devido ao mau tempo e ao ardor que lhe causava nos olhos. Também o excesso de bebida embotava sua mente e sua capacidade de raciocínio. Se estivesse sóbrio com certeza se lembraria das conversas que andara ouvindo pela cidade sobre algum tipo de animal que andava atacando a caça da região nos últimos meses mas, naquele momento de embriaguez, só o que conseguiu pensar foi em como era divertida aquela visão ou como eram engraçados aqueles dois vaga-lumes enormes entre as árvores.
Da parte da frente da casa a voz feminina chamou novamente. Era doce e compassada como a voz de quem tem dificuldades com as palavras." Dank? Por que está demorando tanto?" Mas ele já não estava mais lá; Num daqueles rompantes de coragem inconseqüente, que só o estado etílico propicia, havia avançado para dentro da escuridão da floresta em ordem de averiguar mais de perto aqueles dois pontos de luz exóticos. Dank, como gritara mais de uma vez a moça da varanda, não era natural daquela cidade. Estava ali residindo a apenas um ano e, em lugares como aquele, um forasteiro continuava nesta condição mesmo após trinta anos de convivência. Por isso ele não sabia de certas coisas sobre o local; Peculiaridades vitais para todo aquele que pretendia se meter com os bosques à noite. O povo jamais lhe diria qualquer coisa; se não por outro motivo, por pura vergonha. O que Dank não sabia era que não se podia entrar na sombria floresta de Malgred depois do anoitecer. Não era um lugar sadio nem mesmo à luz do dia e, à noite, como toda certeza, por alí vagavam animais estranhos. Mesmo antes da chegada deste antigo inimigo do homem nas cercanias, o que ainda não era sequer imaginado por ninguem mais além dos velhos mexeriqueiros das tabernas imundas do centro da cidade, toda a porção gigantesca da velha floresta era considerada perigosa e responsável por pelo menos uma dezena de desaparecimentos misteriosos. Agora, habitada secretamente por uma criatura hedionda, Malgred se tornara de fato numa espécie de inferno na terra e passara a legitimar o horror que já suscitava na população.
O homem avançou para dentro da escuridão com os olhos fixos nos pontos de luz à sua frente. Cada vez mais se assemelhavam a enormes vaga-lumes devido à força de seu brilho e, em seu torpor alcoólico, nem mesmo lhe foi possível imaginar como poderiam estar tão completamente imóveis em se tratando de seres vivos. Também lhe passou ao largo o fato de que enquanto se aproximava, aqueles dois focos prateados voltaram-se diretamente para ele. Estavam parados próximo ao tronco de uma grande árvore tão imersa nas sombras do bosque que não lhe foi possível sequer suspeitar sua espécie. De onde estava o homem pôde observar que os dois pontos de luz estavam na realidade bem mais altos do que ele imaginara ao avistá-los do ponto inicial na margem da floresta. Parecia, em verdade, mais do que insetos, dois fachos de luz metálica paralelos ocupando o lugar que seria da própria copa da árvore em que se escondiam. Em determinado momento, pouco antes do fim, o homem chegou a pensar que, se houvessem ursos naquelas matas, o volume negro representado pelo tronco da árvore poderia muito bem ser o corpo de um em cuja cabeça reluziam dois olhos brilhantes. Afastou o pensamento rapidamente com um sorriso nervoso e recomeçou a andar. No entanto, mal havia dado o terceiro passo quando viu, diante de seus olhos bêbados, toda a massa negra do que julgara um tronco de árvore se mover para o lado direito de sua visão enquanto os dois brilhos no alto se tornavam de prateado em vermelho-sangue. Na escuridão da mata gélida o homem tremeu e dali em diante seus pés não mais se moveram pois todo o seu corpo parecia subitamente congelado de pavor.
O movimento final veio rápido. O homem ergueu sua cabeça para olhar para os olhos malévolos à sua frente. Não mais podia imaginar que não se tratasse de algum animal agressivo e, tampouco, crer que sua vida não estava em extremo perigo. Abaixo dos dois pontos de luz abriu-se então uma fenda avermelhada pontilhada por estruturas pontiagudas e um fedor putrefato se espalhou pela floresta. "Óh, meu Deus!" Pensou o homem que se chamava Dank "É um urso!". Tentou dar as costas àquele ser mas não pode. Alguma coisa de extremo peso e violência desceu sobre ele atirando-o ao chão e enterrando seu rosto na lama e na neve. Depois, um golpe violento dilacerou a carne de sua garganta e de suas costas indo até a coluna vertebral arrancando partes dela de uma vez. O homem tentou erguer o rosto do chão para gritar mas já estava morto e seus últimos movimentos foram tão somente reflexos involuntários de seu sistema motor.
Outro convidado havia saído do interior da casa e juntara-se a moça loura a gritar por Dank da varanda. Em dado momento, mais ou menos dois ou três minutos depois do ataque que ocorrera, os dois julgaram ter notado uma movimentação estranha nas matas ao redor seguida de um ruído semelhante a um relinchar de cavalo." O que este maldito bêbado está aprontando desta vez?" Perguntou o outro convidado. A loura se virou para ele. " Cansei de gritar! Está muito frio aqui e não gosto dessa mata horrenda. Vamos entrar, querido. Ele que se dane!!!". O outro convidado limitou-se a assentir afinal, sem Dank por perto poderia ter uma chance com aquela bela mulher antes que a noite findasse. De braços dados voltaram novamente para a festa no interior da casa. A mata ficou novamente quieta. O cadáver de Dank só seria encontrado dois dias depois congelado e semi-devorado por alguma criatura selvagem. Muitos caçadores formulariam suas teses e as velhas supersticiosas começariam a dizer que suas idéias se confirmavam. Para Zalees, às margens da escura floresta de Malgred, o horror estava apenas começando.

(Em breve a terceira parte)

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

A IRMANDADE NÃO PÁRA!!!


FICAMOS SEM ATUALIZAR DURANTE UM TEMPO, MAS NÃO MORREMOS, ESTAMOS VIVOS, FIRMES E FORTES (É QUE UM DE NOSSOS MEMBROS AGORA ESTÁ NO MUNDO MÁGICO DO AMOR - PENA NÃO SER EU HAHAHAHAHAHA). ENTÃO SE VOCÊ TEM UM TEXTO SOMBRIO MANDE PARA NÓS, FICAREMOS HONRADOS EM TE-LOS EM NOSSA IRMANDADE. NOSSO E-MAIL É irmandadedassombras@yahoo.com.br. SE É SUA PRIMEIRA VEZ, BEM VINDO, VOCÊ ESTÁ A BEIRA DO INFERNO HA HA HA HA HA

ENTÃO AVANTE I.S. RUMO AO UNDERGROUND DO HORROR BRASUCA

LINX

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^ CARTA DE UMA VÍTIMA ^



Perdão pela demora em publicar minha querida Celly

Dedicado à minha irmã Marcy e ao meu irmão Luiz que definitivamente não gostam de histórias de Vampiros e à curiosidade da Bianca, uma nova amiga muito querida.


Alguns corredores eram largos, outros mais estreitos, mas nada impedia que eu corresse cada vez mais, mesmo esgotada de cansaço, eu continuava. E mais, e mais, e mais...
Já não tinha mais fôlego e queria parar. Por um minuto hesitei, mas acabei parando. Olhei para todos os lados, para me certificar de que adquirira uma boa distância daquele lugar maldito.
Com uma ação involuntária, encostei-me na parede, mas logo percebi que não deveria ser muito normal aquela textura. Era gosmenta. Logo que meu cérebro recebeu esta informação, tirei minhas mãos de lá.
Liguei minha lanterna, que guardara para alguma ocasião como se mostrava aquela, e apontei para a parede.
Só consegui gritar, mas logo cortei o grito, pois poderia ser descoberta. Tentando ficar longe daquela parede, de com as costas na outra, apontei também a lanterna ali, e era a mesma visão: as paredes todas estavam cobertas de musgo, muito musgo, mas o que mais me deixou horrorizada, é que havia sangue escorrendo em meio aquele verde escuro.
E eu já estava sem fôlego. Tentei correr outra vez, mas não me era possível.
E eu sabia que havia alguma coisa correndo em minha direção, mas o que eu poderia fazer, além de tentar outra vez, em vão, corre? Era agonizante esta sensação, desesperadora! Que cruel destino me mantinha presa àquela criatura que nem ao menos a mim pertencia? Eu era apenas uma curiosa, uma idiota, penso agora, desafiada a entrar naquele lugar abandonado para provar que a lenda era apenas lenda, e agora tornara-se real, com a minha vida ganhara a realidade, este mundo que eu tanto criticara todo o tempo por ser tão cruel, e agora eu fazia parte dessa crueldade, pois querendo ou não, agora a criatura era parte de mim e eu dela! Mas então do que eu fugia? De mim mesma! Voltei.


Passamos por aquela construção abandonada, e um de meus amigos disse que havia algo estranho, que uma lenda contava que um monstro vivia naquele lugar, mas ninguém ao menos sabia que tipo de monstro havia realmente. Meus “amigos” me desafiaram, pois sabiam que eu não acreditava no sobrenatural, que tola fui eu naquele momento em que aceitei o desafio! A bem da verdade, nem eles acreditavam no monstro, mas queriam me ver desafiada e entrar naquele lugar para que eles fugissem e me deixassem só, o que realmente fizeram, por sorte deles mesmos, pois quando saímos daquele lugar estávamos famintos, e necessitávamos de sangue!, e com certeza eles seriam meu primeiro banquete neste novo mundo em que agora vivo!
Mas é claro que mesmo não estando lá meus amigos, os encontrei alguns dias mais tarde e pude banquetear neles, e posso dizer que o gosto da vingança é sensacional, ainda mais quando nossas vítimas imploram tanto que acabam exaustas e posso, sem nenhum esforço, saboreá-las.


Porém agora sou minha vítima, ou melhor, vítima de minha curiosidade e ignorância por aceitar aquele desafio, mas hoje posso ser livre e ser como eu quero, mesmo antes já o sendo. Sou uma criatura da noite e sem nenhum receio da maldade que antes estava armazenada em mim e não podia usa-la, agora sou livre. Minha maldade está livre! E isso é maravilhoso!


Quando entrei naquela construção abandonada, acreditava que nada poderia me faze mal, mas estava enganada, andei até o final daquele enorme corredor, mesmo sem enxergar praticamente nada, pois já começara a escurecer havia algum tempo, entrei em um aposento pouco iluminado, e, como não podia saber o que acontecia naquela sala, fui caminhando com a mão esticada caso encontrasse algum objeto à minha frente, mas não foi objeto que eu encontrei, foi meu mestre, foi o Vampiro Hadrian, a quem agora eu devo tudo o que sou e o que serei eternamente, e estarei a seu lado e ele ao meu!


Depois da minha transformação, saí correndo, mas pensei direito, e não poderia jamais viver sem meu mestre, tinha muito a aprender, voltei para Hadrian, saímos juntos para nossa primeira caçada juntos, pois logo já sentia sede. Ah, como posso me lembrar perfeitamente daquele dia, como se fosse ontem, mas já se passou um século, e ainda sinto aquela mesma sede, mas se me permitem, paro aqui esta carta, pois estas recordações me fazem sentir ainda mais sede, e vou agora procurar meu jantar!


Atenciosamente,

Hannah Leah.

H.G.B. Celly (Miss São José dos Pinhais RSRS)

O doce veneno de Charlise



Aqui estou eu novamente... Tentando explicar a todos como sou. Em vão compreendem aqueles que só imaginam o que se passa pela minha mente, em vão é procurar o motivo. Nada pode ser explicado quando se sofre,quando se está feliz, eu estou feliz agora, porque finalmente eles pagaram... Os meus escolhidos finalmente tiveram seu castigo. Porque quando eu sofria não existia motivo, agora há. A minha vingança. Cada vez que sinto a respiração ofegante e um pedido de socorro. É aí que me realizo, tudo acontece quando se faz pagar um crime...Todos devem estar se perguntando porque não termino o que começo,porque o fim é muito simplório..A pessoa tem que se lembrar pra sempre que ela não deve fazer mal aos outros,a sua maior inimiga é a sua consciência..É ela que não te deixa em paz, que te atormenta, que te faz lembrar todos os dias uma mentira contada, um segredo escondido é ela que te faz ter medo do que ao conheces...E a mim ninguém conhece e jamais conhecerá......Sou muito complexa e muito absorvida em meus rancores e pesadelos..jamais semeie algo que não quer pra você...porque eu te farei lembrar todos os dias do mal que tenhas feito a alguém...Nunca diga o que não queres que aconteça..porque eu posso te provar que as palavras têm poder...Até o próximo encontro,e a próxima conversa...Só digo uma coisa: Cuidado!!!! Posso estar aí ao seu lado.

CHARLISE DE ORLEANS (A MUSA DE CAMPO GRANDE RSRS)

Segunda-feira, Outubro 09, 2006


A MALDIÇÃO DE AKLATHENOHM
Por Rogério Silvério de Farias


Na misteriosa e remota infância do mundo, quando o homem era apenas um sonho incipiente dos deuses esboçado em carne, sangue e fúria, havia uma grande terra, chamada Druzuxkulhulpion, constituída de um único e gigantesco continente sobre as águas de um oceano turbulento e de águas quentes e revoltosas, onde a vida subaquática ainda era escassa e jovem. Os sábios do futuro chamariam esse oceano de Pantalassa, e essa terra de Pangéia, mas seus nomes verdadeiros eram Garith e Druzuxkulhupion, respectivamente. Na grande cidade-estado de Lmnir, também capital de Druzuxkulhulpion, onde habitava o estranho povo-lagarto, grotescos humanóides, meio homens e meio répteis, com seus palácios de ouro e prata e suas espadas de djiryuwn (uma espécie de aço negro e cintilante de então, tirado e forjado de um grande meteorito em forma de caveira humana que caíra no vale de Zizar), vivia e mandava o malvado e opressor rei do povo-lagarto, Aklathenohm, que mandara construir uma torre gigantesca de ouro maciço, maravilha do continente único de Druzuxkulhulpion. Aklathenohm, com seu orgulho titânico, resolvera construir aquela torre colossal que, segundo ele, tocaria o céu e faria cócegas no ventre rotundo dos deuses antigos das estrelas distantes. A rainha, sua esposa Arktília, de índole perversa também, concordara em tudo, submissa, lasciva, entregue a concupiscências pecaminosas. Em Lmnir, eram cultuados os sete deuses maiores druzuxkulhupionitas: Zantrah, Tarabachibuch,Vlig, o branco Milac, Zorthiay, Guh, o folião do pandemônio e também o terrível e negro Bed. Todavia, o rei de Lmnir adorava o deus menor, malévolo e antigo chamado Sharthak, também conhecido como deus-lagarto da discórdia e do ódio; Aklathenohm e seus sacerdotes e fiéis adoravam Sharthak como se fosse um deus único. Mas o orgulho de Aklathenohm era mais satânico do que o povo pensara. Entre o povo-lagarto, havia uma casta menor de druzuxkulhupionitas, mestiços, híbridos de primatas e répteis humanóides, considerados párias. Eram os Hadanos, que futuramente dariam origem aos australopithecus e pithecanthropus, numa evolução alucinante esboçada pelos deuses da Criação. Os hadanos eram como um esboço dos homens feito pelas mãos dos deuses antigos e esquecidos no tapete da existência terrena, e quem tenha ouvidos que não sejam moucos, ouçam estas minhas palavras e esta minha história, pois fui o cronista desta era de sombras perdida na grande noite dos séculos. A maioria dos hadanos servia como escravos, gladiadores ou serviçais, mas também havia uma parte de hadanos livres e nômades, de uma outra casta de mestiços, e alguns desses eram xamãs , guerreiros e até mercenários bárbaros. Um dia, Aklathenohm mandou exterminar todos os hadanos da face de Druzuxkulhulpion. Ele queria a supremacia e a pureza total da raça dos homens-lagarto druzuxkulhupionitas. Nenhum maldito mestiço seria poupado, segundo seu louco pensar. Todos os hadanos, livres ou escravos, de todas as castas, seriam presos e sacrificados em honra ao maldito deus Sharthak (“Sharthak” na língua dos druzuxkulpionitas queria dizer “aquele que chafurda nas cloacas imundas do inferno do caos” ou “o que rastejou das sombras dos lamaçais do inferno caótico para matar os viventes”). Hadanos escravos ou hadanos livres seriam queimados vivos em grandes fornos em forma de caveiras nas misteriosas montanhas de Zlor, ao sul do continente único de Druzuxkulhupion, maravilha única do mundo antigo. Trancados nos sinistros fornos nos cumes das montanhas zlorianas, os hadanos foram sendo dizimados pouco a pouco, dia após dia, noite após noite, num genocídio lento e horrível. Os gritos medonhos de horror e morte foram ouvidos durante anos pelos homens-lagarto de Lmnir, sem nenhuma piedade. O insano Aklathenohm costumava dizer sarcasticamente a Arkitília, quando ouvia os gritos de agonia:”Estou ouvindo a minha música favorita, minha querida: a música da morte violenta dos seres inferiores, os hadanos!’’. E ambos gargalhavam em meio a uma esdrúxula luxúria pecaminosa. No dia em que queimaram vivo o filósofo, profeta e xamã hadano de nome Merugiteth, da aldeia livre de Kzor, ouviu-se uma maldição negra ser vomitada da garganta desse mago hadano antes de sua morte, uma maldição do velho sábio hadano versado em conhecimentos místicos proibidos de esferas ou reinos astrais e etéricos invisíveis ao olho comum. A maldição do mago tido como louco pelo rei do povo-lagarto ecoou por todo o reino de Lmnir, chegando aos ouvidos de Aklathenohm como um hino de vingança macabra. Aklathenohm, postado paranoicamente em seu trono, lá no alto de sua torre colossal feita de ouro maciço, parecia estar atravessando os portais da loucura e do remorso. Sem dúvida, Merugiteth evocara entes demoníacos da natureza e da face oculta da lua para atormentar a consciência de Aklathenohm que pesara tal qual uma montanha de granito. Em seu trono de ágata e lápis-lazúli, Aklathenohm ouviu em sua mente a maldição negra de Merugiteth, lançada ao rei durante noites e noites inteiras de delírio e febre alucinantes. Eis, em síntese, a maldição proferida pelo feiticeiro Merugiteth: “Amaldiçoada seja o reino de Lmnir e toda a corrupta Druzuxkulhulpion, maravilha pecaminosa do continente único! Eu a amaldiçôo com todas as forças negras de meu coração hadano apodrecido e carcomido pelo ódio e pelo desejo de vingança! Haverá um dia em que este reinado de ódio contra o povo hadano perecerá para sempre. Virão muitas chuvas, trovões, terremotos, maremotos, cataclismos criados pelos deuses invisíveis da natureza e pelos demônios verdes que dançam silenciosamente na face escura da lua, e tudo será destruído, tudo será purificado, desenhando-se, assim, um novo mundo com uma nova geografia, um mundo que não mais se chamará Druzuxkulhulpion, mas sim...Lemúria!... Que fique o maldito rei Aklathenohm, com seu orgulho anormal e satânico sabendo que os hadanos não irão morrer nunca!...
“Conseguimos ocultar um jovem casal nas montanhas de Saphyr, nos bosques e jardins ao norte das montanhas de Éthen, que servirá como sementeira para uma nova raça. O hadano macho chama-se Hadan e a fêmea chama-se Revah. Revah dará a luz em breve, perpetuando e evoluindo a raça hadana para a raça humana, no ciclo inteminável de nascimento e morte da vida neste mundo. E, após as pestes e os cataclismos, a maldição perpétua cairá implacável sobre o último dos homens-lagarto, o reio Aklathenohm! E então o tirano perecerá em dores e solidão atrozes e eternas!” Quando por fim vieram os cataclismos profetizados, vieram também os terremotos e os maremotos, vieram pragas e doenças terríveis que mataram todos os homens-lagarto, até que restou apenas um, aquele em sua torre gigantesca de ouro, perto do céu, perto das estrelas distantes e desconhecidas, perto da lua cheia maldita, o tirânico e louco rei Aklathenohm, sozinho com sua arrogância, sua luxúria e sua empáfia, com seu egoísmo diabólico, com seu louco e abominável deus Sharthak, que o abandonara para sempre. E com sua terrível doença que o tornara um autêntico morto-vivo! A mesma coisa aconteceu com a rainha Aktília, completamente vencida pela insanidade nascida da voluptuosidade malsã, teve sua pele e carne apodrecidas em vida. Aklathenohm gritou de horror e loucura em sua torre dourada, que inexplicavelmente não fora destruída pelos cataclismos e pela Era Glacial que se seguiu. O rei, atônito, viu ruir seu império e sua nação. Segundo os Pergaminhos Negros de Saahrhayrtrung, encontrados ainda nas ruínas dos templos de Saphyr, escritos pelos próprios Hadan e Revah, que então começaram um novo mundo, o rei Aklathenohm, no auge do seu desespero e horror, juntamente com a rainha, teriam visto uma estranha e luminosa nuvem verde de aspecto discoidal e fantasmagórico descer da lua numa noite fria e agourenta, envolvendo o topo da torre e levando o rei tirano e sua rainha inteiramente vivos, porém enlouquecidos, para muito além das estrelas do firmamento negro.
O tempo passaria por anos e séculos antes dos demônios cosmonautas que viajavam na estranha nuvem luminosa e espectral oriunda do lado negro da lua trouxessem de volta ao então mundo da Lemúria o rei Aklathenohm e a libidinosa rainha Arkitília, que involuíram de tal modo, que se tornaram tiranossauros (foi assim que surgiram esses monstros colossais do passado remoto da terra!), e que, no decorrer das eras, involuiriam ainda mais, passando de dinossauros até tornarem-se aquilo que os homens do futuro chamariam... lagartos.

Domingo, Outubro 08, 2006

Ao Destruidor dos Meus Sonhos



Como poderei agradecer-te por tãos bons momentos...Esses os quais jamais sairão da minha memória... Seu jeito de tocar, seu jeito de beijar..Com você me sinto uma diva...Uma deusa..Amada e respeitada..e como meu Deus? Como pode tudo acabar? Porque você destruiu todos os meus sonhos... Tantos momentos de desejo, tantas loucuras que fizemos juntos. Eu sempre dizia que era louca e apaixonada. Hoje sou triste e melancólica. Triste porque você não está mais aqui..você acabou com meus sonhos...Porque fizes-te isso? Como pode acabar com algo tão precioso? Por uma simples desconfiança, um ciúme sem sentido... Uma dor toma conta do meu coração. Porque você fez isso comigo? Eu estava tão apaixonada... Não tinha olhos pra mais ninguém... E até meus olhos você os rancou.... Olho ao meu redor,só vejo sofrimento..pessoas que como sofrem por um amor perdido..Lembra-se o que fizes-te comigo? Mesmo aqui onde estou... meu corpo ainda têm as marcas que deixas-te com aquele facão... Lembro-me quando dizias... tens um corpo lindo e ele é fruto do pecado... cobiça de muitos homens... algo jamais sonhado pelos fracos homens... e então você levantou o facão para o céu e começou a minha desgraça... acho q a única coisa inteira que restou foi o meu cabelo... algo que o você não podia ferir... e muito mais q isso... MINHA ALMA.... nela não tocaste... e nunca tocarás... espero te encontrar um dia... porque pagarás pelo que me fez.... e muito mais sofrido que possa imaginar... muito mais doloroso e lento... pode apostar... hahahaha... cuide-se... a dor chegará...

CHARLISE DE ORLEANS

Sábado, Outubro 07, 2006

A CRIATURA DO MAR


A CRIATURA DO MAR

Autor: Paulo Soriano (www.contosdeterror.com.br)

Não sei como sobrevivi. Se é que sobrevivi verdadeiramente.

O Urano, um galeão de bandeira grega, saíra do porto de Roterdã com destino às Antilhas, com escalas em Lisboa e nos Açores, mas foi surpreendido por uma tempestade, a poucas milhas do arquipélago. O dia estava claro e o ar diáfano. Respirava-se uma atmosfera luminosa e pura. Mas, de repente, do nada veio uma neblina fria, pegajosa em seus múltiplos tentáculos, que engolfou o galeão como a mão de um deus inclemente. E depois veio a chuva, uma chuva áspera, pesada, e contínua, encontradiça apenas nas regiões mais agrestes e desoladas dos trópicos. Então ribombaram trovões. Os raios retalharam a neblina como finíssimas garras nervosas. Sentimos todo o casco estremecer, perfurado pelos gumes afiados dos arrecifes angulosos. O casco rompeu-se docilmente, como se a sua substância fosse tênue como o invólucro de um ovo. A água jorrou por todos os lados e eu fui violentamente arremessado ao mar. Embora fosse dia, a névoa densa convolava tudo em treva, e foi com muita sorte que consegui segurar-me a um barril de vinho em que um velho companheiro já havia buscado refúgio.

A tempestade amainou, mas o ar continuava saturado pela neblina fria. O mar estava incrivelmente calmo, mas não nos era admitida a projeção de um olhar capaz de perfurar a espessura de toda aquela névoa. Nada mais se enxergava. Mas, de longe – muito longe, supúnhamos –, o vento trazia uma canção melodiosa, cuja origem nos parecia um mistério tão espesso quanto o eram as brumas circunstantes. Quando, finalmente, a treva se dissipou, tão inesperadamente quanto viera, eu e meu companheiro constatamos que não estávamos sós. Com horror, verificamos, aos poucos, que muitos corpos flutuavam no espelho d’água, bem próximos de nós. Eram marinheiros do Urano e todos eles traziam, singularmente, as cabeças decepadas. Os corpos desolados exibiam os pescoços cruelmente dilacerados. E não nos e era possível estimar a dimensão das mandíbulas que produziram tamanha aberração.

Anoitecia. Oh, como era linda a moça que vinha ao nosso encontro, em seu bote gracioso, para nos salvar! Com que elegância e delicadeza nos estendeu os braços brancos e majestosos! Com que cuidado deu-nos água, vinho e pão! Era ela diáfana como o orvalho da primavera e longos eram os seus negros cabelos, que a brisa enfunava com uma meiguice sem fim. Vestia uma túnica branca, como de deusa grega, que descia do colo e lhe escondia completamente os pés.

Quando a noite veio, repleta de luar, a nossa salvadora acendeu o lume e nos cantou maviosamente, como nos cantaria uma sereia. Quando meu companheiro adormeceu, a musa chamou-me a si e me selou com um beijo calmo e profundo. A princípio doce, saboroso, seivoso... Mas a seiva azedou, ganhou uma consistência de uma gosma, repugnante como o sabor de ostras apodrecidas. Nauseado, o meu companheiro despertou. Fora a intensidade do cheiro pútrido, de criaturas marinhas decompostas, que a mulher exalava, que o fizera acordar-se. A verdade é que eu queria me desvencilhar da criatura, mas não podia. Estava preso a ela como ostras incrustadas nos cascos de navios avoengos. Então a coisa me repeliu. Avançou para o meu amigo, engendrando um bote assustadoramente rápido e eficaz. Seus olhos, que agora eram dois imensos globos de azeviche, refletiram o grito inerme do meu companheiro. E da fralda de sua túnica escapuliu, pesadamente, a cauda de peixe, a mesma cauda que ela tão bem escondera de nós, mas que agora, em sua excitação, pôs-se a abanar num ritmo frenético. Percebi, na luninescência que o candeeiro irradiava, que a pele da coisa se rompia, rasgava-se em tiras, desnudando malhas de escamas sobrepostas, fortemente unidas entre si, mas maleáveis, escuras e fétidas. Seu rosto se fazia bojudo, opaco, guarnecido de fortes e salientes mandíbulas, encrespadas por dentes anavalhados. Então aquilo distendeu assustadoramente os maxilares, de onde escorria uma gosma fétida, e, num assalto voraz, lacerou a cabeça de meu amigo. Com horror, vi que a coisa se punha a mastigar e a engolir ruidosamente, com uma voracidade somente comparável ao deleite que o triturar do crânio lhe produzia.

Depois, a coisa atirou-se ao mar. E, enquanto lentamente se afastava, a Lua me permitia ver que a sereia retomava, aos poucos, do púbis para cima, a bela forma de mulher.

Novamente anoitece. A brumas vieram e agora se dissipam. Estou trancafiado num catre de um pequeno barco pesqueiro. O mesmo que me recolheu, há dois dias. Julgam-me louco. Não me ouvem. Mas, como eu gostaria de gritar aos homens do bote salva-vidas – que consigo divisar da escotilha esfumada desta cela imunda – para que não se aproximem aquela mulher. “Oh! – eu diria – Não socorram aquela coisa de túnicas brancas e cabelos negros! Oh, não socorram o demônio cruel que, como um anjo indefeso, clama por socorro em um bote à deriva!”

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

Um encontro com o Demônio



O PRIMEIRO CONTO QUE EU PUS NO RECANTO DAS LETRAS, ESPERO QUE GOSTEM

ABRAÇOS A TODOS DA IRMANDADE DAS SOMBRAS, O UNDERGROUND DO TERROR BRASUCA NA INTERNET

Estava chovendo aquela noite, e fazia muito frio também, afinal o inverno paulistano costuma ser muito rigoroso nessa época do ano, e para muitos não era algo tão terrível, pois a essa hora estavam dormindo debaixo de seus tetos, em suas camas confortáveis, cobertos e aquecidos, mas para muitos, como os moradores dessa praça no centro da cidade, era realmente terrível e não só pelo frio, mas também pela chuva que cismava molhar seus corpos mesmo quando tentavam se proteger embaixo de uma arvore ou marquise. Em um dos bancos, embaixo de uma arvore estava J., deitado pensando na sua vida, ou sobrevida como costumava chamar, pois aquilo não era vida, aquilo era o próprio inferno, um inferno gelado naquela noite. Olhava a chuva, e os pensamentos vinham em sua mente, recordações de outros tempos, recordações daqueles dias...
“...era um dia muito bonito até e eu tinha acordado muito feliz, como já não fazia tempos, olhei para o lado e ela estava lá deitada, dormindo como um anjo, olhava para ela e não conseguia acreditar que ela me traia com outros homens e naquele dia olhando ela, com a luz do dia atravessando a janela, não acreditava realmente. As pessoas falam demais pensava eu, mas eu estava errado, mais do que eu imaginava que pudesse estar. Tomei um banho, escovei os dentes, tomei um belo café da manhã e fui trabalhar. Não tinha muito trabalho e eu resolvi ir para casa mais cedo, afinal era o último dia da semana e até meu chefe havia ido embora, porque não ir. Passei antes de chegar em casa num mercado e comprei algo para comer e beber, pensava que porque não fazer um agrado a ela, ela merece e eu estou tão bem hoje, meu Deus como pude ser tão idiota. Cheguei em casa e ao abrir a porta ouvi uma música baixa e vozes de homens. Deixei tudo no chão e subi as escadas até o nosso quarto e vi ela com outros dois homens fazendo... merda e eu não consegui fazer nada além de sair do quarto e sentar na porta e deixar ela terminar. Ouvia os gemidos, os gritos dela, aquilo me cortava por dentro, me sentia um nada, um lixo. Algum tempo depois, percebi que eles tinham terminado e me escondi atrás de outra porta, a do quarto de hospedes, e esperei que eles saíssem para falar com ela. Corri até ela e lhe dei um tapa no rosto com tanta força que ela caiu no chão.
— Vagabunda, como pode fazer isso comigo?
— Porque você é um frouxo, um merda, que nem me satisfazer direito você sabe!
— É que você queria mais, queria ser metida por dois ao mesmo tempo, sua puta!
— Queria sim! Sou mesmo uma vagabunda. E você não passa de um corno!
Aquilo estava ficando insuportável, e eu apenas virei as costas em meio aos seus gritos histéricos e sai dali...”
Depois daquele dia, acabamos nos divorciando e ela com a ajuda de alguns amigos (muitos até amantes), pagou bons advogados, acabou no final ficando com tudo que era nosso, não sei como até hoje, mas ela conseguiu, acabou comigo. Depois de um tempo acabei perdendo meu emprego, meus amigos, minha vida, e tudo que me sobrou foi essa praça e esse trapos que estou vestindo.
Dormir eu não estava conseguindo, o frio, a chuva e aqueles pensamentos na minha mente, não me deixavam em paz nem um segundo. De repente reparo em algo estranho: uma senhora vestida de preto, com um xale vermelho escarlate cobrindo sua cabeça, olhando o chão. Não via direito seu rosto, nem outros detalhes mas o que mais me chamou a atenção para aquela senhora era que a sua volta parecia estar seco e se dava a impressão de estar quente, mesmo com toda aquela chuva, estava seco, como podia, mas pensei ser só impressão causada pelo meu sono e um pouco pela fome que estava passando. Não demorou muito e reparei que ela também olhava para mim agora e me fez um sinal que me pareceu um convite para me aproximar (confesso que começava a sentir um pouco de medo).
Pensei um pouco e resolvi me aproximar. Sentia uma leve sensação ruim, mas minha curiosidade era maior que aquele simples arrepio que sentia pôr dentro. Aproximei-me dela e me fez um gesto para que eu me sentasse ao seu lado. Me sentei e virei o rosto em sua direção e pude ver seu rosto com mais detalhes: era bem enrugado, com varias marcas, seus olhos eram pretos e pareciam não Ter pupilas, seu cabelo era bem preto o que não seria muito comum para uma senhora na idade que ela aparentava. Tinha um queixo pontudo, e orelhas grandes e compridas, bem mais que o normal. Reparei também que sua roupa estava suja de algo que parecia terra e que suas mãos além de tão enrugadas quanto seu rosto, tinham grandes unhas pretas e pontudas, como unhas de algumas raças de cães. Ela virou seu rosto para mim e deu um sorriso sarcástico, o que me fez notar que seus dentes eram todos podres.
— Olá J.
— Como sabe meu nome? Perguntei eu bastante intrigado
— Ora J., eu te conheço, conheço sua vida.
— Como? Perguntei eu, agora assustado mesmo.
— Não pode imaginar quem eu sou
— Não.
Ela deu um novo sorriso, e olhou no fundo dos meus olhos e eu vi aquela cena, da minha mulher com aqueles dois homens no nosso quarto, como se a tivesse vendo ao vivo, como naquele dia. Desviei o olhar e ouvi que ela deu uma leve risada. De repente veio uma idéia a minha mente, uma idéia de quem poderia ser aquela velha. Me recusava a acreditar em aquela hipótese que veio a minha mente aquela hora ser verdade, mas algo me dizia que era: estava diante do demônio.
— Conseguiu entender quem está diante de você
— Você é um..., pensei um pouco, gaguejava muito mas falei... demônio
— Não sou um demônio. Sou o demônio, Satanás ou Lúcifer se preferir.
— Meu Deus. Disse eu meio pôr impulso
— Deus, que invocar Deus agora. Veja só sua vida, olha o que Deus fez a você
Ao dizer isso olhei para minhas roupas e minhas mãos. Tudo sujo e rasgado, e apesar de tudo, agora naquela situação, achei mesmo que era tudo culpa de Deus.
— Porque você apareceu a mim. Falei eu baixo, mas com um pouco mais de coragem
— Não tenha medo. Eu só quero te ajudar, te dar a ajuda que Deus não quis lhe dar
— O que? Disse eu já com uma voz alta e segura
— A se vingar o que mais, não é esse seu maior desejo
— Sim!
— Então não quer se vingar
— Sim eu quero
— Não quer matar aquela vadia?
— Sim! Disse eu agora com uma mistura de prazer e ódio
— Então, te darei essa chance, de matar sua mulher
Ao dizer isso um prazer demoníaco me consumiu e todo ódio que sentia pôr aquela que tinha destruído minha vida aflorou. Vi a chance de me vingar e queria aquilo mais do que tudo agora.
— E o que você ganha em troca?
— Uma alma, sua alma
O sangue congelou em minhas veias e senti o arrepio mais gelado da minha vida corre minha espinha. Ele queria me levar ao inferno, queria que eu lhe vendesse minha alma, como eu faria aquilo? Como....
— Pôr que você tem tanto medo? Não quer me servir, prefere servir ele – disse isso e apontou para cima – é isso que prefere, ele só quer que você o adore pro resto da eternidade, eu não, só quero que você seja um dos meus homens na batalha final contra ele. Fique do meu lado, do lado dos vitoriosos.
Pôr mais que tenha ouvido falar sobre céu e inferno, Deus e o Diabo e tudo isso, pôr deveria acreditar nos outros, nos que me excluíram quando eu precisei. E Deus? Porque crer nele? Tinha a chance de me vingar e não iria a perder.
— Irei ser seu solado é isso?
— Sim claro, e quando chegar a hora, você lutará junto com os outros contra Ele.
— Então eu aceito, me de minha vingança e eu serei seu soldado.
— Então que assim seja!
Dito isso tudo ficou escuro e quando vi alguma coisa, vi minha casa, a casa que eu perdi e onde ela estava. Vi também que minha roupa tinha mudado: era a mesma que eu estava usando naquele dia em que ela me traiu – uma camisa verde claro, uma calça jeans azul claro e sapatos pretos. Olhei para o lado e vi um cachorro todo sujo e machucado e com marcas de sarna pôr todo corpo até as orelhas. Estava pronto para chuta-lo dali quando reparei em seus olhos, pretos como os dá..., agora eu entendi, era ela (“ele”, melhor dizendo). O cachorro foi até a porta da frente, parou na frente dela e olhou para mim, como se dissesse para eu vir a ele. Cheguei perto dele e da porta, tentei abri-la e para minha surpresa ela abriu. Entrei dentro da casa e ele logo atrás, olhei a entrada me lembrando dos velhos tempos, quando eu chegava do trabalho cansado e sentava no sofá da sala em frente, onde ficava minha televisão e meu rádio. Ele caminhou até a cozinha e indo atrás dele, vi ele parado do lado da mesa de jantar e uma faca de cozinha brilhante, como se tivesse sido lustrada, com um cabo preto, grande e afiada em cima dela. Peguei a faca e a contemplei, logo depois olhando a direção da escada. Olhei para ele, mas ele ficou onde estava, até voltou o olhar para mim, mas voltou o olhar para frente e ali ficou, passei então pôr ele e caminhei até a escada com a faca nas mãos. Subi degrau pôr degrau bem devagar e silenciosamente, cheguei ao topo e novamente parei e recordei os bons momentos. Como era bom chegar em casa e ver aquele corredor, com meu quarto no final dele e com minha..., parei de pensar e caminhei até o quarto. Cheguei na frente da porta segurei a maçaneta, respirei umas três vezes bem fundo – meu coração parecia que ia sair pela boca – e abri a porta vagarosamente. Vi ela deitada na cama de bruços, sozinha, bem no meio dela. Usava uma camisola rosa claro, uma que eu tinha lhe dado em um dos seus aniversários e que ela dizia gostar muito. Estava meio coberta, meio descoberta e a luz da lua refletia sobre lua. Olhei aquilo e pensei em desistir, dei até um passo para trás, mas ao olhar para baixo ele estava lá, olhou bem no fundo dos meus olhos e novamente eu vi aquela cena, abaixei a cabeça, fechei os olhos e me aproximei da cama. Fiquei bem ao seu lado, levantei a faca no máximo que conseguia e lhe dei o primeiro golpe, perto do coração, mas só lhe acertei um ombro. O sangue jorrou pelo corte e molhou toda cama; ela acordou com um grito de pavor, se arrastou para o lado e eu lhe dei outro golpe, dessa vez na perna.
— Ahhh! O que está..., o que está fazendo, pare! Gritava ela apavorada e chorava muito.
— Cale a boca! Disse eu e lhe dei outro golpe, dessa vez no braço.
— Pare, pelo amor de Deus! Pôr favor! Não!
— Morre vadia!
Dito isso golpeei-lhe o pescoço com toda minha força. O sangue jorrou no meu rosto e nas paredes, ela deu um último grito, caiu na cama e morreu. Joguei a faca no chão e dei um grito. Corri daquele quarto, desci as escadas com o coração acelerado e de um vez cheguei do lado de fora. Tinha me vingado, tinha me vingado até que enfim. Olhei bem para frente e lá estava aquela velha, olhando para mim com um meio sorriso.
— E então, gostou?
— Sim, muito. Disse eu olhando para o sangue nas minhas mãos. Matei a vadia!
— Isso, muito bom. Agora você é meu servo.
— É eu me lembro, quando morrer irei te servir.
— É, pena para você que isso não vai demorar.
— Do que está falando...
Comecei a sentir uma forte dor no peito que começou a se irradiar para meu braço. Cai ajoelhado e olhei para cima, vendo a velha me olhando e rindo.
— Comendo aquelas porcarias, bebendo, fumando e usando aquelas drogas, achou que ia viver até quando? Disse ele dando uma gargalhada alta e grossa.
— Não posso morrer! Não agora! Não me deixe...
A dor aumentava e eu comecei a ver tudo escuro. Meus olhos foram ficando pesado e meu corpo também. Cai e não senti mais nada, mas logo senti meu corpo e meus olhos conseguiram se abrir novamente. Estava num lugar sujo, com várias ruínas pôr todos os lados. Pessoas magras e sem vida no rosto vagavam pelo lugar e me vendo, começaram a se aproximar. Chegando perto começaram a me bater, tentei fugir e depois de um pouco de luta consegui. Corri olhando para trás e ao olhar para frente vi uma mulher com o braço, o ombro e o pescoço cortado; era ela que veio me dar as boas vindas a meu eterno sofrimento...

LINX

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

SUBMISSÃO




Por Lady Catherine Gordon of Gigth

Lasciva que sou,
Lascivo que és,
Das virtudes desfeita, em meus delírios sorvendo sangue de vossos pés!
Serva perversa em desespero impassível
O lamento em meus lábios,
Amaldiçôo, pobre de mim, minha sorte, meu revés,

Apesar da laje que te cobre, ainda posso ver-te
Do solo fétido, da nevoa de vermes e do gramado verde,
O riso de escárnio breve, gentil verdugo,
Estás na podridão e eu embriagada, sob o teu jugo!
Até o mais vil humano se apiedaria,
Os olhos a revirar no êxtase dos lábios teus!
Meus lábios a venerar da tez de Mármore a glória
Teu aroma em minha carne, teus olhos doces na memória!
Das profundezas meu sangue clama
Meu verdugo, Impiedoso,
Teu olhar malévolo, capuz infame,
O machado sanguinário

Imploro-te, sê o meu sudário!Retorna!
Eis o clamor que regurgito!
Atravessa o cal, quebra o mármore
Irrompe do tumulo, maldito!

VELÓRIO DANTESCO


Por Cláudio Soriano e Roberto Brandão.
Havia, numa sala jamais iluminada pela felicidade, um móvel escuro, sombrio, pessoal. Tão pessoal que sempre o usamos uma inédita e única vez na vida ... ou na morte.
Um corpo jazia frio e inerte, sem observar — porque não podia — as pessoas que em prantos ali estavam. Elas tocavam o esquife dolorosamente. Muitas adjacentes ao caixão permaneciam. Choviam gotículas garoentas naquela fúnebre cerimônia.
Todos sustentavam a idéia de que ele estivesse realmente morto — porém, não! A catalepsia vem para este infeliz de maneira trágica; a anomalia estréia de forma decisiva.
O cataléptico, jazido ali, em sua geométrica caixa fúnebre, num velório dantesco, não podia ver ninguém, mas ouvia com uma perfeição lupina!
Apavorado com a terrível situação, sabendo de um provável sepultamento, desespera-se com a macabra oportunidade: ao término do prazo de enumação, quando desenterrado for, estará horrendamente revirado, como quem não goste de descansar na tradicional fúnebre posição.
Tenta mover um músculo que sugerisse aos parentes alguma referência de sua existência como vivo, mas não obtém êxito... já não adianta mais! Alguns homens já trazem a tampa do caixão: o selo da morte!

OSSADAS ESQUECIDAS


Autor: CLÁUDIO SORIANO

Sob a efígie do monumental deus da morte, Tanatos, estabelece- se a sepultura da criatura humana; a vala que a todos enterra com extremíssima simplicidade.
A estátua marmórea observa atentamente o processo da putrefação. Antes, vivo e alegre a respirar, o homem; agora, crânio e túmulo, ossadas esquecidas, entregues ao tempo.
Assim, Tanatos mais uma vez profetiza: “ O que se ergue do pó, que deste se surge, a ele retorna; engulo todos os homens, inclusive aqueles que não me temem!”
Os outros sepulcros coexistem de maneira secundária, formando uma extensa necrópole. Contudo, seja Tanatos o rei dessa temida vastidão.
Mas, tentando fugir do implacável destino que vos aguarda, caro leitor, não podeis entregar os vossos restos ao esquecimento eterno; algumas ervas daninhas da vida ainda podem ser regadas, pois!

Terça-feira, Outubro 03, 2006

PESADELO




PESADELO

POR: HENRY EVARISTO


Noite passada sonhei com uma invasão de alienígenas. Vi milhões de naves, pequeninas e gigantescas, avançando por sobre os prédios de uma grande cidade adormecida. De algum ponto de uma região rural em que me encontrava, sentia-me impossibilitado de auxiliar quem quer que fosse, meus entes queridos, meus amigos, meus inimigos. Tudo para mim agora se acabava na visão daquelas luzes multicores oscilando por sobre os campos longínquos abaixo de um céu revolto de tempestade. Uma tristeza tão profunda se apossara de mim que o peso em meu peito quase chegava a ser ainda maior que o medo da violência que parecia se avizinhar.

Com lágrimas em meus olhos corri por uma estrada deserta que cortava extensa e sombria região de fazendas antigas e silentes e, à falta de qualquer avistamento de alguma criatura humana, meu corpo tremeu como o de uma criança perdida no escuro de seu quarto quando lá fora o vento açoita os galhos de alguma árvore ancestral que lança sombras como diabos dançantes nas vidraças. Do horizonte chegava aos meus ouvidos como que o zumbido de algum engenho demoníaco misturado aos lamentos dos primeiros homens e mulheres massacrados pelas intenções que se apoderavam da terra. Senti o frio da madrugada ardendo em meus pulmões enquanto continuava avançando por tamanha escuridão solitária, e então me chegou às narinas o hediondo odor adocicado de algum tipo de carne escusa que queimavam ao longe. Junto a tudo, como que para piorar ainda mais meu horror, havia a fina chuva que caia e que tornava o mundo ainda mais soturno e terrível.

A estrada parecia não ter fim e minha exposição naquele lugar aberto colocava cada vez mais minha vida em risco. Eu, porém, apenas conseguia pensar naqueles que me eram caros e que, misteriosamente, naquele momento, se encontravam longe de mim. Meus pensamentos me faziam avançar cada vez mais rápido a despeito das possibilidades de meu corpo que já começavam a me abandonar. Em minha mente via aqueles veículos alados, discos voadores prateados e cinzas, atacando impiedosamente os lugares que me eram caros pelos quais pareciam ter uma nefanda predileção; e contra tudo o que eu mais amava eles incidiam com fúria titânica. Era como uma perseguição cósmica; como se aqueles inimigos houvessem saltado de seu porão no universo para liquidarem especificamente comigo e, em meus loucos devaneios, até mesmo suas caras repuxadas se assemelhavam à minha enquanto apontavam suas estranhas armas para os meus familiares.

Alucinado corri e corri por aquela estrada escura e as cinzas dos mortos da terra me cobriam as vestes ensopadas. Por todos os lugares via agora os executores dos homens. Podia enxergá-los saindo de detrás das árvores que margeavam meu caminho. Soube então, agora mais do que nunca, que finalmente estava só no mundo e a mortificação desta vez me dominou por completo fazendo-me dobrar os joelhos e desabar sobre o asfalto úmido embaixo de meus pés.

Prostrado fiquei no meio daquele caminho que era antes um solitário corredor de campos, fazendas e matas longínquas, mas que agora fervilhava com a presença ominosa de seres metade pássaro, metade peixe. Dominado por um medo mortal, curvei minha cabeça num desesperado sinal de submissão pelo qual talvez tivesse minha vida poupada. Depois de alguns minutos uma daquelas coisas "peixe-pássaro" se aproximou de mim flutuando num uniforme translúcido que deixava a vista sua pele flácida e asquerosa. Ela me olhou e tocou-me com uma de suas mãos... Ou... Patas. Depois falou qualquer coisa com os outros que nos rodeavam e então, ó agonia minha, todas aquelas bestas começaram a rir de mim e apontar-me com suas garras encarquilhadas.

No momento seguinte, todos, de uma só vez, desapareceram. E todo o som e toda a cinza se escoaram junto de forma que tudo voltou a estar imerso em silêncio e calma como estivera antes, em seus dias comuns. Como se nada daquilo houvesse existido, me encontrei só novamente no meio da estrada. Mas um sentimento esmagador de inquietação começava a me dominar para além de tudo o que eu já experimentara até então.

Calado e atento avancei para a cidade e, por onde passei, mesmo depois do amanhecer, jamais avistei outra presença que não fosse a da minha própria sombra se arrastando atrás de mim. Não restara mais ninguém em todos os lugares que visitei e, nos anos seguintes, em minha triste solidão, me aventurei por todos os recantos que me eram humanamente possíveis sem o auxílio de um automóvel; visto que todas as máquinas estavam paradas, queimadas, mortas como o resto do mundo. Porém, suas carcaças continuavam intactas brilhando ao sol como vi em uma enorme rodovia abandonada ao sul: milhares de carros, vans, caminhões; Inertes como se tocados pela morte que toca o homem; E aquilo servia apenas para demonstrar para meus nervos abalados que o poder que viera com os estranhos ainda estava presente de alguma forma e que, algum dia, era provável, seus proprietários voltariam para reivindicá-lo.

Estabeleci-me bem alto em um edifício de luxo quando entendí que agora tudo me pertencia. Com o passar do tempo meu organismo acostumou-se a ingerir e processar os mais diversos tipos de alimentos não comuns ao homem.

Toda noite ia até a janela e observava a escuridão lá fora. Jamais avistei sequer o brilho de alguma ínfima luz no horizonte e as silhuetas dos prédios imersos nas trevas se assemelhavam a terríveis animais gigantes me espreitando do escuro. Do alto, as estrelas com seus fantasmagóricos brilhos bruxuleantes eram as únicas testemunhas de minha agonia; elas e as caras repuxadas que se esgueiravam por trás. Esperava avistá-las, a qualquer momento, olhando de volta para mim em meio às trevas do mundo.


Assim foi o meu sonho... Meu pesadelo. Não sei até que ponto ele faz sentido a não ser como testemunho de nossa solidão eterna em meio à vastidão opressora de um universo mal-intencionado.

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

OS VENTOS DO URRADOR Por Henry Evaristo


Na tarde em que os primeiros ventos gélidos do inverno sopraram das cordilheiras de Haszdan caminhei com meu velho pai pelos campos e morros de nossa ancestral propriedade. O cinzento do dia e a fina camada de água que nos atingia, umedecendo nossos rostos alvos e nossas vestes negras, nos impeliam a falar de fantasmas e monstros. Como era agradável estar de volta àquele lugar na companhia de uma figura tão majestosa como a daquele ancião encurvado e encarquilhado, ouvindo as velhas estórias que um dia acarinharam e embalaram as noites dos meus tempos de criança! No entanto, agora, os lábios ressecados e encolhidos deste senhor não traziam mais palavras imbuídas da mesma segurança aconchegante de outrora quando o fogo ardendo na lareira, de onde chegava o suave crepitar da madeira em combustão, ou as pesadas portas de carvalho com tramelas, nos separavam das coisas negras do mundo. Antes de tudo, suas frases emanavam no ar sensações macabras; sentenças de medo sobrenatural.

De seres malditos falou meu pai em meio a tarde invernal. Criaturas monstruosas habitantes dos poços e bosques que nos rodeavam; comedores de carnes e almas humanas que se arrastavam e se espojavam encobertos pelas trevas e brumas dos pântanos longínquos. Coisas negras, amortalhadas e flácidas que saltavam de suas tocas, fossas e abismos para avançarem sobre os cadáveres decompostos dos cemitérios da região no esquecimento da noite, na escuridão.

Ai de mim! Jamais poderei esquecer aquela tarde em que o frio parecia me envolver como o abraço da morte que vai penetrando a pele e, esmigalhando ossos e órgãos, avança como um verme dos lamaçais pútridos do Tártaro*.

"Menino!" Disse o velho quando atingimos o cume de uma elevação cujos limites chocavam-se abruptamente com uma lúgubre floresta de árvores negras retorcidas. “Quero hoje, agora que já me encontro no fim desta existência terrena, que você conheça um pouco dos mistérios do lugar em que nasceu". Dito isso, olhou ao redor parecendo então concentrar as vistas em algum ponto perdido no horizonte. Depois, agarrando meu braço com suas débeis mãos, fez sinais para que sentássemos no chão. Enquanto um sol pálido e encoberto começava a rumar para o firmamento enregelado e uma neblina espessa surgia vindo, quem sabe, dos confins dos bosques, ele suspirou e começou:

"Neste lugar, ao qual chamam floresta Malgred, habitam, desde tempos imemoriais, forças que estão além da compreensão e da aceitação humanas. São seres malévolos, visíveis ou não, que se esgueiram livremente por entre as árvores e no fundo das cavernas mais profundas. Alguns estão aqui por opção e se mantém reclusos e quietos, porque em exílio ou retiro, mas outros, os que foram trazidos à força de suas insondáveis vastidões infernais, estes não têm e não querem paz. São os diabólicos resultados dos feitiços e das conjurações deste povo oriental que aqui se estabeleceu quando estas matas escuras ainda dominavam toda a região. Estes, sim, são malévolos! Coisas demoníacas que se escondem dos vivos e a estes odeiam tanto que desenvolveram, ao longo dos séculos, um apetite voraz por suas carnes. Você mesmo ouviu em sua infância as inúmeras estórias sobre os diabos dos bosques de Zalees; esta nossa famigerada cidade que foi criada sob as cinzas das maldições da santa inquisição. Pois eu lhe asseguro, agora que já não tenho muito mais pelo que esperar e o fardo deste maldito conhecimento me fustiga as costas como nunca: Estas abominações são todas reais e estão aqui, agora, nos rodeando e nos espreitando como um leão faminto nas savanas da África. E nós somos suas presas, todos nós, os humanos, pois seu poder quer emanar daquí para o mundo e, para isso, espera apenas o tempo correto."

“Ouça!" Disse meu pai voltando-se novamente para as negras matas distantes que desciam das cordilheiras enevoadas, de onde brotava agora uma estranha ventania. Continuou, então, num tom desolador. " Estes ventos são para nós. Sopram das más intenções destes lugares esquecidos. São os ventos do urrador que chegam a açoitar nossos cabelos. E só isso basta para que nos tornemos parte de sua maldade."

De repente vi estender-se no céu uma terrível mancha escura e como que uma pressão absurda atacou meus ouvidos. Do lado oriental de toda aquela imensidão fria vinha, agora, trazida pelo ar, uma espécie de voz lamurienta; como se fossem milhares de criaturas em terrível agonia que se auto-comiseravam em uníssono.

Olhei apavorado para o velho e ele estava, ao mesmo tempo, sorrindo e chorando. E de seu lábios ressecados pelo tempo e pelo horror pareciam saltar curtas palavras que para mim soavam desconexas e sem sentido ao passo que para ele pareciam ensejar uma espécie de rito ou oração visto que, ao pronunciá-las, fazia sinais mágicos com as mãos em riste. Eu, atônito, começava a sentir toda a minha racionalidade explodindo diante do impossível enquanto que do céu medonho parecia baixar sobre nossas cabeças o presságio de mil caretas de demônios escondidas por entre as nuvens.

Sem saber o que fazer, dobrei os joelhos e juntei-me ao ancião, quase caindo sobre sua figura magra e abatida. Porém, ao procurar aproximar meus ouvidos de seus lábios, a fim de tentar entender o que ele apenas balbuciava seu hálito atingiu em cheio meu rosto provocando uma inevitável onda de náuseas junto com uma constatação terrível que me destruiu por completo. Uma baforada fétida, de coisas hediondas em decomposição, era o que brotava da fenda escura que se tornara sua boca, e seus lábios, antes apenas pálidos, estavam agora roxos e intumescidos, com um aspecto flácido merecedor do mal-cheiro que exalava. Não era mais meu pai, aquela coisa que diante de mim se prostrava. E vi quando de suas costas saltou um bando asqueroso de vermes que pareciam brotar como uma praga das bordas de sua camisa.

Aquela criatura limitou-se a lançar-me um olhar malicioso; uma expressão tão horrenda de sarcasmo e malevolência se estampara em seu semblante que mal pude manter-me encarando-a. Foi quando me voltei para o lugar de árvores retorcidas e avistei, parada, ao longe, uma figura de pesadelo. Envolta em neblinas que desciam de cordilheiras distantes e espectrais, parecendo, ela mesma, tão terrível quanto tudo o que eu já ouvira naquela tarde, estava uma sombra imensa, parada na borda da floresta como alguma divindade que saltasse de bosques oníricos para assaltar o mundo dos mortais. No mesmo instante tive plena certeza de que era dela que brotava o lamurio vindo com o vento.

Subitamente senti um puxão em minhas roupas e o apertar de mãos vacilantes se fechando em torno de meu braço. Virei-me e lá estava de volta meu velho pai, caído ao chão e tentando sofregamente buscar ar em seus pulmões combalidos. Atirei-me sobre ele tentando desesperadamente ajudá-lo a respirar, mas tudo o que fiz restou em vão, pois sua vida não mais a este mundo pertencia. Sua hora chegara ali, naquele lugar condenado e esquecido, onde coisas execráveis faziam suas tocas e esperavam pacientes a hora certa para imporem suas vontades.

Como um animal assustado meu pai olhou-me nos olhos e até hoje suas últimas palavras retumbam em meus ouvidos deixando-me com os nervos abalados em noites em que o vento sopra e assobia nos cantos escuros e carcomidos das paredes da nossa antiga propriedade.

"Agora sois quem guarda o segredo destas matas. É tua a obrigação de guardá-lo bem e transferi-lo aos teus para que nunca se aventurem pelos bosques remotos. Quando as coisas vierem, no meio da madrugada nevoenta, elas procurarão primeiro o portador deste conhecimento maldito e, sejas tu ou teu filho ou teu neto, deve estar pronto a servi-las como está predito, por força de maldição, no inferno. Este é o desígnio que te passo, ó filho meu, com pavor e por obrigação, pois te digo, agora que o oblívio já me alcança, que aqueles velhos feiticeiros orientais que abriram as portas deste mundo às potências do inferno eram também meus ancestrais."

Dito isso, se foi o homem e restei eu, agora único sobre esta terra a sustentar o abominável fardo. Mesmo passados trinta anos daquela tarde invernal, por trás de meus olhos cansados ainda se esgueira a imagem da terrível aparição; A sombra horrenda que sorriu para mim de seu recanto na floresta e depois me deu as costas para voltar ao interior escuro dos bosques deixando atras de si um rastro de árvores retorcidas. Ainda me doi a cabeça ao lembrar de sua careta diabólica reproduzida nas faces mortiças de meu ente mais querido.

Hoje estou velho e meu neto brinca inocentemente nos jardins cinzentos. Em breve terei de partir, mas antes devo levá-lo até as colinas e confiar-lhe o que um dia me foi confiado passando-lhe assim a maldição que se abate sobre nossa miserável família. Às vezes avisto sombras correndo por onde ele corre e figuras malignas saltando por onde ele salta. Estará se aproximando a hora fatídica dos homens do mundo? Estará chegando o dia da divisão desta terra com as entidades imundas? Em breve serão entre nós as legiões do urrador das matas e poços; As coisas negras das missas sacrílegas. Ainda estaremos aqui quando vierem e, por certo, não teremos para onde fugir. Nos subjugarão e apavorarão. E comerão nossas almas.


*- Tártaro: inferno mitológico grego

Domingo, Outubro 01, 2006


O Sétimo

Por H.G.B. – Celly

A todos que participam da I.S., em especial ao meu irmão Linx e ao meu amigo Rogério, pelo sonho realizado!



Numa noite muito quente, Ronald derretia de suor em baixo daquela túnica e do capuz. Queria levanta-lo para enxugar o rosto, mas Joana, sua esposa, o impedia segurando-o pelo braço a cada movimento involuntário de leva-lo à face.
Agora era tarde, pensaram simultaneamente, enquanto olhavam em volta, estavam reunidos em um círculo em uma clareira no meio da floresta densa, com outras cinco pessoas cada uma segurava uma vela. Formavam a união das Sombras. No centro deste círculo, uma fogueira, que iluminava mal e tornava tudo muito sinistro.
– Irmã Joana, chegou o momento, ao lado da fogueira, dois membros da seita estenderam um colchonete, para aproveitarem aquela luz.
Joana olhou para Ronald, que segurou as mãos dela, e a levou até o colchonete. Ela apertou a mão do marido, muito forte. Já não tinha mais certeza se ainda queria aquilo.
Ronald deu um beijo na testa, por sobre o capuz da esposa.
– Irmão, disse o homem que parecia ser o sacerdote da seita, agora nascerá o filho das trevas, o sétimo filho desta família, que aceitou o mais desafio de suas vidas: seguir o verdadeiro Mestre. O Mestre das Sombras!
Joana voltou a sentir fortes contrações, tão fortes quanto as que sentira à tarde, pouco antes de ligarem para o sacerdote avisando do ocorrido, confirmando a reunião para aquele local e horário.
Deitaram-na no colchonete. Ela, ainda com o capuz, chorava desesperada, de tanta dor. Doara todos os seus outros seis filhos, mas estranhamente, lá no fundo, apesar de ser muito fria de bons sentimentos, sentia amor por esta criança.
Depois de algumas horas, a criança nasceu, era um menino. E com o sangue da mãe e o fogo, fizeram o pacto das trevas.
Se algum dia os pais temeram o poder do fogo, agora era tarde, e tudo se transformara em verdade. Logo depois do batismo das trevas, a criança já sabia qual o seu destino: destruir essa bobagem do bem!
Agora o caminho deve ser seguido. Ele é o sétimo, o escolhido! E ele sente. A criança nasceu e vive. Vive para o mal. Pertence ao mal e é o mal!

Em Nome de um Amor


DEDICO ESSE TEXTO A CELLY, POR QUEM TENHO UM CARINHO MUITO GRANDE E ETERNO

— Linda...
Ela é linda e agora está aqui, deitado na minha mesa, iluminada por uma lâmpada fria que só destaca sua cor de neve recém caída num dia de inverno francês, descansando como um anjo. Passo minha mão em seus seios, macios e suaves, perfeitos, como se tivessem sidos moldados pelo próprio todo poderoso. O calor de seu corpo aquece minhas mãos machucadas e calejadas pelo trabalho braçal quase escravo que tenho que enfrentar todos os dias. Minha mão sobe até seu rosto, passando um dos dedos em seus lábios agora quase sem cor, mas não sem a irretocável beleza que eles tem. Subo então por sua bochecha e repouso de leve minha mão sobre sua testa, admirando por uns instantes aquele rosto perfeito. Levo minha mão até seus cabelos; loiros bem claros, lisos, compridos até a cintura. Pego uma mecha entre os dedos e trago meu rosto até ela, sentindo sua maciez e um perfume suave de rosas do campo. Meus pensamentos me levam as nuvens. Vejo eu e ela abraçados, nos beijando, seus lábios colados nos meus, sua língua na minha boca, minhas mãos apertando aquele cabelo. Sinto meu coração quase sair pela boca, mas abro os olhos e vejo ela ali deitada e meu leve sorriso some por alguns segundos, voltando logo em seguida. Vejo que agora ela era minha e seria para sempre minha.
Trago para perto de onde ela está deitada uma mesinha onde estão colocados meus materiais. Pego então meu avental branco que havia lavado um dia antes e o coloco, cobrindo meus trapos sujos. Calço um par de luvas e visto uma mascara. Olho novamente seu corpo e passo minha mão enluvada nos seus olhos fechados.
Minhas mãos saem do seu rosto e meu pensamento volta a minha sala. Pego alguns pedaços de panos e amarro seus braços e pernas na mesa. Também tiro um, o mais limpo, praticamente novo e a amordaço. Minhas mãos voltam a minha mesinha de materiais. Tiro dela um dos bisturis e o coloco contra a luz vendo seu fio de corte praticamente perfeito. Passo ele de leve por entre seus seios e o paro em cima de sua clavícula.
— Me desculpe amor, mas tem que ser assim.


— Que sol cara. Digo eu a meu amigo, que está ao meu lado tão suado quanto eu e talvez mais cansado do que eu.
— Nem me fala. Trabalho duro.
— É mais sinto que um dia tudo vai melhorar.
— Ah vai. Diz ele num tom de ironia esboçando um meio sorriso.
Dou uma risada também e sigo a frente correndo o cafezal até os próximos pés.


Forço o bisturi fazendo um filete de sangue correr até sua axila.
— Ah!
Seu grito é abafado pela mordaça e seu corpo é contido pelas amarras.
— Quieta!
Dou um grito e abaixo com uma das mãos seu corpo. Faço força com o bisturi com a outra mão abrindo um corte até o seu esterno. Olho seu rosto e vejo uma lagrima correr seu rosto.
— Não chore amor, vai acabar logo.
— Ah!
Ela tenta gritar, dessa vez com mais desespero. A força de seu corpo quase vence a da minha mão, mas ponho mais força e a abaixo. Ela se debate muito e meu bisturi não consegue ficar parado no lugar certo. Seguro ela com um pouco mais de força e coloco meu bisturi na mesinha. Uso então minha outra mão e espero um pouco.
— Ah!
— Pare!
Seus gritos são cada vez mais fracos e seu corpo começa a perder um pouco da força. Pego novamente o bisturi na mesinha e o coloco do outro lado, na outra clavícula. Passo ele com força fazendo outro corte até seu esterno. Ela novamente se contorce e grita desesperada.
— Pare! Grito eu, já com uma lagrima nos olhos. Sei que dói um pouco, mas não tem outro jeito, tem que ser assim, você tem que ser minha.


— Meu Deus...
Largo de lado minha cesta e fico parado admirando aquela garota.
Deus como ela é linda, vestida naquele vestido rosa quase transparente, por onde pode se ver, com um certo cuidado, as curvas do seu jovem corpo.
Ela passeia ao lado do coronel e ele todo orgulhoso lhe mostra suas terras. Meus olhos acompanham seu caminhar escondidos por trás de uma das arvores.
— Você tá fazendo o que ai homem.
— Nada. digo tremulo
— Nada é. Diz ele colocando seus olhos do meu lado. Cara é melhor parar de olhar pra ela, é a sobrinha do homem, se ele te vir fazendo isso, manda te matar.
— Não posso cara, não posso...


Coloco novamente meu bisturi na mesinha e com as duas mãos forço seu corpo para baixo. Ela se contorce bastante e grita como louca, até que uma hora seu corpo desfalece. Tiro as mãos dela. Seu peito está todo vermelho e minha mesa já está quase toda suja de sangue.
— Dormiu...
Peço novamente o bisturi e corro desde sua vagina até seu pescoço de leve, parando no meio da junção das duas clavículas. Enterro ele e puxo com força até seu umbigo. Tiro ele de seu corpo, passo ele no avental e o coloco de novo onde parei o levando até o Monte de Vênus.
Pego então um pano e limpo seu corpo de todo aquele sangue, contendo ele por algum tempo em alguns lugares que ainda sangrava muito. Coloco minha mão no seu pescoço mas não sinto mais seus batimentos. Meus olhos se enchem de água e me vem um aperto no coração; mas sei que era preciso, só assim ela seria minha, só assim a teria. Limpo então meu rosto e continuo o trabalho. Jogo o pano no chão e pego uma faca mais longa. Vejo seu fio na luz; perfeito.


— Eu te amo mais que tudo!
— Me larga!
— Fique comigo
— Socorro!
Um desespero corre meu corpo e lhe dou com um cano de ferro da nuca. Ela cai no chão desmaiada.
— Preciso ter você.
Pego ela e a coloco no ombro, a levando depressa da cocheira até minha casa


Fecho ela com todo cuidado, fazendo pontos perfeitos, tentando preservar ao máximo sua pele integra.
— Pronto
Admiro então seu corpo ali deitado, já cheio de palha e cortiça. Seu rosto ainda esboça o desespero, mas nada que um pouco de maquiagem não resolva, o mesmo posso dizer sobre aqueles fios pretos que agora fazem parte de sua pele.
— Só mais um retoques e você ficará perfeita.
Minha mão acaricia seu rosto
— Pronto amor, agora você é minha, para sempre...

LINX

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