sábado, agosto 16, 2008

É Inevitável...



Por Charlise de Orleans

É inevitável a sensação de mais...
É inevitável a sensação de buscar...
É inevitável a sensação de ganhar...
É inevitál a vontade de vencer...

É mais inevitável ainda a vontade de estar no poder...
A vontade de vencer e ganhar...
É inevitável a sensação de poder sobre si mesmo....

É inevitável a vontade de sair, fugir, sumir...
É inevitável também a espera....
É inevitável a perda...
É inevitável esquecer...

É inevitável querer,
É inevitável saber fazer...
É inevitável acontecer...
É inevitável perder...

É ainda pior que a demora, pior que a derrota,
É ainda pior que os males, a tortura da vida...
É ainda pior não poder decidir...
É anda pior não saber como, onde e porque...

É ainda pior batalhar e tudo se resumir a pó...
É inevitável o egoísmo,a traição a mentira...
É inevitável ir além...
É inevitável a curiosidade sobre o que a vida pode oferecer...

Porém...

É inevitável,imprevisto...
Passivo, terrível... doloroso...
Demoníaco, prazeroso,
Devagar,rápido,quisto...

É inevitável a morte...

sexta-feira, agosto 08, 2008

SOMBRIAS ESCRITURAS ENTREVISTA PAULO SORIANO


Entrevista retirada do site SOMBRIAS ESCRITURAS



Em entrevista ao site Sombrias Escrituras, Paulo Soriano fala sobre seus contos e seu trabalho realizado no site Contos Grotescos.

S.E.- Soriano, é com prazer que o tenho aqui no site, grande contista e amigo. E por falar em contos, poderia começar nossa entrevista falando sobre os motivos que o fizeram se interessar mais por contos de terror?


P.S.- O prazer é todo meu! Fico honrado com o convite. É muito bom estar aqui nas Sombrias Escrituras. Quando eu era criança, costumava assistir aos filmes de terror que passavam na extinta TV Tupi e na então incipiente TV Globo. Dentre outros, eram exibidos na telinha os bons e velhos filmes produzidos pela Hammer, estrelados por Vincent Price, Peter Lore , Christopher Lee e Peter Cushing. Eu adorava aquilo. Depois vieram as leituras, em especial Edgar Allan Pöe, William Peter Blatty, Sheridon Le Fanu e Stevenson. Quando me pus a escrever contos, não deu outra: só saía terror...

S.E.- Sabemos que no cinema e na literatura existem o terror psicológico, o macabro, o violento, etc... E em seus contos? Qual lado do terror você procurar mais explorar?


P.S.- Acho que o que escrevo está mais para o horror. Escrevo para que as pessoas leiam e digam: que horrível! Gosto também do elemento trágico no horror. Um certo conto meu já pôs mais de uma pessoa pra chorar. Mas o que eu gosto mesmo é de uma surpresinha no final, ou de uma reviravolta no enredo.

S.E.- Você também mantém um site, o "Contos Grotescos", que divulga contos de escritores dedicados ao gênero do horror e da fantasia. Como surgiu esse site e como vem sendo o desenvolvimento do mesmo por parte dos escritores participantes?


P.S.- Bem, tudo começou quando pedi a um amigo e colega de trabalho, Waldir Santos, para revisar alguns dos meus contos. Ele gostou muito e criou uma comunidade no Orkut, “Escreva mais contos, Paulo Soriano”. Atendendo a pedido de amigos, criei uma “home page” no Yahoo, na qual publiquei algumas narrativas. Daí para o “site” foi um pulo. Hoje, o “site” conta com um grande número de colaboradores. Tenho exemplos de muitas pessoas que foram incentivadas a produzir narrativas de horror e fantasia acessando e lendo os Contos Grotescos, o que é mais que gratificante. E creio, também, que o “site” está conseguindo cumprir o seu desiderato: ser um veículo de publicação de novos talentos que não conseguem publicar em papel.

S.E.- Existe também a "Irmandade das Sombras", que de acordo com seu site, é uma confraria literária que reúne vários colaboradores contistas de horror e fantasia. Fale mais sobre essa Irmandade... seus feitos, blog, publicações etc...


P.S.- A Irmandade das Sombras é uma confraria de escritores amadores criada por Linx e Rogério Silvério de Farias, cujo objetivo é cultivar e disseminar o gênero fantástico. Dela faço parte, com muito orgulho, desde o dia de sua criação. A confraria se reúne no “site” Recanto das Letras e, graças a colaboração de todos, dispomos de um blog (www.recantodassombras.blogspot.com) e já publicamos uma antologia de contos, pela editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Atualmente, a Irmandade das Sombras mantém uma revista literária, a IS Magazine, periódico eletrônico ancorado no “ site” Contos Grotescos e que, atualmente, já vai em seu terceiro número. No futuro, deveremos publicar, também, antologias em “e-book”.

S.E.- Seu site, Contos Grotescos, atualmente, possui mais de trezentos contos. Qual sua visão em relação às publicações de textos na internet, suas implicâncias para nossa literatura, o que se ganha e o que se perde com essa liberdade digital?


P.S.- Acho que a “internet” é uma grande conquista. Certa vez registrei que, no Brasil, fazemos uma constatação amarga e iniludível: o livro é um objeto de luxo, ao alcance de muito poucos. A evolução tecnológica na produção de livros é inversamente proporcional ao acesso da população a eles. É dizer, as editoras publicam ótimos exemplares, cada vez mais belos e sofisticados, para uma casta privilegiada: a dos que podem, sem sacrifício, desembolsar de 60 a 100 reais por uma brochura de trezentas a quatrocentas páginas. Ao seu turno, é tarefa quase impossível publicar no Brasil. Em se tratando de ficção, o mercado editorial vale-se essencialmente de traduções de autores estrangeiros consagrados. A "internet" vem a ser, assim, de fato, uma ferramenta poderosa para disseminação de textos e idéias. Não houvesse tal ferramenta e, certamente, os meus contos não seriam conhecidos por mais de uma dúzia de pessoas. Assim como eu, muitos outros autores se valem do meio cibernético para divulgação de sua obra, formando uma extensa malha de difusão e assimilação da literatura. E há ainda sítios especializados na divulgação de trabalhos literários, como é o caso do Recanto das Letras, que congrega autores – profissionais ou não – das mais variadas tendências. Creio que com a “internet” não há o que se perder. Todos têm a ganhar, autores ou leitores. O que se pode afirmar é que, como toda mídia, a eletrônica tem suas exigências e especificidades; cumpre ao autor se adaptar a elas.

S.E.- O terror como inspiração literária, no seu caso, vem de quais fontes?


P.S.- Sobretudo de Allan Pöe. Mas exercem-me, também, influências autores que não se dedicaram - ou pouco se dedicaram - ao gênero, como Eça, Alexandre Herculano e Emily Brontë. Mais recentemente, e com menor intensidade, posso citar a influência de autores como Bierce, Lovecraft e King.

S.E.- Além da literatura, existe outra forma que você gosta ou gostaria de se expressar?


P.S.- Não, não há. No passado, gostava de desenhar e de pintar. Hoje em dia não tenho mais paciência. E, recentemente, descobri que estou enxergando muito mal...

S.E.- Quando começamos a ler seus contos, uma espécie de feitiço, lentamente, nos toma a atenção e nos deixamos absorver pela leitura. Como você inicia a criação de seus textos, e como se desenrola o processo de criação até o desfecho?


P.S.- É verdade? Não sabia! Fico feliz com isso. Bem, na maioria das vezes elaboro os meus contos deitado, esperando o sono chegar. Sofro de uma insônia terrível desde a adolescência. Assim, para induzir-me ao sono, fico criando histórias em minha mente. As palavras vão surgindo, as imagens vêm chegando. Muitas vezes, quando resolvo ir ao computador, a narrativa já está praticamente pronta em minha cabeça. Outras vezes, descarto sumariamente a história. Atualmente, por exemplo, estou induzindo o sono com uma história em que, no futuro, cientistas conseguiram criar uma espécie de intersecção no espaço-tempo. Através dessa intersecção, eles verificam que, na realidade, Jesus morreu na cruz, mas não ressuscitou. Concluíram que esta verdade seria um duro golpe para a civilização ocidental. Então eles interferem na linha espaço-temporal, alterando o passado e a ajustando à tradição cristã: antes que a morte de Jesus advenha, os cientistas injetam no Salvador uma espécie de droga que o deixa em estado similar ao da catalepsia. Jesus é dado por morto e sepultado. Mas ao final do terceiro dia... ainda não sei como vai acabar. Talvez hoje, antes de dormir, conclua a história, que, aliás, já está descartada. Mas nem sempre é assim. Não poucas vezes me sento ao computador, com a cabeça completamente vazia e, em vinte ou trinta minutos, tenho uma história pronta. Como eu sou muito ansioso e impaciente, as minhas histórias saem sempre de chofre. Jamais escreverei um romance.

S.E.- Você tem muitos fãs. Já pensou no lançamento de um livro de contos seus para breve?


P.S.- Outra coisa que não sabia... Eu tenho fãs! Coisa difícil para um escriba criticado justamente pela linguagem “difícil”, que afasta muitos leitores. Bem, já pensei, sim. O problema é que não consigo elaborar uma seleção de contos para publicação. Por mais que eu tente, não sei o que incluir e o que deixar de fora. Tenho a idéia de publicar contos ambientados na Idade Média (eis aí a influência de Eça e de Herculano). Mas não sei se a idéia irá vingar. King disse certa vez que o pior crítico do autor é o próprio autor. Acho que ele tem razão.

S.E.- Obrigado pela atenção, Soriano, seja sempre bem-vindo em Sombrias Escrituras. E para finalizar, deixe seu recado pois o espaço é seu!


P.S.- Eu agradeço às Sombrias escrituras por esta oportunidade. O cronista João Costa escreveu, com pertinência, e eu gosto sempre de frisar, que "é provável que não haja gênero literário de mais difícil construção e, não obstante, de maior tendência para ser intelectualmente discriminado quanto o sobrenatural. Muitos críticos consideram tal gênero um exercício intelectual de segunda ordem, aquém da profundidade e complexidades necessárias para, a partir dele, elaborar-se um verdadeiro clássico literário..." Pois bem, digo aos leitores de Sombrias Escrituras que não se deixem seduzir pelos críticos preconceituosos: continuem fãs do fantástico. Com isso, só temos a ganhar. E muito.

O VISITANTE DO ESCURO



O VISITANTE DO ESCURO




Um conto de Henry Evaristo





Os livros eram a única companhia de Mendel no escritório da administração. Não gostava da sensação de solidão que o lugar impingia-lhe e muito menos da determinação da direção para que mantivesse as luzes externas apagadas a fim de surpreender algum invasor. Para diminuir a irritação pensava insistentemente no salário e nas horas extras que receberia com as quais poderia finalmente pegar um ônibus e ir passar o natal com seus filhos no estado vizinho; ademais, era o segundo emprego fixo que arranjava em mais de cinco anos; mas o primeiro no turno da noite.

Como se não lhe bastasse o fato de seu ofício macabro situar-se às margens de uma estrada que, à medida que o sol se punha, ia se tornando cada vez mais perturbadoramente deserta, ainda lhe apetecia deveras a leitura de textos terríficos tais como A SOMBRA DO DESCARNADO e O ANDARILHO DA NOITE, ambos romances medonhos de seu escritor favorito, o canadense Norbert Durand.

Sua função era guardar o estabelecimento não permitindo a ação dos vândalos e ladrões de túmulos que vinham agindo desmesuradamente nos últimos dias desde que o vigia anterior demitira-se sem mais explicações. Para isso, a parede central da sala de madeira nos fundos do terreno contava com uma enorme janela que possibilitava uma visão privilegiada do lugar.

Naquela noite em específico as leituras apavorantes que fizera desde cedo o obrigaram, por volta das 23 horas, a cerrar as pesadas cortinas que ladeavam a vidraça de sua janela de vigília. É que a combinação entre os horrores que lia compulsivamente nas páginas amareladas e a visão das lápides imersas nas trevas da noite do lado de fora não estavam lhe fazendo bem aos nervos. Mais de uma vez tivera que interromper a leitura para, de lanterna em punho, dar uma olhada nas imediações por causa de estranhos ruídos que notara em meio ao gemido do vento invernal.

A primeira vez imaginara ter ouvido demasiados latidos de cães das redondezas e, lá fora, chegou mesmo a ter que espantar alguns que se aglomeravam em frente a um portão lateral. A entrada dava acesso diretamente para algumas covas simples no final do cemitério, onde o terreno entrava em franco declive ao se encaminhar para onde eram enterrados os indigentes.

A segunda interrupção em sua leitura foi provocada por sons distantes de batidas surdas que alguém parecia estar desferindo insistentemente em alguma superfície resistente. Às implicações desta possibilidade ele preferiu renunciar e resolveu não sair de dentro da saleta. Todavia, a partir daí, manteve-se involuntariamente alerta e não esqueceu de trancar bem a porta.

Estava quase que totalmente absorto novamente em seu passatempo quando, de repente, avistou com o canto do olho um vulto escuro passar correndo bem diante à janela. Ergueu-se de um salto e sacou o revolver. Tremia. Lentamente dirigiu-se até a porta, mas, logo depois, desistiu e resolveu dar uma espiada para fora através da vidraça.

Aproximou-se da superfície fria, e olhou.

Não avistou absolutamente nada e ficou cismando se não deveria parar de ler aquelas coisas por aquela noite. Foi quando o animal saltou da escuridão quase se chocando contra a janela. Mendel se jogou para trás e se deixou cair sobre a cadeira que ocupava antes. Por um momento sua visão se embaralhou de tanto medo. Depois viu, do lado de fora, um grande cão marrom, de orelhas em pé, que fitava para o lado de dentro ofegante e amedrontado. Arfava de tal maneira que era possível ver seus pelos se agitando sobre a pele. Imediatamente Mendel lembrou-se da passagem que as chuvas torrenciais da semana anterior haviam aberto num trecho do muro setentrional do cemitério. Elas não davam passagem a nenhum homem, mas poderiam ser perfeitamente caminho para um exemplar daqueles. Aquilo o acalmou e retirou a aura de "coisa sobrenatural" que o cão já estava assumindo na mente afetada do pequeno vigia.

Porém, algo parecia estar brutalmente errado com a cena. Aquele animal estava mortalmente amedrontado e olhava alucinadamente para dentro do posto de vigília, para os olhos de seu único ocupante. E aproximou-se da janela, pouco antes de desaparecer na noite, como que a implorar que lhe abrissem a porta.

"É de grande porte, como um Mastiff." Pensou Mendel. "Do que teria medo afinal?". Resolveu afastar o pensamento e voltar a sua leitura. O pobre bicho já deveria estar longe. Com certeza retornara para a estrada, pois o ouvira emitir um ganido curto em algum lugar oculto de sua visão. "Provavelmente arranhou o lombo" Pensou. "Ao se arrastar de volta pela passagem estreita por onde entrou".

Baixou novamente a cabeça e recomeçou. Desta vez, no entanto, demorou bastante a conseguir atingir o mesmo nível de concentração com que iniciara seu turno. A noite ao redor de seu posto assumira uma outra conotação em sua mente. Para ele aquele maldito cemitério bem poderia estar sendo visitado pela entidade que vagava por aquelas estradas. Dizia-se que já fora avistada centenas de vezes pelas cercanias. Ninguém poderia afirmar o que era, e ele mesmo não acreditava em assombrações. Muitos juravam que se tratava de um vampiro; outros a chamavam de demônio. E muitos sujeitos de fora já haviam visitado a região com suas máquinas para tentar encontrar alguma coisa concreta, mas nunca obtiveram êxito algum. Em fim, para Mendel, até aquela noite, as lendas locais nunca tinham tomado tanta consistência.

De sua cadeira de madeira, com os livros de Durand em sua frente, Mendel passou a imaginar o que faria se de repente a tal fera surgisse rosnando em sua janela. Como aquele estranho cão, ela o olharia nos olhos, mas depois, em vez de desaparecer, se jogaria contra o vidro até conseguir entrar para arrancar fora suas entranhas. Não pôde mais fitar aquele quadro negro; levantou-se, correu até as cortinas e as fechou depressa evitando a todo custo olhar para a escuridão do lado de fora. Tinha a todo o momento a impressão de estar ouvindo um ganido de dor canino que viesse de algum lugar nos fundos do cemitério.

Depois foi até o banheiro. Precisava aliviar a bexiga da pressão que ali surgira. Abriu o zíper, segurou a ponta do cinto para não molhar e soltou o fluxo que lhe oprimia o baixo-ventre. Nem bem começara ouviu um baque violento contra a vidraça que o fez virar-se de súbito para fora do minúsculo compartimento, sacar sua arma e disparar aleatoriamente atingindo a única lâmpada que servia de iluminação para o lugar onde estava. A sala mergulhou imediatamente numa escuridão ainda maior do que aquela tão terrível que dominava o mundo do lado de fora. E Mendel ficou paralisado de medo.

A arma tremia loucamente em sua mão. Seu instinto de sobrevivência lhe ordenava que disparasse contra qualquer coisa que se movesse à sua frente. E ele, com seus olhos contraídos de pavor, via pouco ou quase nada em meio a escuridão.

Mendel era novato. Naquela situação não lembrava mais do que lhe fora dito quando de sua contratação na semana anterior. Não lembrava do interruptor que acendia as luzes exteriores; não lembrava sequer do telefone na parede atrás da porta do banheiro. Lembrou-se, no entanto, e devido à urgência da luz, da lanterna guardada na última gaveta de sua mesa. Ia avançar para lá quando, de súbito, a vidraça estourou com um novo impacto, e se estilhaçou em mil pedaços cortantes que saltaram para o espaço interior com rapidez assassina. Fixaram-se em toda parte, espetando papéis em cima da mesa, rasgando as páginas amareladas dos livros de Durand e atingindo um dos olhos do vigia em desespero. Mas os estilhaços não adentraram o modesto escritório sozinhos. Em meio a nuvem mortal tombou inerte ao soalho de madeira uma massa meio disforme de carne lacerada e ossos.

Mendel jogara-se para o lado de dentro do banheiro após sentir o impacto do objeto cortante em seu olho esquerdo e agora estava dominado por uma dor aguda enquanto ficava cada vez mais banhado em sangue. Mesmo assim pôde notar que partes das cortinas que não haviam sido dilaceradas continuavam baixas e que, apesar do vento do lado de fora, não podia ver objetivamente o que havia por lá. Olhou para frente em direção ao cadáver ensangüentado que jazia a poucos metros de onde estava e reconheceu, por entre a turvação que afetava sua visão, o cão marrom que havia visto pouco antes. Estava comido, devorado parcialmente. Mendel percebeu que sua cabeça estava aberta e lhe faltavam coisas lá dentro. No entanto, alguns de seus membros ainda se moviam em espasmos curtos.

Lentamente tentou se locomover procurando fazer o mínimo de barulho possível, mas esbarrou em um monte de vidros quebrados que lhe abriram um corte profundo em uma das mãos. Ele gritou de dor, foi inevitável, e seu grito chamou a atenção da coisa que estava do lado de fora, pois os frangalhos das cortinas se ergueram até quase descobrir uma silhueta alta e magra que se recortava contra a fina luminosidade do nevoeiro que se formara com a chegada da madrugada.

Mendel soltara sua arma com o impacto que sofrera. Não podia atirar naquilo que estava prestes a entrar em sua sala. Não podia fugir no escuro sem nada enxergar que fosse muito além de uma nuvem vermelha em seus olhos. Resignado, prendeu a respiração e esperou que o que quer que fosse se revelasse por inteiro - e o conduzisse a uma horrenda alvorada de medo e dor. Foi então que veio a voz e a visão que o enlouqueceram. Do lado de fora, erguendo os restos de tecido da cortina da janela, estava um homem de terno - um terno simples, escuro, discreto; a vestimenta padrão com a qual enterravam os mais humildes da região. Tinha a pele amarelada e falou com uma voz que não podia vir de um ser vivo:

"Estou com fome! Estou com fome! Dê-me meu cão!"

Mendel perdeu os sentidos e assim foi encontrado na manhã seguinte pelos zeladores. A polícia foi chamada e os agentes passaram muitos dias tentando entender o que se passara. Apesar dos danos na estrutura física do escritório e no corpo do funcionário, nada indicava a presença de uma segunda pessoa no local durante a noite em questão. Ele e o cadáver semi-devorado do cão foram encontrados a meio caminho dos fundos do cemitério, no lugar em que o terreno se tornava descendente e levava à ala onde eram enterrados os indigentes.

Pensou-se que o vigia enlouquecera de repente e causara tudo ao local e a si mesmo. Inclusive, num ato de extrema insanidade, teria matado e devorado o cão de rua. Argumentou-se que seus ferimentos teriam sido feitos pelo animal em desespero a lutar pela vida; mas quem quer que o visitasse em seu quarto acolchoado no sanatório municipal, e conseguisse observar mais detalhadamente, poderia jurar que as marcas que se espalhavam por seu corpo, em lugares que ele mesmo jamais poderia alcançar, eram de grandes dentadas humanas.

sábado, julho 26, 2008

O Nascimento de Charlise




Por Charlise de Orleans


Aline ainda estava atônita olhando áquela carta. Tinha acabado de sair desiludida da sala do comissário Lucio Ferreira, que mais uma vez disse que sua mãe não deixou pistas, e foi para nunca ser encontrada. Até sua mãe? Até ela se fora com aquele monstro.... O casamento com Charles era uma fuga daquele inferno, mas até ele aquele infeliz a tinha abandonado..... Eu não era perfeita? Não é isso que diziam? Linda pura e imaculada? De que me adiantou tudo isso? Me diz Deus.....De que me adiantou?

20/05/06

" Honra a teu pai e tua mãe, porque este é o primeiro mandamento com promessa "Efésios 6:1

Mãos trêmulas passeam por aquele papel, olhos vermelhos e lacrimejantes ávidamente buscam as entrelinhas....

Olá minha querida Aline...

Quanto tempo minha querida..desde que viajei não pude falar com você...Tudo bem eu entendo,não tive as melhores despedidas..mas você precisa entender.Depois do tudo que aconteceu eu precisava ir embora,sim eu deveria ter me despedido de você e não simplismente ter ido embora na calada da noite,sei que pode ser difícil para você,afinal tens apenas 16 anos,acabou de ser largada no altar,mas está de você enfrentar a vida,querida esqueça o que passou,o meu namorado apenas me amava,ele nunca te faria mal.Tente esquecer o que você acha que ele fez,minha filha,eu não te abandonei como você pensa,apenas fui atrás do meu destino,filha responda as minhas cartas,não se torne uma pessoa revoltada com a própria sorte,a vida é assim mesmo,eu tinha que correr atrás da minha felicidade,e você não podia me separar dele,eu o amo,e por isso te deixei aos cuidados das irmãs do orfanato,sei que você está sendo bem tratada,quem sabe um dia agente se encontra,e eu te conto tudo,não se zange comigo,o Luís também te ama,por isso ele te tratava com carinho,não queria que você saísse,que você namorasse(afinal ele tinha razão, olha o que o Charles fez),ele ficava tão preocupado,que quando eu saía,lembra que ele dormia com você?Tudo para não me preocupar,lembra que quando você ficava doente,ele te dava remédios,dormia ao seu lado na cama,e você dormia como um anjinho?Dormia horas e horas?Era ele que te levava na escola,e você nem ia pra aula,ele te levava até a porta e você não ia.O Luís sempre me dizia que te largava na escola,e não sabía porque você estava com tanta falta.Você era muito rebelde,acusava o Luís de coisas horríveis,e eu não podía mais aguentar,então escolhi ficar com ele e hoje estou muito feliz,viajamos o mundo e espero um dia poder te ver de novo,só se você prometer aceitar o Luís,porque sem ele eu naõ fico,não posso ficar sem ele,ele é minha vida.Você entende não é?Espero sua resposta.

Um beijo bem carinhoso.

PS:O Luís manda um beijo bem no fundo do seu coração,não sei o que isso quer dizer mas ele disse que você sabe.

Sua Mãe....



Desesperada, e sem rumo, Aline parte para o rio próximo a cidade... Atordoada por aquela carta, as palavras não saíam de sua cabeça....Torpes e sem sentido,...... Zonza, Aline cai no chão.... Uma raiva sem tamanho a toma.... Começa a dizer palavras sem sentido....Porque?? Eu não era a perfeita?? Tão linda e pura.... Perfeita para o filho do prefeito?? Linda e virgem para o amante da minha mãe? Ótima aluna para a única escola maldita da vila.... A melhor devota da igreja.. Invejada pela minha pureza... Pelos meus belos olhos... E para que? Para que tanta servidão?? Tanta perfeição...Como dizia minha vó, fui amaldiçoada pela beleza, esquecida por Deus e maldita pelos homens.. Mas nunca mais... Nunca! Qualquer pessoa irá se atrever no meu caminho....Nunca... Isso eu garanto... Porque desta vida eu não pertenço mais... Então atordoada pela sua maldição, Aline se atira no lago... vestida de noiva, com pedras amarradas em sua cintura... Fechou os olhos, e sentiu a água gelada cobrindo....

E bradando do céu.....

Minha Cara Aline.... não desprezeis sua vida.... Vejo em você uma vocação, um dom,um chamado,algo que eu já não posso mais exercer, venha minha querida, saia da água...Aline sai da água, e para diante do ser á sua frente...Primeiro seu nome será Charlise... Após meus testes.. você será o que quiser, e com a mente mais poderosa do mundo, pronta?Sim!Que comece a metamorfose....Apesar das dores e sofrimentos, os ferimentos abertos, o sal em suas feridas davam agonia, porém com as mão atadas, era impossível coçar e resfriar... Mas mesmo assim eu não desistia, deveria ir até o fim, apesar de todos os cortes proferidos em meu corpo, ainda havia mais a cortar, sem contar os açoites diários, era um tormento...Mas era só um teste, ela me queria, e eu ainda mais ser Charlise...Depois dos testes físicos, agora era os psicológicos....Eu deveria ficar trancada em um cubículo, e tentar achar uma saída, porém, além de trancada a porta, havia sensores de movimentos.... Para cada mexida, um açoite era disparado nas minhas costas....Após dias nesta batalha.... Quase morta,quase viva,moribunda,febril,sangrando.... Ela voltou.... Apenas me disse:Você está pronta para seu mortal destino....Com os cumprimentos de

Nêmesis, a inevitável.....

quinta-feira, junho 05, 2008

O TEMPLO DE HAZAAD


O TEMPLO DE HAZAAD


Por: Henry Evaristo



Sempre me senti atraído pelo insólito. Quanto jovem despendia horas a fio absorto na tarefa de garimpar nas bibliotecas de meus familiares todos os livros que abordassem temas assombrosos e fantásticos.


Tudo naquele universo me interessava profundamente e meus esforços para tocá-lo, de qualquer forma, tornaram-se cada vez mais veementes com o passar dos anos.


A herança recebida de um tio tirou-me da miséria em que a morte de meus genitores me deixara e com trinta e cinco anos eu soube, pela primeira vez, o que era a liberdade financeira quase sem limites. Minha ânsia pelo inusitado que existe nas entrelinhas do mundo, podada durante os últimos anos pelas dificuldades financeiras e pelo trabalho que tinha para manter a casa apenas com meus ganhos com aulas particulares, cresceu desmesurada e diretamente proporcional à fortuna que, de repente, eu vira depositada em minha conta no banco. Eu, como único sobrinho do velho Santmartin, herdara-lhe a fortuna.


No início limitei-me a importar tudo o que eu sempre sonhara em livros e artefatos relativos ao mundo da magia, do ocultismo, da demonologia e da bruxaria. Tudo o que podia encontrar eu imediatamente adquiria. Enchi a casa com volumes antigos e raros, e outros materiais com os quais um verdadeiro conhecedor do assunto poderia realizar qualquer tipo de ritual.


Com o avançar dos dias tornei-me ainda mais recluso do que de costume e raras eram às vezes em que os outros me avistavam pálido a vagar pelas ruas da vizinhança. Até mesmo as visitas ao meu estabelecimento preferido, na avenida leste, ficaram restritas a no máximo um domingo por mês. Passei a entender que para manter-me puro como mandavam as lições dos tomos dos mestres eu deveria ser capaz de produzir, num ambiente adequado às especificações dos ensinamentos, todos os meus alimentos. Tornei-me ferrenho vegetariano e a higiene absoluta para mim passou a ser uma obsessão. Chegava a tomar oito banhos por dia até mesmo nas temperaturas abaixo de zero de nosso inverno. Lia por seis e às vezes até oito horas ininterruptas. Nos intervalos, quando os olhos ardiam e ficavam vermelhos, corria ao laboratório que construí para tentar por em prática a teoria que aprendera. Depois comia plantas e ervas exóticas importadas do oriente e cultivadas, com todas as adaptações climáticas necessárias, em uma estufa que erigi no quintal. À noite o telhado da mansão era frequentemente visitado por minha figura esguia e mortiça, pois eu havia lido no APOCALIPSE DAS CRIATURAS, o terrível grimório do turco Hazaad — o qual eu adotara como meu principal objeto de estudo — que a luz da lua era energética para o mago e que este poderia ler no brilho das estrelas o destino de todos os homens.


Dois anos se passaram até que meus estudos me apontaram outro caminho. As leituras dos antigos livros e mapas, e peças raras trazidas de países distantes, me levaram à conclusão de que nada mais profundo eu poderia aprender e conquistar a partir do interior das paredes de minha própria casa. Era preciso aventurar, ir mais fundo na busca pelas informações; para penetrar nos confins absolutos do indizível, eu precisava viajar.


Assim conheceu minha presença alta e magra a cidade de Istambul no verão de 1937. Lá deixei que toda a força dos ensinamentos do mestre Hazaad tomasse conta e já não agia mais em respeito a meu corpo e minha mente. Acreditava que todos os meus passos eram guiados para algum desígnio oculto por uma força consciente que estava, para além da minha própria ânsia em seguir em frente, me orientando para um destino mágico. Em minha inocência humana, cria piamente que poderia desvendar e vislumbrar mistérios nunca antes conhecidos ou vistos por nenhum outro intelecto desta terra.


Minhas buscas em velhas bibliotecas e sítios históricos levaram-me às ruínas do lugar habitado pelo mestre turco no século IX. Era, naquele tempo, um espaço afastado das zonas urbanas. Isolado por mais de trezentos quilômetros que avançavam para dentro de uma vasta região desértica. Quando me vi sozinho em meio às colunas do que no passado deveria ter sido um imenso templo goético(1), e enquanto ainda podia ver a silhueta recortada contra o poente do homerm esquálido que me trouxera ali em seus camelos cansados, senti que finalmente estava diante de algo profundo e do qual já não podia me esquivar de qualquer forma. Era o espectro obscuro que eu tanto perseguira que se apresentava para mim por entre aquelas ruínas ancestrais.


No entanto, a despeito de toda a exaltação e curiosidade, não foi sem uma pontada de relutância no coração que arrisquei os primeiros passos no interior do terreno acidentado. As imensas colunas rochosas amontoavam-se de uma forma inexplicavelmente incômoda para mim e os ângulos em que se haviam retorcido as gigantescas barras de aço que sustentavam um portão, como que meio viradas para o lado de fora, causavam-me um terror que ainda naquele momento era totalmente injustificado.


Por muitas horas vaguei por entre os resquícios daquele sítio antiqüíssimo e deixei-me levar pelos ares de outras eras. Conforme avançava pelos restos de largos corredores e galerias gigantescas não podia deixar de imaginar o tipo de conhecimento que um dia fora produzido no interior daquelas paredes. Imagens de épocas passadas se formavam em minha mente a todo instante e eu quase podia testemunhar os milhares de homens e mulheres miseráveis que corriam à suas portas em busca de algum tipo de solução em suas vidas ou em fuga das lâminas intolerantes dos maometanos(2). De repente senti-me rodeado pela própria história da magia quando a natureza era um bem comum e controlável; quando a riqueza a partir do nada era um sonho possível e quando todo o mal podia ser feito ou desfeito com o auxílio dos gênios. De alguma forma maravilhosa a luminosidade solar que penetrava por entre as frestas nas rochas formava barras translúcidas dançantes em frente a meus olhos e, em relances breves, eu podia até mesmo vislumbrar pequenas formas divergentes do vento que se contorciam na luz.


“Eu os vejo!” Gritei para o vazio das paredes destruídas. “Os demônios da poeira!”.


E aquelas coisas estavam em toda parte. Dos recantos mais próximos e mais distantes, e até mesmo do fundo da terra escura, pareciam rir para mim, e me chamar. Era a jornada de minha vida; onde me seriam revelados os arcanos mais secretos. A cultura banida da terra a ferro e fogo pelo poder secular cristão; o conhecimento dos antigos que foi extirpado em toda a sua plenitude do inconsciente do mundo pelo império da razão e pelas amargas religiões dos homens.


Largar-me inteiramente ao poder daqueles pequenos seres para que eles me conduzissem ao meu destino era o que eu queria mas, ao mesmo tempo, crescia ainda mais em mim um sentimento de alarme ante a tudo o que me cercava. Os espaços escuros por entre as ruínas titânicas passavam a representar perigo crescente em meu imaginário e não foi apenas uma vez, antes do fim, que achei ter visto um brilho anormal que me espreitava como os olhos de algum animal raivoso em meio às trevas.


Depois, quando tornei a procurar os seres da luz, encontrei-os parados e amontoados a um canto bem iluminado. Não havia mais em seus rostinhos miúdos e afogueados o sorriso de outrora e muitos olhavam assustados para algum ponto acima de minha cabeça. Foi um movimento de pequenas pedras rolando que fez com que eu me voltasse para trás. Não vi mais nenhum sinal de movimento naquele interior e a escuridão, que antes se mantinha escondida e tímida, a tudo inundou com um ardor avassalador.


De repente me vi só, em pé, em frente a um pavor gigantesco e escuro que me fitava do alto de um paredão com muitos metros de altura. E a cada gesto seu, a claridade solar se curvava e minguava até desaparecer por completo.


Não era um homem em absoluto. Antes era um resumo de homem; e do lugar onde deveria estar sua cabeça pendia para fora, projetando-se no ar, um imenso apêndice esverdeado cuja extremidade trazia um par de olhos amarelados que me fitavam horrivelmente graves. Seu tórax era forte, viril, como o de alguma potestade mitológica e abaixo da cintura, entre um par de pernas vigorosas que mais pareciam pilares de mármore escuro, balouçava a um estranho vento simum(3) um imenso falo, como uma grande cauda frontal, que se comportava como serpente ensandecida por um ódio tal que tentava, vez por outra, atacar as pernas da aparição que a continha com suas tremendas mãos musculosas.


Era ele, tenho certeza! Era Hazaad, o mestre dos magos negros do oriente que me fitava do interior daquela forma medonha. Sei disso porque ouvi seus gemidos dentro de minha cabeça; ecoando como o grito nefasto que deve subir dos intestinos do inferno para aqueles que o procuram. E senti que suas mãos, aquelas mãos que antes tentavam conter a coisa gotejante que lutava por sua carne, agora se insinuavam dentro de mim, acariciando asquerosamente meus órgãos mais vitais, tentando sair e formando erupções em minha pele.


Ali, naquele templo amaldiçoado perdi toda a minha convicção. No lugar onde o mal permaneceu aprisionado até aqueles dias eu falhei como mago. Cai de joelhos e pedi clemência e este meu ato provocou risadinhas histéricas por todo o recinto. Ainda pude ver os pequenos demônios da poeira rastejando de volta para seus buracos infectos agora com aparências bem diferentes daquelas com as quais me receberam. Como bandos de insetos imundos, se esconderam novamente em suas tocas decepcionados ao entenderem que não era eu, ainda, aquele que levaria o poder de seu mestre para o mundo exterior.


Depois tudo se acalmou e apenas o uivar do vento quente do deserto fustigando as velhas ruínas chegou a meus ouvidos. Tudo estava como era antes e aquela quietude oprimiu meu coração de tal maneira que saí correndo do velho templo sem nem mesmo pensar na direção que tomaria.


Foi um grupo de nômades que me encontrou vagando desorientado pelas areias, à noite, já quase a morrer de frio. É a eles que devo minha vida. A eles e a meu instinto humano de preservação. Mas receio que coisas muito mais sérias estiveram em jogo naquele dia no templo de Hazaad e, se não fui eu seu novo discípulo no mundo dos homens para pregar e espalhar seu mal sobre esta terra, seu velho e hediondo templo ainda está lá, solitário em meio à vastidão desértica, esperando por outro estudioso mais temerário que aceite ser tocado daquela forma pelas mãos asquerosas do mal absoluto.



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(1) - Goético: referente à Goécia, termo com o qual se desginava a magia negra na Grécia antiga e durante a idade média.


(2) - Maometanos - Como eram conhecidos os seguidores de Maomé, os muçulmanos, nos textos mais antigos sobre o Islamismo.


(3) - Vento simum - vento extremamente forte, mais comum no deserto do Saara, que provoca enormes tempestades de areia.

Samantha




Um dos meus contos favoritos...



Dedico esse conto a Samantha, cujo nome inspirou esse conto



— Oi!
A voz angelical de Samantha penetrou pelos corredores até a cozinha onde seu tio bebia um copo de uísque vagabundo sem gelo.
— Entre meu bem, estou na cozinha
Samantha era uma menina de 16 anos, mas com certeza podia se passar por 18 ou talvez 20 se quisesse, se não fosse claro por sua voz doce de menina. Isso talvez fosse o que mais atormentasse e excitasse seu tio que tinha por ela um desejo quase incontrolável.
Ao adentrar no recinto onde estava seu tio, ela já pulou em cima dele lhe dando um abraço apertado, enquanto sue tio tentava não demonstrar sua ereção.
— Vim te ver titio!
— Nossa! Estava mais que desconcertado. Que bom!
— Vim em má hora?
— Claro que não meu amor, claro que não. Ele se levantava rápido, enquanto ela descia de seu colo. E então quer alguma coisa?
— Sim!
— Água ou suco?
— Um beijo. Sua voz era recheada de desejo
— O que? Ele tremia
— Um beijo ué.
— Um beijo Samantha... Disse ele vermelho de vergonha de seus próprios pensamentos.
— Vai anda!
— Bem... Ele a beija na testa. Pronto então
— Não se faz de bobo. Ela se aproxima. Aqui. Ela aponta a boca. Eu quero aqui...
— Samantha!
O tio recua assustado. Anda alguns passos para trás, caindo depois de algumas passadas na parede dos fundos. Sua cabeça parece girar e ele tem vontade de gritar. A situação parece tê-lo feito entrar num mundo surreal, cujas regras ele desconhece
— Assustado? Diz ela com a cabeça inclinada o olhando
— O que você tem? Diz ele depois de um curto silêncio
— Eu? Porque? Eu estou bem. Só quero beijar seus lábios, só isso titio. Ele sente certo sarcasmo em meio as palavras frívolas da garota
— Samantha ouça o que diz! Ele já não sabe o que dizer e parece que seu desejo aumenta a cada palavra e ele sente o impulso bestial de agarra-la
— Estou ouvindo e a mim soa normal. Uma menina que deseja um beijo e quem sabe algo mais... Ela enrola o cabelo, seus olhos estão repletos de luxúria
— Samantha pelo amor de Deus. Suas mãos cobrem a cabeça abaixa agora. Ele não quer olha-la e agora somente deseja que sua mente apague a imagem de sua sobrinha nua
Samantha está parada diante do tio sorrindo, em um silêncio atormentador. O tio parece fazer uma prece em voz baixa, esperando que quando abrir os olhos tudo tenha se resolvido. Um longo silêncio, tão longo que o tio não mais agüenta ficar de olhos fechados
— Samantha... Ele abre os olhos devagar, jogando seu corpo contra a parede e fechando os olhos com força ao ver a visão de sua sobrinha nua a sua frente
— Que foi titio não gostou?
— Para samantha! Gritou seu tio desesperado
— Parar com o que? Eu nem comecei
O tio se pressionava contra a parede, abrindo os olhos esporadicamente. Samantha, com um olhar luxurioso se aproximava devagar, cantado uma antiga canção de roda.
Seu tio então abre os olhos e estanca a imagem de Samantha parada a sua frente. Ela então se abaixa e beija de leve os lábios do tio, deitando no chão em seguida.
— Vem titio. Seus dedos corriam o próprio corpo
As mãos de Samantha pegavam nas mãos do tio e as levavam ao seu corpo. Seu tio tentava resistir, mas o impulso era muito forte. Ele desejou aquela garota por muito tempo e agora ele a teria, aquilo era quase irresistível. Ele tinha sonhado com aquela cena durante muitas noites, desejando vê-la assim, deitando o chamando de titio...
— Vem titio, vem...
— Menina safada!
Seu tio joga-se em cima dela tirando as calças com fúria. seus lábios encontram os dela, beijando-a furioso. Os gritos e gemidos podiam ser ouvidos de longe, enquanto os dois transavam furiosos no chão da cozinha.
Num suspiro final o corpo do tio cai por cima de sua sobrinha exausto.
— Foi bom titio? Diz ela sarcástica
— Meu Deus... Ele balbucia arrependido. O que eu fiz? Como pude?
— Ai titio para de ser bobo. Diz ela saindo debaixo dele. Diz como se também não quisesse
— Do que você está falando? Ele começa a se assustar com o cinismo da sobrinha
— Você sempre me quis, me desejou com todas as suas forças, ou não?
— Eu...
— Não negue, você não pode, ou pode? Ela fala com uma voz cada vez mais sarcástica
— Não... Ele balbucia vencido
— Até fez um pacto com o diabo
— Do que você está falando? Ele recua assustado
— Gosta de se fazer de bobo né? Sua voz agora é mais arrogante e com um tom furiosos. Sabe do que eu falo
— Não, não sei! Ele grita assustado, cada vez mais desesperado com aquilo
— Ontem seu desgraçado! Deixa de se fazer de idiota! Ela agora grita, cada vez mais alto e cheia de ódio, num tom de quem cobra uma promessa
— Eu não fiz nada! ele grita e se levanta, suspendendo sua roupa e se cobrindo desesperadamente rápido
— Filho da puta! Covarde! Você me prometeu a alma em troca de uma transa com sua sobrinha! Sua voz parece ter ficado mais grave e mais furiosa, seu rosto se transfigura num semblante sombrio horrendo e tétrico
— Para Samantha! O que está fazendo! Para agora, eu to mandando! Seus gritos são vacilantes e o medo começa a lhe congelar o sangue nas veias
— Gritou para todos ouvirem. Gritou feito um louco! “Eu quero possuir minha sobrinha e só o que eu quero, depois o diabo pode até ficar com minha alma imunda, eu não ligo, dou-lhe a alma em troca de uma transa...”
— Com minha sobrinha... Completou o tio caindo no chão atônito.
— Isso, muito bem. Ela bate palmas, agora já de pé e vestida. Sua voz já não é mais a de Samantha e seu rosto está transfigurado numa figura que lembra somente o rosto angelical de sua sobrinha.
— Não...
— Bem meu caro te dei o que queria, agora me dê o que eu quero. Disse ela calma e serena
— Não, eu não quis...
— Agora já é tarde. Devia ter mais cuidado com o que promete
A voz da sobrinha ecoa pela sala. Seu tio então sente algo vindo dos pés, um frio insuportável, que logo toma conta de todo seu corpo. Sua respiração fica difícil e sua visão começa a embaçar. Ele luta para manter seus olhos abertos, focando-se na imagem de sua sobrinha que aos poucos começa a se transformar na figura de um homem de terno branco, que o olha sorrindo. Seu corpo então desfalece e seus olhos não mais se abrem
— Seja bem vindo. Diz ele sarcástico
A todos que passarem por aqui: A Irmandade das Sombras ainda Vive e creia; Você ainda vai Ouvir Falar Muito nela!!!



LINX

domingo, junho 01, 2008

OLEO DE CÃO

Por Ambrose Bierce

Tradução: José Jaeger


Chamo-me Boffer Bings. Nasci de pais honestos, malgrado muito pobres. Meu pai era fabricante de óleo de cão, e minha mãe tinha, ao pé da igreja da vila, um pequeno gabinete, onde eliminava bebês indesejados. Já na minha infância aprendi os processos da indústria. Não apenas ajudava o meu pai procurando os cães para seu caldeirão, como também minha mãe me encarregava freqüentemente da missão de me desfazer dos despojos de seu trabalho no gabinete. Para me desincumbir desse mister, às vezes precisei de toda minha natural inteligência, posto que todos os agentes da lei da vizinhança se opunham aos negócios de minha mãe. O assunto não tinha injunções políticas, já que os agentes não haviam sido eleitos pela oposição: simplesmente faziam-no por fazer.
Naturalmente, o trabalho de meu pai era menos impopular, embora os proprietários dos cães desaparecidos o olhassem às vezes com desconfiança, o que, por extensão, se refletia em mim. Como sócios, à escondida, tinha meu pai os farmacêuticos da cidade, que quase nunca aviavam uma receita sem que nela constasse ao que eles designavam “Ol. can.”, o remédio mais valioso que já se houvera descoberto. Mas a maioria das pessoas não está disposta a fazer sacrifícios pessoais pelos afligidos, e era evidente que muitos dos cachorros mais gordos da cidade eram proibidos de brincar comigo. Isto feriu a minha sensibilidade juvenil e certa feita dirigiram-se a mim para fazer-me de pirata.
Lembrando-me daqueles dias, não posso, às vezes, evitar o arrependimento, pois, levando indiretamente os meus pais à morte, fui o autor dos infortúnios que profundamente afetaram o meu futuro.
Certa noite, quando vinha do gabinete de minha mãe com um exposto, vi passar, à frente da fábrica de azeite de meu pai, um guarda que parecia observar atentamente os meus movimentos. Embora bastante jovem, eu já aprendera que os guardas só acorriam aos fatos mais repreensíveis, de molde que dele me esquivei, enfiado-me na fábrica de azeite por uma porta lateral, que calhou de estar aberta. Travei a porta de uma vez e fiquei só com o meu morto. O meu pai já se recolhera. A única luz daquele lugar provinha do forno, que ardia intensamente sob um dos caldeirões, espalhando uma profunda luz e lançando reflexos rubros nas paredes. No caldeirão, o óleo estava em indolente ebulição, e, por conta de seu movimento, às vezes exibia pedaços de cachorro na superfície. Fiquei a esperar que o guarda se retirasse. Mantive no meu colo o corpo nu da criancinha e lhe acariciei ternamente o cabelo curto e sedoso. Ah, como era bela! Já naquela tenra idade eu gostava muitíssimo das criancinhas e, ao contemplar aquele anjinho, quase desejei que a pequena ferida vermelha de seu peito, obra de minha querida mãe, não fosse mortal.
O que eu pretendia era jogar a criança ao rio, que a natureza sabiamente nos legara para tal fim, mas, naquela noite, com medo do guarda, não me atrevi a sair da fábrica de azeite. “Afinal – disse com os meus botões- , não acho que teria importância se eu vier a entorná-la no caldeirão. O meu pai nunca irá distinguir os seus ossos dos ossos de um cachorro. E as poucas mortes que poderão advir da administração de outro tipo de azeite no lugar do incomparável 'Ol. can.' não serão percebidas em uma população que cresce tão rapidamente". Em suma, dei o meu primeiro passo para o crime e entornei a criança no caldeirão com indescritível tristeza.
No dia seguinte, para minha surpresa, meu pai, a esfregar as mãos de satisfação, informou a mim e à minha mãe que obtivera o óleo de qualidade nunca vista, e que este era o parecer dos médicos aos quais levara amostras. Argüiu que não tinha idéia de como lograra tal resultado, pois tratara os cães como sempre o fizera, em todos os aspectos, e eram eles da raça habitual. Considerei que era o meu dever lhes ofertar uma explicação e, notem bem, teria certamente contido o ímpeto de minha língua se pudesse prever as conseqüências. Os meus pais, lamentando olvidar as vantagens de combinar os seus afazeres, adotaram medidas para reparar o equívoco. Minha mãe mudou o seu gabinete para uma ala do edifício da fábrica e as minhas tarefas com relação ao ofício cessaram. Já não mais precisavam de mim para que me desfizesse dos pequenos supérfluos e não remanescia a necessidade de atrair os cães à condenação, pois o meu pai renunciou completamente a eles, embora ainda ocupassem o honroso nome no azeite. Assim, subitamente ocioso, poder-se-ia esperar que eu me tornasse uma pessoa viciosa e dissoluta, mas não foi isso o que aconteceu. A influência benéfica de minha mãe seguiu protegendo-me das tentações que assediam a juventude, e, além disso, meu pai era diácono de uma igreja. Mas, por culpa minha, estas estimáveis pessoas iam ter um fim tão funesto!.
Ao experimentar um proveito duplo com os seus negócios, minha mãe se entregou ao mister com uma assiduidade nunca dantes vista. Não apenas se desfazia dos indesejados que lhe eram entregues, como acorria às ruas e becos à procura de criancinhas maiores e mesmo adultos que lograva atrair à fábrica. Também meu pai, amante daquele óleo de melhor qualidade, fornia os seu caldeirões com zelo e diligência. Em síntese: a conversão de meus vizinhos em óleo de cão tornou-se a única paixão de suas vidas. Uma avidez absorvente e portentosa invadiu suas almas e ocupou o lugar da esperança que tinham de alcançar o paraíso, que, por outra parte, também os inspirava.
E se atiraram tão vivamente à empresa que os cidadãos reuniram uma assembléia pública, na qual adotaram resoluções que os censuravam severamente. O presidente deu a entender que os ataques sucessivos contra a população eram recebidos com hostilidade. Meus pobres pais abandonaram a assembléia com o coração partido, desesperados e com as mentes perturbadas. Considerei prudente, de toda forma, não entrar com eles na fábrica de óleo naquela noite e fui dormir lá fora, num estábulo.
À meia-noite, um misterioso impulso ordenou que eu me levantasse e espreitasse por uma fresta do quarto do forno, onde eu sabia que meu pai dormia. O lume ardia vivamente, como se esperasse por uma colheita abundante no dia seguinte. Um dos enormes caldeirões fervia devagar, dotado de um misterioso aspecto de contenção, como se aguardasse o momento de envidar toda as suas energias. Mas meu pai não estava na cama. Levantara-se e estava de roupas de dormir. Fazia um nó corrediço numa corda vigorosa. Pelos olhares que dirigia à porta do quarto de minha mãe, deduzi perfeitamente o propósito que lhe ia na mente. Imobilizado e mudo pelo terror, nada pude fazer para contê-lo. Subitamente, a porta do quarto de minha mãe se abriu sem fazer ruído e eles se defrontaram, ambos surpreendidos com a presença do outro. Ela também estava de camisola, e levava, na mão direita, a sua ferramenta de trabalho: uma longa adaga de folha estreita.
Minha mãe foi, igualmente, incapaz de abdicar à única escolha que a minha ausência e a atitude hostil dos cidadãos a deixaram. Por instantes, eles contemplaram mutuamente os olhos acesos e, então, lançaram-se com indescritível fúria um contra o outro. Como demônios, lutaram pelo cômodo todo. Meu pai maldizia. Minha mãe gritava. Ela tentava cravar-lhe a adaga. Ele forçava por estrangulá-la com as grandes mãos nuas. Não sei por quanto tempo tive a desgraça de observar este desagradável momento de infelicidade doméstica, mas, enfim, depois de um esforço mais vigoroso que o ordinário, os adversários subitamente se separaram.
O peito de meu pai e a arma de minha mãe exibiam sinais de contato. Por instantes, olharam-se da forma mais hostil. Então meu pobre e ferido pai, sentido sobre si a mão da morte, saltou à frente e, fazendo pouco da resistência que a minha mãe oferecia, tomou-a nos braços, conduzindo-a ao caldeirão fervente. E, reunindo as suas últimas forças, fê-la nele mergulhar. Em um momento, ambos tinham desaparecido e adicionavam seu óleo àquele do comitê dos cidadãos que os haviam convocado, no dia anterior, à reunião pública.
Convencido que estes funestos acontecimento obstruíam todos os caminhos para uma honrável carreira naquela cidade, abandonei a famosa vila de Otumwee, onde escrevi estras memórias com o coração repleto de remorosos por um ato tão imprudente e que envolve um deveras catastrófico desastre comercial.

A CASA DAS ALMAS - LUIZ POLETO



A CASA DAS ALMAS
- Para Leonardo Nunes Nunes, Paulo Soriano e Henry Evaristo.
Ninguém sabe ao certo quando ela foi construída, mas todos sabem que foi desativada sob estranhas circunstâncias até hoje não explicadas de forma convincente. Mas, independente disso, lá está ela, sozinha em meio ao campo, com apenas uma estreita estrada de terra, que no passado era o único caminho em meio ao ralo matagal que levava até o portão principal da Igreja de Tampadas.
Tampadas é o nome do pequeno vilarejo localizado no interior do país; uma pequena cidade que ainda não tem luz elétrica, e quase não tem população também – muitos foram embora após o fechamento da igreja; e os que ainda vivem por lá, não chegam perto da pequena igreja de ar sombrio e desolado.
Embora a população local evite a igreja, o aviso de não aproximação faz parte da tradição oral daquele povo, e os forasteiros que porventura passam por ali não tem conhecimento da história daquela igreja – muitos nem ao menos tomam conhecimento de que há uma igreja. Dizem que os que por ali se aventuraram nunca mais foram vistos.
Um dia, um desses viajantes chegou até o pequeno vilarejo caminhando. Carregava apenas uma mochila de viagem e uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Chegou até o único bar existente, bebeu um refrigerante com tamanha sede que parecia que não bebia nada há dias; quando terminou, puxou conversa com algumas pessoas que estavam por ali, fazendo perguntas sobre o vilarejo, modo de vida, e outras coisas sem muita relevância. Depois de ouvir as respostas, disse que estava de férias, e estava fazendo um passeio pelo Brasil, visitando apenas as pequenas cidades e os vilarejos do interior, tirando fotos e escrevendo um diário.
Após duas ou três horas de conversa e muitas fotos, pagou a bebida e saiu. Quando estava na estrada de saída do vilarejo, viu uma estreita estrada de terra, já coberta pelo mato alto que crescia à sua volta e quase escondia sua entrada. Sem ninguém por perto, o estranho resolveu percorrer aquela estrada, curioso para saber aonde ela iria dar, já que as casas e o pequeno comércio do vilarejo encontravam-se concentrados na extremidade sul. Com muita dificuldade, caminhou por cerca de dez minutos, até sair em um campo aberto, cercado por algumas árvores que pareciam tão velhas quanto a própria humanidade. Algumas com troncos retorcidos, outras com troncos que pareciam terem sido queimados; mas todas as árvores tinham em comum o fato de não terem folhas.
Observando ao redor, pôde perceber, a alguns metros à frente da estrada, uma pilastra de pedra com quatro ou cinco metros de altura que servia de pedestal a um anjo de mármore que um dia fora branco, mas agora estava tomado pelo terra e pelas marcas da chuva e do tempo. Havia algo na expressão do anjo - que olhava para cima - que o deixou triste e com um sentimento angustiante de solidão. Chegou a pensar que o anjo começou a chorar quando olhou para ele.
Alguns metros adiante viu uma igreja, com um aspecto sombrio e de abandono. Suas paredes, de pedra, já mostravam o quanto o tempo pode ser cruel; a entrada principal consistia-se de uma porta dupla de madeira pintada de azul, já descascada e bem deteriorada. Duas pequenas janelas pairavam como olhos atentos em cada lado da porta. Estendendo-se verticalmente acima do telhado havia uma torre, aonde se podia ver o grande sino de bronze totalmente imóvel, como se estivesse em seu repouso eterno. Chegando perto, percebeu que o portão principal estava fechado, e não parecia haver ninguém por perto. Ao forçar um pouco a porta, esta se abriu, dando passagem para o salão principal.
A única iluminação dentro da igreja era proveniente dos raios de sol que passavam pelas pequenas janelas – sem vidros – nas paredes laterais. Marcas de água que há muito correram por ali indicavam um problema no telhado, e tornavam as paredes um pouco melancólicas. Os bancos de madeira já estavam quase ou totalmente consumidos pelos cupins. Encantado com a beleza sinistra do lugar, o estranho tirou diversas fotos, e dirigiu-se ao que parecia ser a sacristia, no final de um dos corredores.
Quando o estranho passou pela porta, um ar de curiosidade e espanto tomou conta do seu outrora estado de empolgação. A sala, que devia ter por volta de quinze metros quadrados, tinha todas as quatro paredes do recinto cobertas por fotografias antigas, todas com um tom de sépia, emolduradas em belas molduras – todas feitas artesanalmente – e embora aparentassem estar ali há muito tempo, ainda mantinham um bom estado de conservação. Do chão ao teto, tudo estava coberto por fotografias. Todas as fotos eram de famílias, embora não houvesse qualquer texto que identificasse as fotos.
Por vários minutos o estranho ficou ali, olhando as fotos, apreciando aquele ar nostálgico, admirando aquela estranha tristeza implícita no rosto das pessoas – que, curiosamente, não sorriam nas fotos. Algumas fotos aparentavam ser da década de 20, outras de 30, mas certamente nenhuma delas era de depois da década de 40.
Depois de olhar rapidamente as várias fotografias, acabou parando em uma – que talvez tenha sido escolhida aleatoriamente, ou apenas tenha chamado a sua atenção por algum motivo qualquer. Na foto, uma família de nove pessoas posava de forma quase mecânica. Como que estudando a foto, o estranho ficou ali, por vários minutos, analisando cada detalhe da foto. Com os olhos cheios d’água e um sentimento de vazio, proferiu um palavrão ao mesmo tempo que saltava para trás, quando percebeu que uma das crianças da foto começou a chorar. Ele coçou os olhos, achando estar vendo coisas, e sacudiu a cabeça, mas percebeu que não só a criança chorava como as outras pessoas da família gritavam em extrema agonia, com a dor estampada em seus rostos; ao mesmo tempo, pareciam desesperadas para sair da foto.
Ainda atordoado pela visão que acabara de ter, olhou ao redor e percebeu que em todas as fotos a cena se repetia: todas as pessoas gritavam, choravam, e tentavam desesperadamente sair de suas pequenas prisões particulares. O som misturado de choro de crianças e adultos, com os gritos de agonia eram como uma faca que atravessava seu cérebro. Naquele momento, ajoelhou-se tapando o máximo que pôde os ouvidos e fechou os olhos. Em seu interior, parecia estar sofrendo como aquelas pessoas. Chorou, como se estivesse também preso em uma moldura feita artesanalmente.
Algum tempo depois – ele não podia mensurar se foram minutos ou horas – levantou-se, mas ainda sentia o desespero das pessoas ao seu redor. Eram pessoas, não eram? Ou eram apenas suas almas aprisionadas para toda a eternidade em uma foto – ou o que parecia ser uma foto?
Não suportando mais a agonia de estar confinado naquela pequena sala, correu, dirigindo-se à porta pela qual entrara, mas só teve tempo de virar-se para perceber que não havia qualquer porta ali; todas as quatro paredes estavam cobertas de fotografias, e não havia portas ou janelas por onde sair. Gritando, atirou-se desesperado contra as paredes, tentando, inutilmente, encontrar uma forma de sair daquele lugar. Com bruscos movimentos, arremessou as fotos para longe das paredes, mas, a cada porta-retrato que caía, um novo surgia em seu lugar, e mais e mais pessoas gritando, chorando, em uma grande sinfonia desafinada.
Sem qualquer esperança de sair daquele lugar misterioso, após muito gritar e chorar, percebeu que em uma das paredes havia uma moldura com uma foto em que não havia ninguém, apenas um quarto. Analisou aquele estranho objeto mais de perto, ao mesmo tempo que tentava entender o que se passava naquele lugar. Percebeu no quarto daquela foto alguma familiaridade, e, novamente, entrou em pânico: aquele quarto havia sido o seu quarto quando criança. A mesma cama, o mesmo tapete em forma de palhaço, a mesma janela próxima da cama. Naquele momento, o pânico foi tomado por uma saudade; saudade de tempos que nunca mais voltariam, e entendeu que o objetivo de qualquer fotografia era congelar um determinado momento no tempo; um momento que nunca mais será esquecido e ficará ali para sempre. Lembrou-se de quantos momentos desejara ter congelado no tempo.
Fechou os olhos, e a sacristia foi tomada por um imenso clarão, uma intensa luz vermelha. Quando apagou, o quarto havia voltado ao seu estado anterior, a porta encontrava-se no mesmo lugar que estava quando o estranho a cruzou. O estranho, não entanto, não estava mais ali; agora, ele fazia parte daquele imenso mural nostálgico, e naquele momento, ele estava de volta ao quarto que fora seu quando tinha 3 anos de idade. Passaria toda a eternidade preso àquele lugar, e talvez um dia implorasse para sair dali, da mesma forma que todas as outras pessoas que também faziam parte daquele lugar.Luiz Poleto

O ÚLTIMO CAVALHEIRO DAS TREVAS

Aqui vai, atrasado como sempre, o conto que fiz em comemoração ao primeiro aniversário da IRMANDE DAS SOMBRAS. Estava devendo esta postagem ao blog. Espero que gostem!
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O ÚLTIMO CAVALHEIRO DAS TREVAS

Por Henry Evaristo

(Conto comemorativo ao primeiro aniversário da Irmandade das Sombras)


Richmond não acreditava na possibilidade de que o morto pudesse retornar mas Harmony fora enfático: Ele retornaria após a leitura correta do “Im Reich Der Farbtöne” (1).

Os dois estavam em uma das inúmeras salas escuras do castelo gótico do barão Von Sorian, na Moldávia. Ele havia sido o ultimo representante da Irmandade das Sombras e desaparecera misteriosamente no ano de 2057.

Agora Richmond e Harmony haviam localizado o local incrustado em meio às inóspitas e solitárias montanhas dos Cárpatos. Sem sombra de dúvidas aquele havia sido o lugar de reuniões do grupo de literatos mais perturbador de toda a história da literatura universal; produtores de obras que aterrorizaram o mundo e foram capazes de transformar o senso de horror a níveis globais. Houve muita perseguição à concepção artística da Irmandade; governos americanos e europeus tentaram a todo custo banir suas publicações mas o povo insistia em ler cada um dos novos trabalhos de seus membros. Foram os discursos públicos e campanhas publicitárias cada vez mais agressivas, promovidas pelos governos dos países mais conservadores, que fizeram com que o grupo buscasse o isolamento nas montanhas. Um local escondido dos olhos de todos onde eles poderiam buscar inspiração e concentração total. E foi então que seus temas e suas produções encontraram um nível jamais imaginado nos anais das concepções de arte sombria.

As publicações continuaram de forma clandestina, mas, ainda assim, chegando frequentemente ao alcance de seus leitores nas mais diversas linguas. E houve quem afirmasse, em lugares tão diversos do mundo quanto a África e a Suíça, que a leitura das obras dos escritores era prejudicial à saúde física e mental de quem lia.

Richmond e Harmony, a duras penas e depois de vinte anos, obtiveram autorização do governo local para explorarem as ruínas do velho castelo. Foi entre as inúmeras salas, e em meio a extensas e mofadas estantes de livros, que eles encontraram a passagem para a sala secreta da Irmandade, conhecida como “A câmara dos Tormentos”; porém, daquele lugar escuro e úmido saíram durante o tempo em que os escritores ali permaneceram apenas os mais puros deleites sombrios que um leitor jamais sonhou em desfrutar. Não causavam tormentos ao corpo como queriam crer os puritanos do mundo. E na mente, o único mal que originaram talvez tenha sido a libertação dos afetados deste mundo apenas material oferecendo-lhes mergulhos profundos em vastos e encantados universos etéreos.

O que Richmond e Harmony queriam era encontrar o lendário corpo insepulto do ultimo representante do movimento. Os outros, todos eles, havia sido descobertos em ruínas abandonadas ao redor do mundo sempre mutilados de forma bastante sistemática. Os dois pesquisadores do insólito encontravam razões para crer que as partes extraídas dos cadáveres estariam naquele local, junto ao corpo do barão Von Sorian. Estes motivos eles cooptavam das leituras e da interpretação da obra máxima da Irmandade, o terrível livro escrito em conjunto por todo o grupo, “Im Reich Der Farbtöne”. Segundo o compêndio seria possível, através da execução de determinados rituais, manter eternamente acesa a chama da imaginação obscura do grupo. Mas, lendo atentamente, e de posse das traduções dos trechos escritos em aramaico, se poderia encontrar “um livro dentro do livro” e este era muito mais terrível. Harmony o lera, e seus cabelos haviam embranquecido do dia para a noite. Para Richmond, sempre menos curioso que o amigo, aquela era a suma confirmação de que o material era sim danoso ao corpo e a alma; todavia, como fã incondicional da obra da Irmandade, nunca se opôs em seguir o outro em sua empreitada.

Os rastros do barão haviam sido seguidos desde sua fonte original, no nordeste brasileiro, sendo elaborada uma detalhada reconstituição de sua trajetória entre a cidade de Salvador e as montanhas dos Cárpatos. Ele adquirira o castelo através do investimento de recursos próprios, muito provavelmente originários de espólios de família. Depois agrupara os irmãos em Londres e de lá partiram para sua ultima morada terrestre.

Depois disso, não se sabe como, seus livros de contos, romances e novelas terríficas apareciam nas bancas e livrarias sempre sem que nenhum funcionário desse conta de sua encomenda e compra. Depois que as atividades cessaram, e os primeiros corpos mutilados foram surgindo, o ultimo livro apareceu numa biblioteca de Amsterdam. Foi lá que Peer Harmony o viu pela primeira vez. Nele descobriu, lendo as entrelinhas, um plano sinistro. Sua casa, nos subúrbios, era repleta de livros de terror e ocultismo. Juntando informações de inúmeras fontes ele entendeu o propósito da obra e assumiu para si a missão implícita ao descobridor. Foi apenas um dia antes de chamar a sua casa o amigo Albertus Richmond que ele terminou a tradução da ultima parte do rito principal. Era uma cerimônia de ressurreição. E dizia que seria dado o poder de dar continuidade à obra da Irmandade das Sombras àquele que, encontrando o cadáver do ultimo cavaleiro das trevas, o reerguesse da morte. As páginas finais do grimório continham todo o planejamento e prática da missa a ser realizada.

No dia 06/06/2076, dezenove anos depois do desaparecimento da Irmandade das sombras, Richmond e Harmony estavam no interior do castelo abandonado para trazê-la de volta.

Não havia o que questionar: O corpo encarquilhado e escuro que jazia em uma pedra de frio mármore negro era de fato o do barão Von Sorian; Porém, ele não era de forma nenhuma apenas isso. Seus membros não eram apenas aqueles com os quais viera ao mundo originalmente; eles estavam misturados, com costuras grossas e malfeitas, aos pedaços retirados dos cadáveres dos outros irmãos das sombras. Suas pernas não eram apenas suas pernas; eram também as de Lord Linx e Lord Henry. Seus olhos não eram apenas os seus olhos, mas também os de Lady Celly e Lady Hell. Todo o seu corpo era um imenso retalho, tal qual um Frankenstein ainda mais horrendo, que agregava as partes de todos os outros membros. Viam-se aqui partes das mãos de Lord Roger Silver misturadas com as unhas de Sir Luciano Barreto e os dedos de lady Mauren Müller; ali, a pele de Lady Catherine costurada aos cabelos de Sir Luiz Poleto e Dom Alexandre Nunes. Via-se na abominação híbrida, um rosto magnânimo: Numa metade era o do próprio Barão; na outra, o da condessa Victoria Magna.

A visão estarrecedora derrubou o livro das mãos de Richmond à primeira vez que ele a avistara de sob a cortina de poeira que se erguera quando a passagem por trás da estante fora aberta. Depois, como ocorre com um odor nefando, ele acostumou-se e não mais sentiu os nervos abalados. Ou curara-se ou não tinha mais nervos. De qualquer forma tinha que se controlar; os planos de Harmony iam muito mais além.

Foi numa sexta-feira que o ritual foi realizado. Uma descrição detalhada de todo o ocorrido seria deveras traumática para o leitor. Opto por partir do ponto em que tudo se tornou tão palpável quanto as pedras das paredes bolorentas do castelo Von Sorian. Tudo o que era necessário à manobra mágica se encontrava na própria câmara secreta. Os autores haviam cuidado de tudo!

Às seis da tarde, quando o sol escoava seus últimos raios avermelhados por entre os picos cobertos por neves eternas dos Cárpatos, Richmond e Harmony iniciaram a missa da ressurreição. Após a consagração dos pontos cardeais aos espíritos da terra, depois que os signos mágicos haviam sido traçados, leu-se a conjuração principal:

Per Adonai Eloim, Adonai Jeovah!Adonai Sabbaoth, Metrathon ou Aglamethon!Verbum Pythonicum, mysterlum salamandrae,Cenventus sylvorum, antra gnomorum, daemonia coelli god.Almosin, Gibor,Jehosua, Evam, Zariathnatmik!Veni, Veni, VeniEgo te provoco!Ego te provoco!In domine meum!VeniVeniVeni!” (2)

Primeiro foram as velas que se apagaram sem que houvesse vento algum, depois as dobradiças das portas estalaram sem que ninguém as manipulasse. Os livros das estantes, então, saltaram de seus lugares e, espalhados no chão, se abriam e fechavam sozinhos. Lá fora, a noite provinha o ar de sons lamentosos; de gemidos de um quase prazer bestial. Eram como o frenesi de uma multidão cujas vozes se espalhavam pelas florestas e montanhas geladas.

No interior da Câmara dos Tormentos, Richmond e Harmony presenciaram o ressurgir do mito. O nascimento de uma nova era livre. De súbito, a coisa em cima da pedra negra abriu os olhos. E seu corpo foi percorrido por violentos espasmos. No ambiente espalhou-se um forte odor de raiz de mandrágora em meio a densa fumaça azul esverdeada e ouviu-se o som de ossos se partindo quando o ressurrecto tentou se erguer. E ele, o último cavalheiro das trevas, olhando no fundo das almas de seus renovadores, falou, e sua voz era a de todos os irmãos juntos:

“Tu lestes bem nossos ensinamentos!” E enquanto falava se dirigia a Harmony. Depois, encarando com seu rosto retorcido a massa trêmula em que se tornara Albertus Richmond, disse: “Tu, não temas! Não há razão para os teus temores!”.

E continuou:

“Temo eu, pois esta algazarra que vem lá de fora me perturba deveras. O que são, pois, estes gritos, estes risos, estas exclamações?”

Neste momento o pior medo, o horror mais desmesurado, se apossou do coração de Richmond. Não havia meios de prever a reação do ressurrecto à segunda parte do trabalho de Harmony. O que fizeram era para toda a humanidade, mas não se poderia saber se a coisa iria aprovar. Assim, a única ação cabível aos dois mortais mais completamente tomados pelo poder da literatura das sombras, era abrir de uma vez a enorme janela que dava para a paisagem fria do lado de fora.

Num pulo, correram a destrancar e retirar as travas que haviam mantido no escuro aquele quarto por mais de vinte anos. Em menos de trinta segundos as duas partes pesadas do janelão se abriram deixando entrar uma rajada de vento frio que espanou para o ar toda a poeira de muitos e muitos anos. Junto com o vento o som dos gritos de êxtase invadiu os cantos do velho castelo e a coisa que era toda a Irmandade das Sombras levantou-se de seu leito de mármore. Seus velhos ossos estalavam depois de décadas de inércia.

E os sons continuaram pela noite. Repercutindo pelos vales e bosques ao luar. Era um som portentoso, nítido, próximo. Quando o ressurecto alcançou a sacada, a visão que teve o encheu do mais puro e indescritível deleite. Lá, cobrindo toda a extensão visível da terra, mergulhando em direção ao horizonte escuro como um enxame pululante interminável, estavam milhões de pessoas. E elas traziam consigo artefatos luminosos que brilhavam na escuridão.

A coisa que era a Irmandade virou-se para Richmond e Harmony mas não precisou falar.

“Eis aí, mestre! Teus fãs de todo o mundo que vieram celebrar este vosso renascimento. Eu mesmo, e meu amigo, chamamos e convencemos cada um deles a estar aqui nesta noite. Eles são milhões, e o início do teu reino!” Disse Harmony e seus olhos estavam cheios de lágrimas.

“Vê Mestre!” Disse Richmond vencendo o medo em face da emoção. “Cada um trás papel e caneta. Eles querem ouvir o início da nova estória! Fala a eles!”

Então a Irmandade das Sombras avançou mais para fora da janela até um ponto em que já quase se debruçava para o ar. E do umbral ouviu e viu a maior ovação que as forças do mundo já testemunharam. Com um sorriso no rosto ergueu os braços e, depois que a multidão fez silêncio, começou a escrita de uma nova era.
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(1) - “Im Reich Der Farbtöne” = No Reino Das Sombras (N. do E.)
(2) - Ritual de invocação retirado do livro "O caso de Charles Dexter Ward" de Howard Phillips Lovecraft que por sua vez o adaptou ao seu conto extraindo-o da obra "Dogma e ritual da alta magia" do ocultista francês Elifas Levi. (N. do E.)

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Esta é minha singela homenagem para o dia do aniversário deste grupo do qual tenho a honra de participar. Agradeço por todos vocês terem um dia entrado em minha vida, ainda que virtualmente.Alguns membros não foram citados formalmente por este texto mas isso não diminui, de forma nenhuma, sua importância perante o grupo. Todos, como foi visto, somos um só!
Henry Evaristo – 21/09/2006

sábado, maio 31, 2008

O HOMÚNCULO


O HOMÚNCULO

Por Paulo Soriano



Foi numa madrugada fria, em que chovia copiosamente, que fui acordado por pancadas desesperadas na porta de minha cabana, para onde me recolhia sempre que as ruelas mal-cheirosas de Villach se tornavam insuportáveis.

Irritado, acendi o lume e, ao olhar através do postigo, surpreendi-me ao ver, num relance, a pálida silhueta de Hieronymus Von Hohenheim.

Quando abri a porta para dar passagem ao velho amigo, o vento que soprava da floresta apagou a candeia. Von Hohenheim passou por mim sem dizer palavra e, ao fazê-lo, uma leve onda de calafrio me varreu, envolvendo-me com a vibração de um sino. Podia sentir que Von Hohenheim estava assustado. Embora não pudesse escutá-las, as batidas de seu coração de alguma forma vinham até mim e, sem qualquer dúvida, eu sabia que seu corpo todo estremecia.

Quando acendi a lareira, e lancei o olhar para o meu amigo, concluí que não me enganara em minhas sensações. Ele permanecia em pé, impassível. Mirava a lareira como se paralisado por uma força irresistivelmente dominadora. Servi-lhe a aguardente de seu agrado, mas ele não fez caso dela. Insisti:

-Bebe. Estás completamente molhado. O fogo da aguardente te fará bem.

Von Hohenheim tremia. Qualquer uma suporia que tritava de frio. Mas eu, que o conhecia como a palma de minha mão, sabia perfeitamente que era o medo que o fazia vibrar.

Servi-me da agurdente e o convidei a sentar-se. Desta feita, ele, resignado, obedeceu.

- O que eu irei contar-te parece loucura.

- O que aconteceu?

Meu amigo rangeu os dentes, numa reação nervosa. Examinado-o com mais atenção, vi que trazia o copo todo coberto de lama. Deduzi que, conduzido por um desespero cuja origem eu ignorava, viera correndo. Caíra diversas vezes na lama, porque as suas calças tisnavam-se de lamas de diferentes colorações. Mas não arfava. Supus que Von Hohenheim quedara-se inerte em meus umbrais por um longo tempo antes de decidir-se por me pedir ajuda.

- Sabes que Phillipus, meu irmão, iniciou-me nas artes da Alquimia - disse-me ele, saindo aos poucos da letargia. - Há alguns anos, recebi de um mensageiro uma carta sua, na qual me confiava um segredo alquímico que ele, a bem de sua grande reputação, jamais ousaria partilhar com outrem senão comigo. E muito menos pô-lo em prática. Era uma fórmula para a produção de um homúnculo.

É evidente que Hieronymus Von Hohenheim estava, de fato, louco. E, à medida que desfiava a sua história desvairada, mais eu me convencia de que Von Hohenheim não apenas estava doido: estava completamente alucinado.

“-Faz três anos que eu criei o homúnculo. A produção de um homúnculo é um processo longo e delicado, no qual um simples erro, uma mera distração, pode conduzir ao insucesso da empresa. Tanto a critura pode não germinar, como pode evoluir para uma aberração. O primeiro passo para a produção de um homúnculo é a inserção de esperma humano em um alambique hermeticamente fechado, que é enterrado em esterco de cavalo. Durante quarenta semanas, o ser gestado deve ser mantido em uma temperatura igual à do útero de uma égua. Neste tempo, o homúnculo se desenvolve gradualmente, alimentado por sangue humano. Ao final dos dez meses, infunde-se água destilada no alambique, que é levemente aquecido. O vapor fá-lo despertar e respirar como uma criança-recém nascida, do qual é uma miniatura. Disse-me meu irmão, em sua carta, que o homúnculo pode ser criado e educado como qualquer criança, até ficar mais velho e se tornar capaz de cuidar-se sozinho. Ele exige de nós a mesma dedicação que entornamos a nossos filhos. É a pura verdade.

“Eu me afeiçoei à criatura, embora soubesse que ela, por não haver sido gerada no ventre de uma mulher, não possuía alma. Ela cresceu rapidamente, e, ao término de outro ano, já estva adulta. Confesso-lhe que eu a tinha como a um filho. Chamei-a de Johannes em tua homenagem!

“Foi por esse tempo que eu me casei com Olga. Johannes, malgrado dócil e obediente como um cãozinho, era muito impulsivo: a muito custo consegui conservá-lo longe da vista de Olga, embora ele soubesse que era seu dever manter-se a uma distância considerável da mulher. Tranquei-o, enfim, no meu laboratório, onde ninguém, nem mesmo Olga, sem minha expressa autorização, podia entrar. Quando se viu reclusa e abandonada, uma tristeza sem fim se apossou de minha criação. Como qualquer recém-casado, eu dedicava todo o meu tempo a Olga, e quase não mais me aventurava noutros experimentos alquímicos. Mesmo esquecido, mesmo abandonado, Johannes olhava-me como a um pai amoroso, com carinho e sem qualquer nesga de ressentimento. Mas, de entremeio à ternura de seu olhar, vinha uma expressão que eu soube interpretar perfeitamente: a amargura que flutua na densidade insondável do ciúme.

“Conquanto desprovido de alma, Johannes tinha as emoções e a inteligência de um ser humano. Com o coração ferido, ele bem poderia pôr sua inteligência a serviço de emoções tão primitivas quanto traiçoeiras.

“Todos sabem que ciúme e vingança andam juntos. Mas eu não podia crer, ou mesmo admitir, que Johannes pudesse fazer mal a Olga. Todavia, olhando friamente a questão, eu sabia que, mantendo o homúnculo em minha casa, expunha a minha mulher a risco.

“Antes mesmo de casar-me com Olga, eu a admoestara a nunca entrar em minha sala secreta. Ela manteve-se obediente, para a minha satisfação. Mas, depois de encarcerar furtivamente o homínculo no laboratório, corri a ela e renovei a advertência. Agi muito mal. Despertei nela, e com um vigor redobrado, a adormecida curiosidade feminina.

“Certa noite, ao voltar a casa, após medicar no campo, deparei-me com uma cena estarrecedora: Olga gritava, com os braços estendidos contra a parede; acuado como um cão indefeso, Johannes tremia a cada grito que esvaía dos pulmões ensandecidos de minha mulher.

“Decerto que a simples presença de um homínculo é capaz de assustar o mais corajoso dos homens... Mas Johannes.. Johannes... Sim, amigo, meu experimento não foi propriamente um êxito. Errei em alguma coisa. Johannes era disforme. Era uma aberração.

“Olga ordenou:

'- Livra-te dessa abominação! Imediatamente!'

“Resoluto, prometi a Olga que assim o faria.

“Tomei Johannes nos braços e saí. Com a sua vozinha, que mais parecia um miado, ele me implorava que não o matasse. Em todo o trajeto ao riacho, ele gritava:

'- Não me mates .Não mates o teu pequenino. Não mates quem mais te ama.'

“Enquanto eu mergulhava a criaturinha indefesa no ribeiro, mergulhava, também, a minha alma no remorso. Afinal, ainda que monstruosa e sem alma, eu a amava profundamente.

“Voltei para casa com a alma destroçada. E tomei a resolução de não mais tornar a pensar no assunto.

“Mas, hoje, algo de horrendo aconteceu. Levantei-me bem cedo e, não tendo visitas a realizar, resolvi arejar os pensamentos à beira do ribeiro. De súbito, pareceu-me que, por instantes, algo se agitou e escapuliu das sebes naturais que orlam o riacho. Era ele, era o homúnculo. É lógico que estremeci. Vira o homúnculo por apenas um instante. Mas não podia haver dúvidas que era mesmo ele. E os seus ocelos rubros ardiam de ódio. Flamejavam por vingança.

“Corri para casa, mas era tarde demais. Olga ainda dormia quando ele a atacou. E destroçou o seu pescoço. Agora eu sinto... eu sei.... que ele está à minha procura.”

Apiedei-me de meu amigo ensandecido a ponto de reprimir não poucas lágrimas. Então lhe disse:

-Hieronymus, nada há o que fazer. Aquece-te um pouco na lareira e vai dormir.

Foi neste momento que eu vi o homínculo a esgueirar-se pela portinhola, que eu descuradamente deixara aberta. Ele era ágil como os símios que os saltimbancos exibem em dias de feira. Correu para mim. Nos seus pequenos olhos escarlates havia tanto ódio que eu adernei nauseado. A criaturinha andrajosa estava quase nua e, certamente, não teria mais que quinze polegadas reais. Sua pele parecia a de um réptil escamoso e a sua carranca hedionda rivalizava com a das gárgulas mais horrendas da catedral de St. Pierre. Johannes voltou-se para Hieronymus, que o olhava com a face contorcida pelo horror. Agachado, o homúnculo ensaiou uma grotesca reverência, como se pedisse desculpas pelo que iria fazer. Por um momento, a coisa estava de fato constrita e respeitosa. A coisa penitenciava-se verdadeiramente. Eu vi a tristeza fulgurar em seus olhos de fogo. Depois, atirou-se impiedosamente ao pescoço do homem, e lá mergulhou os seus dentes castanhos e curvos, que antes pareciam garras de aves de rapina.

Em poucos instantes, Heironymus estava morto. O medo e o pavor impediram-me de esboçar a mais tímida reação.

O homúnculo encarou-me consternado. Neste preciso momento eu assisti, mais ultrajado que espavorido, a um sacrilégio. Aquela cara deformada tinha um quê de semelhança com a do homem que o criara. Pudia nela ver a inconfundível expressão de aflição que há pouco contemplara na face de Hieronymus Von Hohenheim. Compreendi que o monstrengo fora gerado e amamentado pelo esperma e pelo sangue de Hieronymus. Sim, a coisa era seu filho.

O homúnculo empertigou-se, como quem toma uma grave resolução. E atirou-se ao fogo da lareira, onde crepitou até o amanhecer.

PAULO SORIANO

quinta-feira, março 06, 2008

Um Homicídio Perfeito

Por Paulo Soriano

Para Linx

A deformidade de meu caráter jamais me envergonhou. Espírito astuto e dissimulado, nunca me expunha a quem quer que seja. A minha alma exsudava humores peçonhentos, malgrado imperceptíveis, mas eu bem sabia como, sorrateiramente, inocular o meu veneno. Era eu um predador cauteloso. Como uma serpente astuta e insidiosa, mergulhava e recolhia, num átimo de um único segundo, estas presas precisas – profundas e aguçadas – , sem que a vítima o percebesse. Isto mesmo: só ensaiava o meu bote certeiro quando se menos esperava.

Sempre fui assim. As memórias mais distantes e profundas de minha infância conduzem a cenas incrivelmente nítidas em minha mente, que se movimentam com agilidade e perfeição, como se tivessem vida própria. Nelas, eu me ponho a furtar as guloseimas de um colega abastado, e para enfiá-las na mochila de um menino pobretão, com o único escopo de denunciá-lo e vê-lo espancado furiosamente pelo senhor diretor.

É evidente que nunca fui apanhado. Em toda a minha vida, sempre gozei de excelente reputação. A reiterada prática de atos impunes, ao invés de me infundir o excesso de segurança que irremediável e ordinariamente conduz à negligência e ao relaxamento, fez-me cada vez mais cauteloso. Eu era um gênio na arte do malefício. Mas creio que foi o excesso de reflexão e cautela – a propensão inata a um risco calculado – a origem de toda a minha desgraça.

Nós, os criminosos inteligentes, temos também as nossas teorias. Sempre cri que o crime perfeito é aquele que não deixa vestígios. Não é exato supor que é perfeito o crime que não permite revelar a autoria. Este é um efeito reflexo, que pressupõe a verdade contida no primeiro postulado. Mas havia os que diziam que perfeito não é o crime em si mesmo realizado, mas algo exterior a ele. Perfeito, segundo alguns, é o crime que não pode ser, física ou legalmente, punido.

Certo dia, apresentaram-me ao novo inquilino do apartamento térreo. Chamava-se Houdry e consta que viera de Potier. Dizia-se dele que era um brilhante químico, membro da Academia de Ciências, hoje aposentado e definitivamente abandonado pela família. Mas, a mim, antes me parecia um demônio expulso dos infernos. A repulsa que senti por aquele homem foi imediata. O toque de sua mão pareceu-me tão asqueroso quanto a sensação táctil que se deve experimentar quando se acaricia uma víbora fria e sudorosa. Naquele momento, pude sentir, a subir-me pelo braço, um fluxo regelado e aterrador, como se toda potência malévola, que emanava do indivíduo, me inundasse até a exaustão, e me levasse quase à asfixia. Confesso que cheguei a cambalear. Ele me sorriu, exibindo os dentes afiados, os dentes de hiena. Então entendi que encontrara um inimigo à minha altura. Um inimigo traiçoeiro e letal. Imediatamente, pus-me em alerta. E, desde então, fiquei à espreita, esperando o momento adequado de cravar-lhe as minhas presas e inocular-lhe toda a minha peçonha irremissível.

Certo dia – era domingo –, acordei muito cedo para o costumeiro passeio nos Campos Elísios. Desci as escadas com grande disposição. Sorvi – como sempre – o aroma da rosa branca que mantinha na lapela. E mergulhei no andar térreo com certa displicência, pois sentia o espírito leve como uma pluma. Mesmo assim, não deixei de perceber que o Hiena esquecera a chave do apartamento no lado de fora, negligentemente enfiada na ranhura da fechadura. Não me foi nada difícil, em pouco menos de quinze minutos, obter uma réplica da chave e repor a original onde eu a encontrara. O primeiro passo fora dado. Tudo seria uma questão de tempo e oportunidade. E esta não custou a chegar. Na mesma semana, talvez na quarta-feira, soube, pela senhoria, que o senhor Houdry fora chamado às pressas a Potier para sepultar um parente próximo. Na noite em que o velho Hiena abandonou a toca, entrei sorrateiramente em seu minúsculo apartamento, empregando a chave forjada. Compunha-se de um único cômodo e de um banheiro acanhado. Havia apenas uma janela, guarnecida de uma leve cortina de cetim vermelho, cujas fraldas aveludadas desciam pachorrentamente sobre o espelho da cama. Ao lado ficava uma mesinha de cabeceira e, sobre ela, descansava um velho relógio despertador, irremediavelmente quebrado. O antro era escuro. As paredes, as cortinas, o velho baú... tudo. Tudo estava impregnado da hediondez daquele homem. E eu podia sentir que todo ambiente retinha e exalava as excrescências de um caráter tão deformado quanto o meu!

A luz de minha lanterna percorreu as paredes até se deparar com um baú de madeira anciã, cravejada de botões dourados, onde o velho guardava o vestuário. As roupas cheiravam a naftalina. Exalavam o olor insuportável da velhice e da decrepitude. Examinei as vestimentas com cuidado. Nada havia nelas que despertasse o meu interesse, exceto um cravo ainda fresco, quase orvalhante, que se insinuava a partir do bolso de um paletó antigo, mas muito bem conservado. Um terno que calharia bem ao cadáver de um velho chacal. Levei o cravo ao nariz e sorvi, de chofre, o aroma. Aspirei uma fragrância acre, que me fez recuar imediatamente, com o esgar estampado na face.

Mas a grande surpresa foi encontrar um pequeno refrigerador ao lado da porta do banheiro. Ora, aquilo estava longe de ser usual. Não foi necessário um exame minucioso para que eu encontrasse o que queria: a geladeira estava vazia, exceto por uma caixa de papelão contendo diversas ampolas. Era mais que evidente que o velho padecia de um mal crônico e que o medicamento deveria ser conservado a baixa temperatura. A primeira idéia que me ocorreu foi a de desligar o refrigerador e religá-lo antes do retorno do ancião. Mas abandonei este plano imediatamente. Era uma concepção pueril, e eu me admoestei energicamente. Como a viagem não deveria ser demorada, talvez não houvesse tempo para que o remédio experimentasse o pretendido efeito deletério. E havia a possibilidade de um retorno precoce. Se o Hiena enxergasse a tomada desconectada, certamente tomaria sérias precauções, comprometendo seriamente o meu intento de matá-lo.

Subi ao meu quarto e retornei com uma seringa na mão. Ao acaso, escolhi uma das ampolas e, perfurando com a agulha a tampinha de borracha, injetei uma solução de cianeto de potássio, que há algum tempo obtivera de um farmacêutico , a quem conduzira à ruína: eu era um mestre na chantagem e na extorsão.

Aquele empreendimento me rendeu um deleite extraordinário. Quando o velho escolheria a ampola fatal? Ninguém sabia. A expectativa me fascinava. E a obra do acaso, de entremeio a uma ação homicida calculada, conduzia-me ao êxtase absoluto. Morrerá hoje? Morrerá amanhã? Deliciosa espectativa era esta. Havia um quê de sensualidade naquilo tudo.

O velho retornou dois dias depois de minha visita sorrateira aos seus aposentos. A partir de então, passei a evitá-lo. E, quando, casualmente, nos encontrávamos, eu o tratava com extrema cortesia. E com atenção devotada, quase subserviente. Não poderia despertar suspeitas, mínimas que fossem.

Duas semanas após a corrupção da ampola, o velho Hiena desceu aos infernos. Exultei, consciente de que havia cometido um crime perfeito. Uma obra-prima no extenso rosário de delitos jamais descobertos.

Compareci ao funeral, respirei com satisfação o aroma dos cravos-de-defunto, e protestei por segurar-lhe uma das alças do ataúde, no que fui prontamente atendido por meia dúzia de parentes entediados.

Foi no retorno do sepultamento que apareceram os primeiros sintomas. De meu nariz fluiu um sangue espesso, pegajoso como catarro, em golfadas tão caudalosas quanto perenes. O Hiena não era tão leve quanto eu supunha; assim, atribuí a estranha hemorragia ao inútil esforço que fizera ao sustentar-lhe o caixão de madeira de lei. Mas eu estava completamente equivocado. Quando veio o diagnóstico, eu já definhava:

– Contaminação por metal pesado. Lamento, senhor, mas não há o que a Medicina possa fazer.

Como era ladino o Hiena, a quem imaginei proporcionar um fim rápido e indolor! Como foi sagaz, pondo a chave do aprtamento praticamente em minhas mãos, instigando-me à incursão noturna. E como foi arguto ao simular uma viagem a Potier! Ele me atraiu à ratoeira, depois de examinar atentamente os meus hábitos. Não foi à toa que o velho deixou ao meu alcance o cravo fresco, ainda úmido, mas impregnado de humores cancerígenos... Não foi sem propósito que me atirou aos terrores de uma morte lenta, dolorosa e cruel.

Mas o que me consome e exaspera é saber, nos dias de hoje, que fracassei. Que minha argúcia fora o fio condutor da minha própria ruína. Eu não sou o ás. Sou um homem a quem a humilhação pesa mais que um sudário. Sim, o velho não padecia de mal crônico algum, nem dependia de remédios para sobreviver. Somente agora percebo o que era evidente. A geladeira e os medicamentos eram uma farsa. Pura mis em scene.

A morte do Hiena, para o meu horror, fora absolutamente natural...

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A Carta de Alberto Edwin

Por Luciano Barreto e Luiz Poleto

“Deverá, pois, quando for culpado numa destas coisas, confessar aquilo em que houver pecado.” – Levítico 5:5


Um homem caminhou até o confessionário e ajoelhou-se. O padre, do outro lado, fez o sinal da cruz e quis ouvi-lo.

— Olá padre. Meu nome é Ivan e quero lhe falar algo. Mas não é relativo somente a mim.

— Ora, filho. Fale o que lhe couber. E o restante a própria pessoa fala, se assim desejar. Ela está aí?

— Padre, por favor, ouça o que tenho a dizer.

— Pois não meu filho. – O pároco meneou a cabeça afirmativamente dentro do tribunal de penitência. Ivan criou coragem com um prolongado suspiro, fitou os olhos do religioso pelas quadrículas e começou a relatar.

— É incrível como podemos nos arrepender de atos cometidos, padre. Mesmo que seja um arrependimento coagido, por algo que foge à capacidade humana de conceber como real. – Ivan cessou sua fala por segundos, parecendo concentrar-se no que iria dizer. E assim o fez.

— Dizem que Alberto Edwin era louco. Não era! Fui seu melhor amigo e pude perceber que era um homem de extrema sensibilidade. Morreu há exatamente um mês. Ontem eu subi, pelas janelas do vizinho, um paredão que cerceava sua casa e vi dois tijolos. Alberto gostava muito de ficar naquele paredão, contemplando o horizonte. Era uma obra bem larga e alta, comparando-se com paredes tradicionais. Mede quase um metro de largura e ostenta mais de oito metros de altura. Ele era de família abastada, talvez o senhor o conhecesse. Um sujeito um tanto esquecido para a realidade, mas não era doido. Isso não. Era uma pessoa especial. E não era para viver nesta época. Tudo terminou quando ele escreveu isto. – O penitente revelou um papel aos olhos observadores do clérigo. — Seu último contato comigo. Embaixo dos tijolos estava esta carta. Eis o escrito. – Ivan passou a missiva ao homem que o escutava por fora do confessionário. — Leia em voz alta, por favor. – O padre abriu o documento, lançou um rápido olhar nas primeiras linhas e começou a ler.

Caro Ivan, o pessoal estava banhando-se na piscina. Mas o céu está plúmbeo. Trovões ribombam vez por outra. Em poucos segundos, todos se guarnecerão quando cair as primeiras gotas de chuva. Estou aqui em cima do paredão. Estou sentado olhando o horizonte. Vi uma fila de homens-cacto caminhando, macambúzios, o horizonte chuvoso. Vi seus semblantes espinhosos. Pareciam sofrer. Não pelos espinhos que são inerentes à sua natureza, mas por alguma situação que minha sensibilidade ainda não aventou causa.

Amigo, lembra-se do Ohuthir? Se não, o recordarei. É um guia. Um enviado para acompanhar certas pessoas ao mundo. Acho que você já está se lembrando. Ele está do meu lado agora! Está falando ao meu ouvido.

Ivan o interrompeu:

— O ser em questão, padre, era um que Edwin jurava que o acompanhava, cuidando para que morresse da pior forma possível. Isso ele me disse segurando meu ombro com extrema força, após descobrir a meta do ignóbil acompanhante do outro mundo. Apesar de eu nunca tê-lo visto e nem ele. Era apenas uma voz a qual se juntava a ele em alguns momentos. – Ivan agora parecia um tanto atemorizado, pois trespassava os dedos por entre as quadrículas, que o separava do homem de batina negra, e ostentava olhos arregalados. — Mas como relatei antes, ele era muito astuto e nunca se enganara nas confabulações maléficas de Ohuthir. Edwin tinha sede de vida! Apesar de conhecer o que e saber de suas intenções, Edwin nunca deixou o Ohuthir ir embora. Até criou um epíteto para ele: o esperto. Mesmo sabendo que estaria fadado à derrota nas mãos de meu amigo, o ser invisível também nunca o abandonou. Decerto cultivaram amizade. Se é que pode existir amizade entre um pretendente a carrasco e um possível condenado. Continue padre, continue! O interlocutor pigarreou e continuou. Ivan continuava com as mãos espraiadas e os dedos vazando os pequeninos quadrados do confessionário.

O esperto disse que hoje eu deveria viajar com ele. Imediatamente, indaguei se essa viagem era a morte. Ele negou. Mas como confiar nele? Eu gosto de sua companhia, no entanto não confio nele. Acho que tenho motivos para isso! Ele alegou viagem para abstrair meus pensamentos. Torná-los mais filosóficos.

Desta vez aceitei. Intui verdade em suas palavras. O esperto calou-se por segundos desconfiando de minha resposta. O Ohuthir é muito limitado. Não possui sensibilidade alguma. Se possuísse saberia que digo a verdade. Saberia que digo a verdade como ele a diz agora neste convite para passear pelo mundo. Um passeio sem sair deste paredão. Um passeio mental conduzido pela voz chirriada de uma entidade invisível. Ele pediu para eu colocar os óculos. Indaguei-o que óculos? Mas quando desviei o olhar para o lado direito, mesmo não o vendo, mas a voz vinha daquela direção, eu vi um par de óculos redondos e antigos. O objeto recebia as primeiras gotas d´água.
Vesti-os e nesse momento as coisas começaram a acontecer.Ventos principiaram perto de meus dois ouvidos e sibilaram estranhos sons. Eu parecia mover-me a uma velocidade nauseante. Mas pela visão periférica via que ainda estava no paredão, a receber a chuva caindo do céu plúmbeo. Contudo me concentrei no movimento que em poucos segundos tornou-se um vórtice nublado demais para meus olhos. Rapidamente cheguei a uma vila. Havia pessoas nanicas correndo por um descampado poeirento. Elas nutriam medo de alguma coisa. Tremiam sobre o chão seco daquele lugar. Ao que me consta pareciam japoneses. Então ouvi tiros. Vários tiros. A realidade era tamanha que tentei me proteger. Um exército brotou das matas secas. Uma investida apavorante. Exterminou aquela multidão um tanto nanica e avançou pela planície. Eu não sofrera nenhum arranhão.

Após a hecatombe, senti algo atrapalhando minha visão. Pisquei os olhos e estava, outra vez, a encarar o vórtice brumoso. Clarifiquei minha visão numa praça antiga. Homens ostentando chapéus de couro. Uns sobre cavalos e outros a pé. Algumas mulheres trajando enormes saias sobre bisonhas armações. Modelos bem antigos. Escutei um alarido num coreto. As pessoas gritavam enfurecidas. No cavalgar dos eqüinos e nos passos apressados das pessoas sobreveio uma poeira do chão. Havia um cadafalso. Três homens estavam sobre o coreto. Dois encapuzados e um outro, de barba hirsuta, que parecia comandar os trabalhos. Quando o barbudo fez um movimento decidido com as mãos, espalmando-as para o ar. Um dos encapuzados puxou violentamente uma ripa de madeira e o outro afundou num vão que surgiu a partir do movimento. O homem desceu no buraco até a cintura. Ficou preso por grossa corda através do pescoço. Para o deleite dos presentes, seu corpo balançou já cadáver. O verdugo tirou o capuz e, com horror em minha mente já bastante tresandada por aquela viagem inoportuna, vi que o homem o qual executava o condenado não tinha cabeça. Apenas um tétrico e imbecil pescoço que não terminava em nada. Os outros ao redor pareciam não reparar aterrador detalhe.

Ouvi a palavra “vamos” e o redemoinho reiniciou a frente de meus olhos adriçando poeira do solo. Eu senti meu corpo leve. Em vão, tentava esbofetear as nuvens que atrapalhavam minha visão e quando vi, esbofeteava areia grossa e quente. Parei os movimentos, pois ouvi gritos. Olhei o horizonte, os homens-cacto ainda caminhavam tristonhos sobre areia fofa. Eu estava num deserto. Meus olhos viram e minhas mãos gelaram mesmo sob o forte sol daquele lugar. Uma menina, que mais parecia um animal, com enorme língua bífida cuspia uma substância esbranquiçada sobre um homem de meia-idade. Ele retrocedia a cada investida. Quando escutei os gritos horrendos dela também eu retrocedi. Falava em vários idiomas frases que não soube detalhar. Mas que, garanto, não eram aprazíveis. O sol ardia meu corpo. Eles não me viram. Mas eu os via muito bem. E também via, assistindo a cena sobrenatural, outro homem. Um homem gordo e peludo. Ele me viu, mas nada gesticulou nem falou. Nisto a areia começou a levantar-se sob meus pés e fiquei dentro de um tipo de tempestade de areia. Então novo vórtice começou. Era outra viagem a algum lugar.

Agora tinha parado numa estrada. Parecia bastante com os dias atuais. E creio que era. No máximo ano passado ou ano que vem. Nevava demais. Era um posto de gasolina. Eu estava perto da bomba de abastecimento quando apenas vi, e não li, frases escritas numa outra língua, parecia usar letras do alfabeto cirílico. Desviei a atenção para um motociclista que e pedia para o frentista velho e magro completar o tanque da moto. O funcionário preparava a bomba de combustível, no entanto aproximou-se um carro preto. Parou ao lado da moto e um homem magro apontou uma enorme pistola cromada para o motociclista. Este somente levantou as mãos. Ouvi dez ou onze tiros. Depois o carro arrancou e sumiu na estrada. O frentista havia se escondido atrás de uma das bombas. Eu me escondi atrás de um mourão que sustentava a cobertura. O homem da moto agonizou duas vezes e morreu com a mão esticada. Ele apontava para o carro que sumia no horizonte. Horizonte este que me mostrou, outra vez, os homens-cacto a percorrem no crepúsculo cândido os contornos horizontais. E a imagem do homem caído e do frentista tentando ajudá-lo girou nos meus olhos. Era outro redemoinho do tempo.

O esperto havia me levado de volta ao paredão ao lado de minha casa. Retirei os óculos e olhei a chuva tamborilando a água da piscina.

Ivan, pensei nos problemas que o mundo tem. Pensei na maldade do homem. Pensei na maldade das coisas sobrenaturais. Enfim nada me agrada neste mundo. Vou pular do paredão. A voz do Ohuthir pediu para eu tomar remédios. Ele além de meu amigo, deseja morte tranqüila para mim agora. Quer que eu morra sem muita dor. Pediu para tomar remédio para dormir e em seguida ingerir veneno de efeito tardio. Disse que eu estaria dormindo quando morresse. Não quero. Quero sair deste corpo agora. Quero saber o que pode vir para mim de melhor. Ou quero tentar tudo de novo com outras idéias. Minhas atuais idéias não servem para este mundo. Daqui de cima posso mergulhar na piscina. E se o fizer tenho chance de viver. Afinal ela é funda. A mãe, o pai e a Ana gostam de nadar e não têm medo da profundidade. Mas meu mergulho será no chão. Cabeça dura no chão duro não é mal, não é?Estou indo amigo. Pensando melhor não sou tão cabeça dura assim, pois queria muito viver e agora quero morrer. Cabeça dura ou não, vou pular. Esta carta vai ficar aqui no paredão onde meus pais não conseguem chegar e a Ana tem medo de escalar as janelas do vizinho para subir. Sei que você vai subir e pegar a carta. De alguma forma você vai subir no paredão quando tudo se acalmar. Depois de meu enterro, bem depois será o melhor momento. Mostre esta carta a um padre e peça para ele orar por minha alma. E peça perdão por mim. Não a mostre a ninguém de minha família. E se alguém perguntar a você que era meu único amigo diga que não cometi suicídio. Diga que escorreguei do paredão. Não macule minha imagem. Não quero ser lembrado como suicida!

O padre suspirou profundamente e estalou a língua nos dentes em desaprovação à atitude do jovem. Depois garantiu ao outro.

— Vou orar pela alma de Alberto. – Ivan estava de cabeça baixa, mas as mãos ainda presas na divisão do confessionário. Para o transtorno espiritual do padre, ele confessou:

— Padre, quero confidenciar que empurrei Alberto do paredão. Escrevi esta mentirosa carta e toda esta estória é uma farsa. Eu o matei. Planejava contar a mentira e depois revelar a verdade ao senhor, pois há algo pior e o senhor precisava saber os detalhes de minha mentira. – Ivan agora com as mãos encravadas na divisória do confessionário. Estava irrequieto. Algo o aterrorizava.

— Deus do céu. O que pode ser pior que isso? – Balbuciou o sacerdote, após colocar a mão trêmula na testa. Subitamente, o homicida falou desesperado:

— Vou contar tudo! - O padre o interpelou ante o inusitado grito.

— Meu filho, acalme-se. Ainda há algo que eu deva saber? – Perguntou o outro em tom apaziguador.

Ele fitou os olhos do pároco, os dedos já vertendo sangue pelas quadrículas, e rogou com assombro:
— Ore pela minha alma, também. Por isso vim aqui. A mentira tornou-se realidade! Há dois dias, uma voz, num tom perturbador, vive a me atormentar sussurrando destinos tétricos para minha vida. – O padre arrepiou-se ao ouvir aquela frase. O penitente, ainda exasperado, citou que homens-cacto o espreitam das profundezas de qualquer escuridão onde ele estivesse perto. Talvez o sacerdote, antes de saber o motivo que o impelira a se confessar, fosse dizer que o sincero arrependimento poderia salvá-lo, entretanto, com uma voz que de serena passou a assumir um tom tétrico, disse:
— Acalme-se, meu filho. Talvez seja a hora de fazermos uma pequena viagem.
Ao ouvir estas palavras, Ivan desequilibrou-se e caiu sentado ao chão, lançando um olhar assustado e com desespero visível em direção à pequena cabine que outrora encontrava-se o padre.
— Esta voz, não é possível…
Antes que pudesse terminar de proferir sua frase, o padre caminhou em direção a Ivan, que não pode conter um gemido de espanto ao ver que não havia ali nenhum padre. O que estava parado de pé a sua frente era a figura que assolava seus sonhos, um homem-cacto, imponente em suas formas assustadoras. Ivan levantou-se e correu em direção à saída da igreja, ainda sem acreditar na visão que o assolava. Ao abrir a porta, uma nova onda de terror invadiu seu corpo: a pequena rua que o levara até a igreja não mais estava ali. Em seu lugar, um imenso descampado, com o horizonte a perder de vista, banhado por um céu vermelho que refletia sua dura cor por todos aqueles parsecs de distância.
— Não há saída, Ivan. Volte e venha comigo.
Mas Ivan não pretendia juntar-se ao homem-cacto. Deu o primeiro passo, mas recuou, jogando o corpo para trás e caindo sentado na porta da igreja. Logo abaixo dos três pequenos degraus, Ivan pôde ver que não havia chão. Um imenso abismo, tomado por uma escuridão que parecia viva, extendia-se a perder de vista. Olhando mais atentamente, Ivan viu cabeças sem rosto, mãos, braços, olhos que expressavam agonia e sofrimento, todos movendo-se aleatoriamente e criando uma dança infernal que por um momento ofuscou sua vista.
Com medo, à medida que a criatura aproximava-se dele, Ivan chorou; não havia saída. Foi agarrado pelo homem-cacto, e sentiu sua carne perfurada pela enorme quantidade de espinhos que saíam de seu corpo, e, sentindo o sangue escorrer, foi arremessado ao abismo, junto com a criatura.
E fez-se a escuridão.
Quando abriu os olhos, Ivan ainda estava em queda livre, o que fez com que seu estômago virasse do avesso. Agarrado ao seu corpo, ainda estava o homem-cacto; que emitia sons guturais do que parecia ser sua boca. Ao seu lado, milhares de braços e mãos tentavam desesperadamente agarrá-lo, sem sucesso. E novamente, Ivan desmaiou.

Acordou sobre um monte de terra, escura e com um odor pútrido, parecia que havia caído sobre uma centena de corpos em estado avançado de decomposição. Quando seu estômago voltou ao lugar e sua cabeça parou de rodar, Ivan olhou ao redor, e estava no que parecia ser uma pequena ilhota, perdida em meio a um imenso oceano de sangue. Em um ponto distante, percebeu que havia o que parecia ser um corpo caído, totalmente inerte; não havia nenhum sinal do homem-cacto. Cautelosamente, Ivan aproximou-se do corpo, que estava em avançado estado de decomposição, e ficou ali, fitando-o. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando reconheceu aquele que ali jazia: Alberto Edwin. Suas pernas cambalearam, e sua força o abandonou por um momento. Sem poder evitar, caiu sentado.
Novamente, Ivan despertou do que parecia ser o seu pior pesadelo, e voltou a fitar o corpo de Alberto. Não conseguia formular qualquer teoria em sua cabeça sobre o que havia acontecido. “Estaria eu no fundo do paredão?”, pensou.
— Sim, Ivan, estamos no fundo do paredão. É aqui que passado e presente se encontram; vida e morte chocam-se em uma explosão cósmica.
Ivan deu um pulo, coração acelerado e respiração intensa. Olhou para o corpo de Alberto, e eis que este estava de pé à sua frente, encarando-o, embora seus olhos já tivessem sido comidos há tempos.
— Alberto? Mas como? O que está acontecendo? — Perguntou, intrigado e ainda tomado pelo pavor.
— Não percebe? Você nos matou quando pulou do paredão. A sua tentativa desesperada de livrar-se do Esperto culminou com a nossa morte.
— Nossa morte? Não entendo. Eu empurrei você! — Ivan estava agora mais curioso do que nunca.
— Não Ivan, você, nos empurrou. Eu sou você, sempre fui parte de sua mente. — Alberto pronunciava estas palavras da forma mais tranquila do mundo.
— Não é possível! Eu empurrei você para que parasse de sofrer com o Esperto. — Ivan estava agora aos berros.
— Sim, Ivan, tem razão. Você me empurrou, e ao fazê-lo, empurrou também a si mesmo, e ao Esperto. Somos todos frutos de sua mente doentia.
— Não! Não é verdade! E vou provar matando-o mais uma vez.
Ivan correu para cima do cadáver de Alberto, arremessando-o naquele mar impuro. Ao longe, habitando pequenas ilhotas, homens-cacto observavam calmamente, como se estivessem esperando pelo momento certo.

O corpo de Alberto boiou por um momento, para depois dirigir-se às profundezas daquele mar cor de sangue. E, por um momento, Ivan sentiu uma certa leveza em seu interior, como se houvesse livrado-se de algum peso que há muito o atormentava. E o esperto, que antes o atormentava, também havia calado-se. Mas os homens-cacto, que antes espreitavam, agora dirigiam-se para cima de Ivan, como se estivessem flutuando sobre a água. Desesperado, Ivan tentou correr, mas a ilha não era grande o suficiente. Desesperado, começou a gritar, um grito histérico, amedrontado; e os homens-cacto chegaram mais perto, começando a furá-lo com seus imensos espinhos. O sangue já escorria por todo o seu corpo quando perdeu os sentidos, e desmaiou.

Quando acordou, Ivan estava deitado em uma cama, vestido com roupas de hospital; ao seu lado, um homem o encarava de forma curiosa e ao mesmo tempo espantada.
— Andou se auto-flagelando novamente, Ivan? — Perguntou o homem, que parecia ser um médico.
— Não senhor — respondeu Iva, com a voz cansada.
— Então por que os incontáveis furos em seu corpo?
— Foram os homens-cacto, senhor. Os que acabei de lhe contar; os mesmos que assolavam meu amigo Alberto. Acabei de relatar a carta que ele me deixou. O senhor não se lembra?
— Novamente o Alberto, Ivan? E novamente esta estória de homens-cacto? — O médico mostrava um claro ar de desagrado ao ouvir a resposta de Ivan. Virou-se para um enfermeiro e fez um sinal com a cabeça, provavelmente indicando que deveriam sedá-lo mais uma vez.
Amarrado na cama, Ivan só conseguia gritar, em desespero, pedindo para não ser sedado. Sabia que, se isso acontecesse, teria que enfrentar os homens-cacto novamente, e teria que encontrar o corpo em decomposição de Alberto, e estaria perdido naquele mar de sangue e podridão. Mas ele estava fortemente amarrado àquela cama, e nada pôde fazer quando, rapidamente, o enfermeiro o sedou.