sexta-feira, abril 17, 2009

O Escolhido




Estou meio sem material para postar por isso posto algo meu mesmo rs


Por Linx


“Quem tiver sabedoria que calcule o número da besta, pois é um numero de homem e seu numero e seiscentos e sessenta e seis”
Apocalipse de São João

— Cinco minutos...
L. olhava no relógio sem parar, estava extremamente ansioso. Suas pernas mal paravam no lugar e ele começava a suar.
Seis meses, era o que ele havia esperado, seis longos meses para que ela aceitasse sair com ele, mas agora ele estava lá, com sua melhor roupa, segurando um CD que ela disse ser de sua banda favorita (que por sinal ele odiava - mas passou a tentar gostar) na frente daquele shopping a esperando.
Seus olhos corriam todos os rostos que passavam, procurando o rosto de sua amada. Aquele rosto...
Devia ser o rosto mais lindo que ele havia posto os olhos. Parecia de um anjo, esculpido pelas mãos do próprio Deus. Aquele rosto que fez ele se apaixonar perdidamente desde a primeira vez que o viu. Agora ele o procurava no meio da multidão, já meio que desesperado pois via em seu relógio que ela devia estar ali já faziam dez minutos.
— Ela deve ter desistido... não! Pare de ser pessimista! Ela virá. Afinal coisas acontecem, ônibus quebram, essas coisas...
Mas algo no fundo dizia que ela não viria. Bem lá no fundo ele sabia que aquilo tinha sido uma idiotice, afinal porque ela viria? Porque ela iria se encontrar com ele? Tantos porque ela escolheria justamente ele?
— Não passo de um idiota...
Seus pensamentos otimistas logo começaram a sumir de vez quando ele se voltou ao relógio e viu que já passaram meia hora do combinado.
— Melhor eu ir... não quero ficar aqui como idiota.
L. se virou e seguiu a passos longos e olhos já quase cheios de lagrimas nos olhos a direção de sua casa.
— L.!
Seus olhos se voltaram a uma voz que gritou seu nome atrás dele. Seu coração quase que arrebentou seu esterno quando ele viu ela ali parada vestindo uma blusa rosa e uma calça jeans, com um lindo sorriso
— Onde você vai?
— Eu...
— Tava indo embora? Ia me abandonar? Disse ela sorrindo
— Não...eu só achei que...
Ela correu de onde estava e seguiu em sua direção.
— Desculpa o atraso. Disse ela coçando a cabeça. Eu me perdi!
— Tudo bem. Disse ele limpando seu rosto
— Então... Oi! Disse ela espontaneamente sorrindo
— Oi. Disse ele esboçando um sorriso tímido
— Bem, que tal irmos ao shopping. Aqui é chato
— É...
Suas mãos se encontraram. O coração dele batia acelerado, suas mãos suavam, era como um sonho. Ela olhava ao longe, como que procurasse alguma coisa, e nos seus lábios um sorriso quase que sarcástico começava a brotar.
— Seu otário! Disse ele dando um soco em L.
Todos a sua volta riam, inclusive D., a garota que ele tanto amava.
— Achou realmente que a D. ia sair com você seu otário?
Seus olhos se enchiam de lagrimas. Como ela pode?
— Vamos ensinar ele H., vamos por esse idiota no lugar dele
— É boa idéia. Disse um outro
— Mas... D. começou a dizer algo. Não machuquem muito
Todos deram uma longa gargalhada.
— Não se preocupe. Disse um deles beijando D. Só uns socos nada mais
— Ah tudo bem então. Disse ela sorrindo. Amorzinho é só brincadeirinha
Os quatro chegaram mais perto de L. Um deles o empurrou o fazendo cair no chão, enquanto os outros começaram a chuta-lo
— Parem pelo amor de Deus. Disse L. chorando
— Ah ele começou a chorar. Disse um deles, despertando uma gargalhada geral
— Ah amor não se preocupe, quando eles acabarem ele lhe dou seu tão sonhado beijinho. Disse D. que observava tudo
— Não parem... por favor
Os chutes voltaram, dessa vez com mais intensidade. L. chorava e gritava por piedade e com isso os garotos apenas aumentava a força do chute.
— Cansei. Disse um deles.
— Será que ele aprendeu onde é o lugar dele?
— Vamos ver. Disse um deles levantando a cabeça de L. do chão. Aprendeu otário? Lugar de gente como você é ai, no chão, em baixo de nós.
O garoto soltou sua cabeça e a deixou cair no chão com força.
— Thau amorzinho. Disse ela dando-lhe um beijo no rosto
— Vamos logo D.
— Já vou. Thau. Disse ela baixo no seu ouvido
— Me dá um beijo aqui gata
“Vai agüentar isso também? Você sabe que pode fazer. Faça-o
— Não...
“Olhe eles indo. Olhe a menina que te fez isso. Olhe! Beijando o cara que te deixou ai esticado no chão. A menina que você dedicou tanto o seu amor, olhe ela ali. Vamos lá fora curtir um pouco...”
— Cale-se!
— Com quem ele ta falando. Disse um deles voltando seu olhar a L. esticado no chão
— Deve ta xingando a gente né
— Se for... vamos lá
Os cinco começaram a voltar na direção de L., que começava a se levantar.
“Eles estão vindo. Vai deixar eles fazerem aquilo tudo de novo?”
Um sorriso leve brotou do rosto de L. Sua fisionomia começou a mudar, de um rosto sofrido a um rosto sádico
— Você ta rindo?
— Acho que aquilo foi só piada pra ele
— Bem vamos mostrar então algo pra fazer ele chorar
Um deles tentou empurrar L. mas suas mãos pararam na frente do peito de L.
— Com mais força. Disse ele com uma voz grossa e fria
Os três se afastaram e o que o empurrava parou na sua frente.
— O que...
— Conhecem o inferno?
— O que ele tá falando? Disse D. já desesperada
— Deve ter batido a cabeça demais. Sai da frente
H. correu de onde estava e empurrou seu amigo para trás.
— Vamos nós dois.
— Nós dois? É muito pouco
L. começou a proferir algumas palavras que H. não conseguia entender. O vento começou a soprar com força, enquanto alguns ruídos eram ouvidos de longe. Nas suas mãos e testas começavam a surgir algo que parecia ser fogo que logo sumiu deixando apenas os números 666 tatuados no lugar
— O que é isso? Disse H. se afastando
— Venham meus queridos
Do meio da escuridão surgiram cerca de oito cães. Eram cachorros maiores do que o normal e não tinha pelos, apenas feridas por todo corpo. De suas bocas babavam algo que parecia ser sangue e nas suas patas algo que parecia barro seco.
— Meu Deus!
— Ataquem
Todos correram desesperados. Os cães de onde estavam como que dando pulos saíram atrás de todos.
— Deus! Me solta!
Os cães comiam rapidamente aqueles garotos. Suas carnes eram dilaceradas pelos seus dentes afiados em meio a seus gritos de dor e desespero. O sangue jorrava por todo o chão. Mas D. ainda permanecia intacta, olhando tudo, imóvel deitada no chão
— Queria apreciar bem de perto.
— Quem é você?
— Eu? Eu era. E você também
L. fez um sinal fazendo com que os cães abandonassem suas carcaças já quase nos ossos e viessem ao lado de L.
— Bem devagar...
Os cães saíram do lado dele e começaram a morder o corpo de D.
— Pare pelo amor de Deus. Disse ela gritando, com seu rosto já todo escorrido de lagrimas
— Deus? Que Deus? Disse ele sorrindo
— Não! Não! Não... seu corpo perdeu suas forças e a dor a fez desmaiar
Os cães a mordiam com toda força arrancando agora pedaços de seu corpo. Um deles então levou até as mãos de L. sua cabeça
— Realmente você era linda
— Pelo jeito você aceitou seu destino. Disse um homem colocando a mão em seu ombro
— Sim. Cansei de ver esses ai me humilhando. Disse ele chutando os pedaços dos corpos. Alias cansei de todos, acho que vou mandar mais uns hoje para você Lúcifer
— Seria muito bom meu caro
Os dois se viraram deixando aqueles cães terminarem de comer o resto de carne que ainda continham nos ossos. Agora que o escolhido havia entendido seu propósito na terra, eles tinham uma longa noite pela frente.


PS 1: Caso você tenha alguma material e queria contribuir ao blog, ficarei feliz em postar. O blog ainda segue a filosofia da Irmandade e por isso é livre a postagem de material a todos (ou seja você manda, eu posto e o público julga - aqui não há senhores da verdade que julgam o que é bom ou não e espero que não existam nunca por aqui). Pra quebrar um galho, caso você tenha um endereço, eu faço um merchã básico e o deixo nos recomendados rs (pode mandar o link sem material que eu o deixo nos recomendados mesmo assim rs)


PS 2: O contador aparece para vocês ? rs. Acho que ele está com defeito rs


PS 3: Obrigado a todos que passarão e que passarem no blog e em especial aos seguidores do blog


PS 4: O que vocês acham da proposta da Irmandade? (Sim penso em reabri-la um dia, só preciso de gente que abrace a causa)

domingo, abril 12, 2009

Reformulações

Cerca de dois anos e meio atrás um grupo de escritores de terror de um site de literatura da internet fundaram um grupo literário chamado Irmandade das Sombras, uma confrária literária que tinha a idéia de agregar escritores tidos como "sombrios". O espaço era livre, sem líderes ou qualquer tipo de hierarquia, todos eram bem vindos, desde que respeitassem o estilo e os outros membros e todos tinham voz e vez.

Cerca de oito dias depois esse espaço foi fundado com a idéia de ser um blog comum, tão livre quando nossa confraria, onde postariamos (e postamos sim!) material de todos ou que fosse de interesse comum.

Mas os anos passaram e nosso idela foi se perdendo, se deturpando, até chegar no fim de nossa Irmandade. A maioria (alias acho que todos com excessão do que vos fala rs) não estava satisfeita com o a Irmandade do jeito que era, queriam algo além, algo mais "profissional". Houveram brigas, desentendimentos e enfim acabou.

Fiquei um tempo fora do mundo virtual e fora do mundo literário, mas logo voltei e tentei novamente levantar a Irmandade, mas logo vi-me sem apoio e por algum tempo lutei, mas hoje venho aqui dizer que a Irmandade entra num Stand By sem previsão de volta.

Manterei o blog sim, postarei quando puder e estou de braços abertos a contribuições e dicas, pois querendo ou não esse espaço existe e é bem visitado, então não há motivo para sua destruição.

Também manterei meu sonho de uma confraria literária livre a todos, sem hierarquias ou disputas por poder, uma irmandade para todos como a Irmandade das Sombras sempre foi.

Enfim, encerro por aqui e espero que aos que passem me entendam e caso queiram, meu contanto está no blog e enfim estamos ai rs.

Agradeço a todos que visitam o blog, aos seguidores (Átila, Filipinha, Mário e D., não conheço vocês, mas obrigado! rs) e a todos que pertenceram a Irmandade que por mais que esteja afastado ainda considero vocês grandes pessoas e escritores!

Abraços!

Linx

sábado, abril 04, 2009

Do Além




Ainda na luta de manter o sonho da nossa Irmandade voltar a vida, tento ainda manter vivo o nosso blog. Hoje posto um conto do mestre Lovecraft, um dos meus favoritos e que inspirou um dos melhores Sci Fi de todos os tempos


Por H. P. Lovecraft


Horrível, para além de qualquer concepção, foi a mudança por que passou meu melhor
amigo, Crawford Tillinghast. Eu não o vira desde aquele dia, dois meses e meio antes,
quando ele me falou da meta em direção à qual suas pesquisas físicas e metafísicas se
encaminhavam e quando respondeu à minha demonstração de espanto e medo expulsando-me de seu laboratório e de sua casa num estouro de raiva fanática. Eu sabia que ele agora passava a maior parte do tempo fechado em seu laboratório no sótão com aquela maldita máquina elétrica, comendo pouco e afastado até dos próprios criados, mas não pensara que um período tão breve de dez semanas pusesse alterar e desfigurar de tal maneira uma criatura humana. Não há prazer em ver um homem garboso tornar-se magro de repente, e é pior ainda quando a pele flácida começa a amarelar ou a acinzentar, os olhos fundos, esgazeados, brilhando de modo sobrenatural, a testa enrugada e coberta de veias, e as mãos trêmulas e contorcidas. E se, adicionado a isso, houver um desalinho repulsivo, uma desordem louca do vestir, moitas de cabelos escuros esbranquiçados na raiz, e uma sombra de barba não aparada sobre um queixo que sempre fora cuidadosamente barbeado, o efeito cumulativo será chocante. Mas esse era o
aspecto de Crawford Tillinghast na noite em que sua mensagem pouco coerente me trouxe até sua porta depois de semanas de exílio. Tal era o espectro que tremia enquanto me fazia entrar, uma vela na mão, a olhar furtivamente por sobre o ombro, como se receoso de coisas invisíveis na casa antiga e solitária, situada ao fundo da Benevolent Street.
Para Crawford Tillinghast, ter um dia estudado ciência ou filosofia fora um erro. São
coisas que deveriam ser deixadas para o investigador impessoal e frio, pois oferecem duas alternativas igualmente trágicas ao homem de sentimento e ação: desespero, se fracassa em sua busca, e terrores indizíveis e inimagináveis, se obtém sucesso. Tillinghast fora presa uma vez do fracasso, da reclusão e da melancolia; mas agora eu sabia, entre receios repelentes de minha parte, que ele era presa do sucesso. De fato, eu o tinha alertado, duas semanas antes, quando aventou, num ímpeto, a história do que estava prestes a descobrir. Tornara-se vermelho e excitado, falando num tom de voz muito alto e antinatural, embora sempre pedante. “O que sabemos”, ele dissera, “sobre o mundo e o universo ao nosso redor? Nossos meios de receber impressões são absurdamente escassos, e nossas noções dos objetos que nos cercam são infinitamente estreitas. Vemos as coisas somente na medida em que somos construídos para vê-las e não podemos fazer idéia alguma de sua natureza absoluta. Com cinco débeis sentidos, queremos compreender o cosmos ilimitadamente complexo, enquanto outros seres, com uma gama de sentidos diferente, mais ampla ou mais possante, não apenas poderiam ver de modo diferente as coisas que vemos, como também ver e estudar mundos inteiros de matéria, energia e vida que jazem próximos de nós, mas que não podem ser detectados com os sentidos que temos.
Sempre acreditei que tais mundos estranhos e inacessíveis existem colados aos nossos cotovelos, e agora creio que encontrei um modo de romper as barreiras. Não estou blefando. Dentro de vinte e quatro horas aquela máquina sobre a mesa gerará ondas que agirão sobre órgãos ignorados de sentidos que existem em nós como vestígios atrofiados ou rudimentares. Essas ondas abrirão para nós inúmeros panoramas desconhecidos do homem e muitos desconhecidos de qualquer coisa que consideramos como vida orgânica. Haveremos de ver aquilo para o qual os cachorros uivam na escuridão, aquilo para o qual os gatos levantam suas orelhas após a meia noite. Veremos essas coisas e outras coisas que nenhuma criatura que respira jamais viu. Vamos saltar sobre o tempo, o espaço e as dimensões e, sem mover nossos corpos, espiar o fundo dacriação.”
Quando Tillinghast disse essas coisas, não disfarcei, pois conhecia-o bem o suficiente para ter muito mais receio do que admiração; mas ele era um fanático e expulsou-me da casa. Agora ele não era menos fanático, mas seu desejo de falar sobrepujara o ressentimento, e ele me escrevera num tom imperativo, com uma caligrafia quase ilegível. Quando penetrei na casa desse amigo tão subitamente metamorfoseado numa gárgula vacilante, infectou-me o terror que parecia espreitar em meio a todas as sombras. Era como se as palavras e crenças expressas dez semanas antes se encarnassem na escuridão que cercava o pequeno círculo de luz da vela, e
senti-me mal diante da voz oca e alterada de meu anfitrião. Desejei que os criados estivessem por perto e não gostei quando ele disse que todos tinham deixado a casa havia três dias. Pereceu estranho que o velho Gregory, ao menos, pudesse desertar de seu senhor sem dizer isso a um amigo tão próximo como eu. Era ele que me dava toda a informação que tive sobre Tillinghast depois que, furioso, este me expulsou.
No entanto, logo obriguei meus medos a se subordinarem à minha curiosidade e
fascinação. O que é que Crawford Tillinghast queria de mim agora eu podia até conjeturar, mas de que ele tinha algum segredo ou descoberta estupenda para revelar, disso eu não duvidava.
Antes eu protestara contra sua perquirição indiscreta do impensável, e agora que ele
evidentemente tivera algum tipo de sucesso eu quase compartilhava seu espírito, por mais terrível que pudesse ser o custo da vitória. Seguindo a luz vacilante da vela que a mão daquela paródia trêmula de homem segurava, subi em direção à escuridão vazia da casa. A eletricidade parecia ter sido desligada, e quando perguntei ao meu guia ele disse que era por um motivo definido.
“Seria demais… Eu não ousaria”, ele continuava a murmurar. Notei em especial esse seu
novo hábito de murmurar, pois não era do seu feitio falar sozinho. Entramos no laboratório no sótão, e observei aquela detestável máquina elétrica a cintilar com uma luminosidade doentia, sinistra, violeta. Estava conectada a uma potente bateria química, mas não parecia receber corrente, pois eu me lembrava de que em seu estágio experimental ela tinha roncado e ciciado quando posta em ação. Em resposta à minha pergunta, Tillinghast sussurrou que esse brilho permanente não era elétrico em nenhum sentido que eu pudesse entender. Ele me fez sentar próximo à máquina, de modo que ela ficou à minha direita, e acionou um comutador que ficava por baixo de uma profusão de bulbos de vidro. Os estralejos usuais começaram, tornaram-se um gemido, e terminaram num rumor monótono e tão suave que dava impressão de retornarem ao silêncio. Entrementes a luminosidade aumentou, diminuiu, até assumir uma tonalidade pálida e inusitada ou uma mistura de cores que eu não poderia situar ou descrever. Tillinghast tinha estado a me observar, notando minha expressão de perplexidade.
“Sabe o que é isso?”, murmurou, “Isso é ultravioleta”. E gargalhou ao ver a minha
surpresa. “Pensou que o ultravioleta era invisível, e é – mas você pode vê-lo e a muitas outras coisas agora. Ouça-me! As ondas dessa coisa estão despertando em você mil sentidos adormecidos – sentidos que você herdou de éons de evolução, desde o estado dos elétrons errantes até o estado da humanidade orgânica. Eu vi a verdade, e pretendo mostrá-la a você. Faz idéia de como ela se parece? Vou dizê-lo a você.” Aqui, Tillinghast se sentou também, de frente para mim, segurando sua vela e olhando-me perversamente nos olhos. “Seus órgãos sensórios existentes – ouvidos primeiro, suponho – captarão muitas das impressões, pois estão intimamente conectados com os órgãos adormecidos. Então haverá outros. Já ouviu falar da glândula pineal? Rio-me dos ingênuos endocrinologistas, pretensiosos e comparsas iludidos dos freudianos. Essa glândula é o órgão sensório por excelência – eu o descobri. É como uma visão,
afinal, e transmite imagens visuais ao cérebro. Se você é normal, esse será o modo como você obterá a maior parte... Refiro-me à maior parte da evidência do além.”
Olhei em volta o imenso sótão com a parede alta ao sul, obscuramente iluminada por raios que os olhos cotidianos não poderiam ver. Os cantos mais distantes eram pura sombra, e o lugar inteiro mergulhava numa irrealidade nevoenta que obscurecia sua natureza e convidava a imaginação ao simbolismo e à fantasmagoria. Durante o longo intervalo em que Tillingthast permaneceu em silêncio, tive um devaneio de estar num incrível e vasto templo de deuses há muito desaparecidos, num edifício vago de inúmeras colunas de pedra negra que se elevavam de um piso de lajes úmidas até alturas de nuvens que ficavam para além da minha visão. A imagem me pareceu bastante vívida por algum tempo, mas gradualmente deu lugar a uma concepção mais horrível – aquela da solidão extrema e absoluta do espaço infinito, inescrutável e silencioso. Parecia haver um vazio e nada mais, e senti um medo infantil que me fez sacar do
bolso junto ao peito um revólver que passei a carregar desde que fora assaltado em East Providence. Então, das mais distantes regiões do remoto, o som deslizou suavemente para dentro da existência. Era infinitamente débil, sutilmente vibrante, e inequivocamente musical, mas continha um não sei quê de indizivelmente selvagem que fazia com que o seu impacto parecesse uma tortura delicada de todo o meu corpo. Vieram-me sensações que eram como se alguém pisasse vidro moído no chão. Simultaneamente, desenvolveu-se alguma coisa como um sopro frio, que aparentemente passava por mim vindo do som distante. Enquanto, sem fôlego, aguardava, percebi que tanto o som quanto o vento estavam aumentando, o efeito assemelhandose ao de ter sido atado a um par de trilhos no caminho de uma gigantesca locomotiva que se
aproximasse. Comecei a falar a Tillinghast e, quando o fiz, todas as impressões incomuns se desvaneceram abruptamente. Vi apenas o homem, as máquinas cintilantes e o cômodo penumbroso. Tillinghast ria de um jeito repulsivo para o revólver que eu sacara quase inconscientemente, mas pela sua impressão compreendi que ele tinha visto e ouvido tanto quanto eu, se não muito mais. Murmurei o que eu tinha experimentado, e ele me instruiu para que permanecesse o mais quieto e receptivo possível.
“Não se mova”, advertiu, “pois nesses raios tanto podemos ver quanto ser vistos. Eu lhe disse que os servos foram embora, mas não lhe disse como. Foi aquela governanta de cabeça dura; ela acendeu as luzes no térreo depois que eu avisei para não fazer isso, e os arames captaram vibrações empáticas. Deve ter sido amedrontador – pude ouvir os gritos daqui de cima, a despeito de tudo o que via e ouvia vindo de outra direção, e mais tarde foi pavoroso encontraraqueles montes vazios de roupas por toda a casa. As roupas da senhora Updike estavampróximas do comutador de luz da sala – eis como eu soube que ela o fizera. Pegou-os a todos. Mas, desde que não nos movamos, estamos razoavelmente seguros. Lembre-se de que estamos lidando com um mundo medonho no qual somos praticamente indefesos... Fique quieto!” O choque combinado da revelação e da intimação abrupta deu-me um tipo de paralisia, e
no terror minha mente se abriu de novo para as impressões que vinham do que Tillinghast chamou de “além”. Um vórtice de som e movimento me envolvia agora, imagens confusas surgindo diante de meus olhos. Eu via os contornos imprecisos do cômodo, mas de algum ponto do espaço parecia jorrar uma coluna fervilhante de formas irreconhecíveis ou de nuvens, penetrando no teto sólido num ponto adiante, à minha direita. Então vislumbrei o templo – como efeito novamente, mas desta vez os pilares subiam em direção a um oceano aéreo de luz, o qual despejava um raio de luz ofuscante por todo o caminho da coluna de nuvens que eu vira antes. Depois disso, a cena tornou-se quase inteiramente caleidoscópica, e na profusão de visões, sons e
impressões sensoriais não identificadas, senti que estava prestes a me dissolver ou, de algum modo, a perder a forma sólida. De um determinado lance eu hei de me lembrar para sempre. Pareceu-me ter visto, por um instante, uma nesga de estranho céu noturno repleto de esferas cintilantes e rodopiantes, e quando desapareceu vi que os sóis brilhantes formavam uma constelação ou galáxia de forma definida, sendo essa forma o rosto distorcido de Crawford Tillinghast. Noutra ocasião, senti que as coisas imensas e animadas se arrastavam para além de mim e às vezes caminhavam ou vogavam através do meu corpo supostamente sólido, e pensei ter visto Tillinghast olhar para elas como se seus sentidos mais bem treinados pudessem captálas
visualmente. Lembrei-me do que ele dissera acerca da glândula pineal e me perguntei o queele via com esse olho sobrenatural.
De súbito, senti-me também possuído por uma espécie de visão aumentada. Por cima e ao
longo do caos luminoso e sombrio se elevava uma imagem que, embora vaga, continha
elementos de consistência e permanência. Era de fato algo familiar, pois a parte incomum estava superposta à cena comum e terrestre, tal como uma imagem de cinema se pode projetar sobre a cortina pintada de um teatro. Vi o laboratório do sótão, a máquina elétrica e a forma indistinta de Tillinghast em frente a mim, mas de todo o espaço não ocupado por objetos familiares sequer amenor porção estava vaga. Formas indescritíveis, vivas ou não, se misturavam numa desordem repulsiva, e perto de cada coisa conhecida havia mundos inteiros de entidades alienígenas e ignotas. Igualmente, parecia que todas as coisas conhecidas entravam na composição de outras
coisas desconhecidas e vice-versa. Mais à frente, entre os objetos vivos, havia monstruosidades pretas, semelhantes a medusas, que estremeciam languidamente com as vibrações da máquina. Manifestavam-se numa profusão nauseante, e eu vi, para o meu horror, que se imbricavam, que eram semifluidas e capazes de passar através umas das outras e daquilo que conhecemos como sólidos. Essas coisas jamais paravam; antes: pareciam flutuar sempre com algum propósito maligno. Às vezes, davam mostras de devorar-se umas às outras, o atacante lançando-se sobre sua vítima e instantaneamente fazendo-a desaparecer de vista. Trêmulo, entendi o que tinha feito desaparecer os infelizes criados, e não podia expulsar a coisa de minha mente enquanto lutava para observar outras propriedades do mundo, há pouco tornado visível, que existe incógnito à nossa volta. Mas Tillinghast tinha estado a me observar e agora falava.
“Você as vê? Você as vê? Vê as coisas que flutuam e se precipitam à sua volta a cada
momento de sua vida? Vê as criaturas que formam o que os homens chamam de ar puro e de céu azul? Não tive sucesso em romper a barreira, não mostrei a você mundos que os outros homens jamais chegaram a ver?” Ouvi seu grito através do horrível caos e olhei para a face selvagem que tão ofensivamente se colava à minha. Seus olhos eram poços de chamas e me fitavam com aquilo que – logo entendi – era apenas o mais profundo ódio. A máquina ronronava de maneira horrorosa.
“Pensa que essas coisas rastejantes arrebataram os criados? Tolo, são inofensivas! Mas os criados desapareceram, não é? Você tentou me impedir, você me desencorajou quando precisei de cada gota de incentivo que pudesse obter. Você teve medo da verdade cósmica, seu maldito covarde, mas agora eu o peguei! O que foi que levou os criados? O que os fez berrar tão alto?... Não sabe, hein? Logo, logo saberá. Olhe para mim – ouça o que eu digo. Supõe você que existem mesmo tais coisas como tempo e magnitude? Acredita mesmo que existem tais coisas como forma e matéria? Eu lhe digo, você atingiu profundidades que o seu pequeno cérebro não pode conceber. Vi para além das fronteiras do infinito e arrastei demônios das estrelas... Conduzi as sombras que perambulam de mundo para mundo para semear a morte e a loucura... O espaço me pertence, está me ouvindo? As coisas estão à minha caça agora – as coisas que devoram e dissolvem –, mas eu sei como ludibriá-las. É a você que elas pegarão, como fizeram com os criados... Está tremendo, caro senhor? Eu lhe disse que era perigoso mover-se, coloquei-o a salvo dizendo que se mantivesse quieto – salvei-o para ter mais visões e para me ouvir. Se você tivesse se movido, eles já teriam se atirado sobre você há muito tempo. Não se preocupe, não vão machucá-lo. Não machucaram os criados – foi apenas ver que os fez berrar daquele jeito. Meus bichinhos não são bonitos, pois vêm de lugares onde os padrões estéticos são... muito diferentes. Eu quase os vi, mas soube como parar. Você é curioso? Sempre soube que você não era um cientista. Tremendo, hein? Tremendo de ansiedade para ver as últimas coisas que descobri. Por que não se move, então? Cansado? Bem, não se preocupe, amigo, pois elas estão vindo… Olhe, olhe, amaldiçoado, olhe… Está bem em cima do seu ombro esquerdo.”
O que falta contar é bem pouco, e vocês talvez já tenham sabido por meio dos jornais. A polícia ouviu um tiro na velha casa de Tillinghast e nos encontrou lá – Tillinghast morto, e eu, inconsciente. Prenderam-me, porque o revólver estava em minha mão, mas soltaram-me dentro de três horas, pois descobriram que foi a apoplexia que acabou com Tillinghast e viram que meu tiro tinha sido disparado contra a máquina perversa que agora jaz irremediavelmente destroçada no chão do laboratório. Não contei muito do que vi, pois temi que o coronel ficasse cético, mas, pela descrição evasiva que dei, o médico me disse que, sem dúvida, eu tinha sido hipnotizado pelo louco vingativo e homicida.
Quem dera eu pudesse acreditar no médico. Seria bom para os meus nervos se eu pudesse
pôr de lado o que agora tenho de pensar sobre o ar e o céu que me envolvem e que estão acima de mim. Nunca me sinto sozinho e confortável, e um senso horrível e arrepiante de perseguição às vezes me invade quando esmoreço. O que me impede de acreditar no médico é apenas este fato: que a polícia nunca encontrou os corpos dos criados que, segundo dizem, Crawford Tillinghast assassinou.

domingo, março 15, 2009

Sexto Soneto Sagrado




Uma poesia sombria para quebrar o gelo da falta de postagens rs

Por John Donne

Tradução de Jorge de Sena

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
poderosa e terrível, porque tal não és,
já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.

Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado,
muito maior prazer se tira em teu revés,
pois que o justo ao deitar-se com tua nudez,
ossos te deita e não seu esprito libertado.

Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
melhores do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?

Despertamos no Eterno um breve adormecer,
e a morte não será, que Morte hás-de morrer.

Ah e fiquem no aguardo, a Irmandade das Sombras logo estará de volta!

sábado, março 07, 2009

O Coração Denunciador



Para começar essa nova fase do blog deixo a vocês um dos meus contos favoritos do mestre Edgar Allan Poe



É verdade! Tenho sido e sou nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso! Mas, por
que ireis dizer que sou louco? A enfermidade me aguçou os sentidos, não os destruiu,
não os entorpeceu. Era penetrante, acima de tudo, o sentido da audição. Eu ouvia todas
as coisas, no céu e na terra. Muitas coisas do inferno ouvia. Como, então, sou louco?
Prestai atenção! E observai quão lucidamente, quão calmamente vos posso contar toda a
estória.
É impossível dizer como a idéia me penetrou primeiro no cérebro. Uma vez concebida,
porém, ela me perseguiu dia e noite. Não havia motivo. Não havia cólera. Eu gostava do
velho. Ele nunca me fizera mal. Nunca me insultara. Eu não desejava seu ouro. Penso
que era o olhar dele! Sim, era isso! Um de seus olhos se parecia com o de um abutre. . .
um olho de cor azul-pálido, que sofria de catarata.
Meu sangue se enregelava sempre que ele caía sobre assim, e assim, pouco a pouco, bem
lentamente, fui-me decidindo a tirar a vida do velho e assim libertar-me daquele olho para
sempre.
Ora, aí é que está o problema. Imaginais que sou louco.
Os loucos nada sabem. Deveríeis, porém, ter-me visto. Deveria ter visto como procedi
cautamente! Com que prudência...com que previsão. . . com que dissimulação lancei
mãos à obra!
Eu nunca fora mais bondoso para com o velho do que durante a semana inteira antes de
matá-lo. E todas as noites, por meia-noite, eu girava o trinco da porta de seu quarto e
abria-a…oh, bem devagarinho. E depois, quando a abertura era suficiente para conter
minha cabeça, eu introduzia uma lanterna com tampa toda velada, bem velada, de modo
que nenhuma luz se projetasse para fora, e em seguida enfiava a cabeça. Oh, teríeis rido
ao ver como a enfiava habilmente!
Movia-a lentamente. . . muito… muito lentamente, a fim de não perturbar o sono do
velho. Levava uma hora para colocar a cabeça inteira além da abertura, até podê-lo ver
deitado na cama. Ah! Um louco seria precavido assim? E depois quando minha cabeça
estava bem dentro do quarto, eu abria a tampa da lanterna cautelosamente. . - oh, bem
cautelosamente! Sim, cautelosamente (porque a dobradiça rangia) . . . abria-a só até
permitir que apenas um débil raio de luz caísse sobre o olho de abutre. E isto eu fiz
durante sete longas noites. . . sempre precisamente a meia-noite. . . e sempre encontrei o
olho fechado. Assim, era impossível fazer a minha tarefa, porque não era o velho que me
perturbava, mas seu olho diabólico. E todas as manhãs, quando o dia raiava, eu
penetrava atrevidamente no quarto e falava-lhe sem temor, chamando-o pelo nome com
ternura e perguntando como havia passado a noite. Por aí vedes que ele precisaria ser um
velho muito perspicaz para suspeitar que todas as noites, justamente as doze horas, eu
o espreitava, enquanto dormia.
Na oitava noite, fui mais cauteloso do que de hábito ao abrir a porta. O ponteiro dos
minutos de um relógio mover-se-ia mais rapidamente do que meus dedos. Jamais, antes
daquela noite, sentira eu tanto a extensão de meus próprios poderes, de minha
sagacidade. Mal conseguia conter meus sentimentos de triunfo. Pensar que ali estava eu,
a abrir a porta, pouco a pouco, e que ele nem sequer sonhava com os meus atos ou
pensamentos secretos…Ri entre os dentes, a essa idéia, e talvez ele me tivesse ouvido,
porque se moveu de súbito na cama, como se assustado. Pensais talvez que recuei? Não!
O quarto dele estava escuro como piche, espesso de sombra, pois os postigos se achavam
hermeticamente fechados, por medo aos ladrões. E eu sabia, assim, que ele não podia ver
a abertura da porta; continuei a avançar, cada vez mais, cada vez mais.Já estava com a
cabeça dentro do quarto e a ponto de abrir a lanterna, quando meu polegar deslizou sobre
o fecho de lata e o velho saltou na cama, gritando:Quem está aí?
Fiquei completamente silencioso e nada disse. Durante uma hora inteira, não movi um
músculo e, por todo esse tempo, não o ouvi deitar-se de novo. Ele ainda estava sentado
na cama, à escuta; justamente como eu fizera, noite após noite, ouvindo a ronda da morte
próxima.
Depois ouvi um leve gemido e notei que era o gemido do terror mortal. Não era um gemido
de dor ou de pesar.. . oh, não! Era o som grave e sufocado que se ergue do fundo da alma
quando sobrecarregada de medo. Bem conhecia esse som. Muitas noites, ao soar meianoite,
quando o mundo inteiro dormia, ele irrompia de meu próprio peito, aguçando, com
seu eco espantoso, os terrores que me aturdiam. Disse que bem o conhecia. Conheci
também o que o velho sentia e tive pena dele, embora abafasse um riso no coração. Eu
sabia que ele ficara acordado desde o primeiro leve rumor, quando se voltara na cama.
Daí por diante, seus temores foram crescendo. Tentara imaginá-los sem motivo, mas não
fora possível. Dissera si mesmo: "É só o vento na chaminé…ou é só um rato andando pelo
chão", ou "foi apenas um grilo que cantou; um instante só. Sim ele estivera tentando
animar-se com estas suposições, mas tudo fora em vão. Tudo em vão, porque a Morte,
ao aproximar-se dele, projetara sua sombra negra para a frente, envolvendo nela a vítima.
E era a influência tétrica dessa sombra não percebida que o levava a sentir - embora não
visse nem ouvisse -, a sentir a presença de minha cabeça dentro do quarto.
Depois de esperar longo tempo, com muita paciência, sem ouvi-lo deitar-se, resolvi abrir
um pouco, muito, muito pouco, a tampa da lanterna. Abri-a - podeis imaginar quão
furtivamente - até, que por fim, um raio de luz apenas, tênue como o fio de uma teia de
aranha, passou pela fenda e caiu sobre o olho de abutre.
Ele estava aberto. . . todo, plenamente aberto. . . e, ao contemplá-lo a minha fúria
cresceu. Vi-o, com perfeita clareza, todo de um azul-desbotado, com uma horrível película
a cobri-lo, o que me enregelava até a medula dos ossos. Mas não podia ver nada mais da
face ou do corpo do velho, pois dirigira a luz, como por instinto, sobre o maldito lugar.
Ora, não vos disse que apenas é super acuidade dos sentidos aquilo que erradamente
julgais loucura? Repito, pois, que chegou a meus ouvidos um som baixo, monótono,
rápido como o de um relógio quando abafado em algodão. Igualmente eu bem sabia que
som era. Era o bater do coração do velho. Ele me aumentava a fúria como o bater de um
tambor estimula a coragem do soldado.
Ainda aí, porém, refreei-me e fiquei quieto. Tentei manter tão fixamente quanto pude a
réstia de luz sobre o olho do velho. Entretanto, o infernal tã-tã do coração aumentava. A
cada instante ficava mais alto, mais rápido, mais alto, mais rápido! O terror do velho
deve ter sido extremo! Cada vez mais alto, repito a cada momento!
Prestais-me bem atenção? Disse-vos que sou nervoso, sou. E então, àquela hora morta da
noite, o bater tão estranho excitou em mim um terror incontrolável. Contudo, por alguns
minutos mais, dominei-me e fiquei quieto. Mas o bater era cada vez mais alto. Julguei
que o coração ia rebentar. E, depois, nova angustia me aferrou: o rumor poderia ser
ouvido por um vizinho! A hora do velho tinha chegado! Com um alto berro, escancarei a
lanterna e pulei para dentro do quarto.
Ele guinchou mais uma vez.. uma vez só. Num instante, arrastei-o para o soalho e virei a
pesada cama sobre ele. Então sorri alegremente por ver a façanha realizada. Mas,
durante muitos minutos, o coração continuou a bater, com som surdo. Isto, porém, não
me vexava. Não seria ouvido através da parede. Afinal cessou.O velho estava morto.
Removi a cama e examinei o cadáver. Sim, era uma pedra, morto como uma pedra.
Coloquei minha mão sobre o coração e ali a mantive durante muitos minutos. Não havia
pulsação. Estava petrificado. Seu olhos não mais me perturbariam.
Se ainda pensais que sou louco, não mais o pensareis, quando eu descrever as sábias
precauções que tomei para ocultar o cadáver. A noite avançava e eu trabalhava
apressadamente, porém em silêncio. Em primeiro lugar, esquartejei o corpo. Cortei-lhe a
cabeça, os braços e as pernas.Arranquei depois três pranchas do soalho do quarto e
coloquei tudo entre os vãos. Depois recoloquei as tábuas, com tamanha habilidade e
perfeição que nenhum olhar humano - nem mesmo o dele - poderia distinguir qualquer
coisa suspeita. Nada havia a lavar…nem mancha de espécie alguma. . nem marca de
sangue. Fora demasiado prudente no evitá-las. Uma tina tinha recolhido tudo… ah, ah,
ah!
Terminadas todas essas tarefas, eram já quatro horas. Mas ainda estava escuro como se
fosse meia-noite. Quando o sino soou a hora, bateram à porta da rua. Desci a abri-la, de
coração ligeiro, pois que tinha eu agora a temer? Entraram três homens, que se
apresentaram, com perfeita mansidão, como soldados de polícia.
Fora ouvido um grito por um vizinho, durante a noite. Despertara-se a suspeita de um
crime. Tinha-se formulado uma denúncia à polícia e eles, soldados, tinham sido
mandados para investigar.
Sorri, pois. . . que tinha eu a temer? Dei as boas-vindas aos cavalheiros. O grito, disse
eu, fora meu mesmo, em sonhos. O velho, relatei, estava ausente, no interior. Levei meus
visitantes a percorrer toda a casa. Pedi-lhes que dessem busca completa. Conduzi-os,
afinal, ao quarto dele.
Mostrei-lhes suas riquezas, em segurança, intactas. No entusiasmo de minha confiança,
trouxe cadeiras para o quarto e mostrei desejos de que eles ficassem ali, para descansar
de suas fadigas, enquanto eu mesmo, na desenfreada audácia de meu perfeito triunfo,
colocava minha própria cadeira propriamente sobre o lugar onde repousava o cadáver da
vítima.
Os soldados ficaram satisfeitos. Minhas maneiras os haviam vencido. Sentia-me
singularmente à vontade. Sentaram-se e, enquanto eu respondia cordialmente,
conversaram coisas familiares. Mas dentro em pouco, senti que ia empalidecendo e
desejei que eles se retirassem. Minha cabeça doía e parecia-me ouvir zumbido nos
ouvidos; eles, porém, continuavam sentados e continuavam a conversar. O zumbido
tornou-se mais distinto; continuou e tornou-se ainda mais perceptível.
Eu falava com mais desenfreio, para dominar a sensação; ela, porém, continuava e
aumentava sua perceptibilidade. . . até que, afinal, descobri que o barulho não era dentro
dos meus ouvidos.
É claro que então a minha palidez aumentou. Mas eu falava ainda mais fluentemente e
num tom de voz muito elevada. Não obstante, o som se avolumava... E que podia eu fazer
era um som grave, monótono, rápido... muito semelhante ao de um relógio envolto em
algodão. Respirava com dificuldade... e no entanto, os soldados não o ouviram. Falei mais
depressa ainda, com mais veemência. Mas o som aumentava constantemente. Levanteime
e fiz perguntas a respeito de ninharias, num tom bastante elevado e com violenta
gesticulação, mas o som constantemente aumentava. Por que não se iam eles embora?
Andava pelo quarto acima e abaixo, com largas e pesadas passadas, como se excitado até
a fúria pela vigilância dos homens; mas o som aumentava constantemente. Oh, Deus!
Que poderia eu fazer? Espumei. . . enraivecido.. . praguejei! Fiz girar a cadeira sobre a
qual estivera sentado e arrastei-a sobre as tábuas, mas o barulho se elevava acima de
tudo e continuamente aumentava. Tornou-se mais alto. . . mais alto… mais alto! E os
homens continuavam ainda a passear, satisfeitos e sorriam. Seria possível que eles não
ouvissem? Deus Todo-Poderoso! Não, não! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Estavam
zombando do meu horror! Isto pensava eu e ainda penso. Outra coisa qualquer, porém,
era melhor que aquela agonia!
Qualquer coisa era mais tolerável que aquela irrisão! Não podia suportar por mais tempo
aqueles sorrisos hipócritas! Sentia que devia gritar ou morrer, e agora de novo... escutai...
mais alto... mais alto... mais alto…mais alto!…
- Vilões! - trovejei. - Não finjam mais! Confesso o crime! Arranquem as pranchas! Aqui,
aqui! Ouçam o batido do seu horrendo coração!

domingo, março 01, 2009

A Irmandade das Sombras Novamente se Levanta!




Sim senhoras e senhores, a Irmandade das Sombras está viva!

Estamos nos reestruturando aos poucos, mas logo estaremos de volta!

Aos que acessaram o blog nos últimos tempos peço desculpas pela nossa ausência, pois passamos por fases difíceis (alias ainda passamos) e por um momento chegamos até mesmo a morrer, mas como a Fenix nós renasceremos das cinzas

Aguardem!

sábado, agosto 16, 2008

É Inevitável...



Por Charlise de Orleans

É inevitável a sensação de mais...
É inevitável a sensação de buscar...
É inevitável a sensação de ganhar...
É inevitál a vontade de vencer...

É mais inevitável ainda a vontade de estar no poder...
A vontade de vencer e ganhar...
É inevitável a sensação de poder sobre si mesmo....

É inevitável a vontade de sair, fugir, sumir...
É inevitável também a espera....
É inevitável a perda...
É inevitável esquecer...

É inevitável querer,
É inevitável saber fazer...
É inevitável acontecer...
É inevitável perder...

É ainda pior que a demora, pior que a derrota,
É ainda pior que os males, a tortura da vida...
É ainda pior não poder decidir...
É anda pior não saber como, onde e porque...

É ainda pior batalhar e tudo se resumir a pó...
É inevitável o egoísmo,a traição a mentira...
É inevitável ir além...
É inevitável a curiosidade sobre o que a vida pode oferecer...

Porém...

É inevitável,imprevisto...
Passivo, terrível... doloroso...
Demoníaco, prazeroso,
Devagar,rápido,quisto...

É inevitável a morte...

sexta-feira, agosto 08, 2008

SOMBRIAS ESCRITURAS ENTREVISTA PAULO SORIANO


Entrevista retirada do site SOMBRIAS ESCRITURAS



Em entrevista ao site Sombrias Escrituras, Paulo Soriano fala sobre seus contos e seu trabalho realizado no site Contos Grotescos.

S.E.- Soriano, é com prazer que o tenho aqui no site, grande contista e amigo. E por falar em contos, poderia começar nossa entrevista falando sobre os motivos que o fizeram se interessar mais por contos de terror?


P.S.- O prazer é todo meu! Fico honrado com o convite. É muito bom estar aqui nas Sombrias Escrituras. Quando eu era criança, costumava assistir aos filmes de terror que passavam na extinta TV Tupi e na então incipiente TV Globo. Dentre outros, eram exibidos na telinha os bons e velhos filmes produzidos pela Hammer, estrelados por Vincent Price, Peter Lore , Christopher Lee e Peter Cushing. Eu adorava aquilo. Depois vieram as leituras, em especial Edgar Allan Pöe, William Peter Blatty, Sheridon Le Fanu e Stevenson. Quando me pus a escrever contos, não deu outra: só saía terror...

S.E.- Sabemos que no cinema e na literatura existem o terror psicológico, o macabro, o violento, etc... E em seus contos? Qual lado do terror você procurar mais explorar?


P.S.- Acho que o que escrevo está mais para o horror. Escrevo para que as pessoas leiam e digam: que horrível! Gosto também do elemento trágico no horror. Um certo conto meu já pôs mais de uma pessoa pra chorar. Mas o que eu gosto mesmo é de uma surpresinha no final, ou de uma reviravolta no enredo.

S.E.- Você também mantém um site, o "Contos Grotescos", que divulga contos de escritores dedicados ao gênero do horror e da fantasia. Como surgiu esse site e como vem sendo o desenvolvimento do mesmo por parte dos escritores participantes?


P.S.- Bem, tudo começou quando pedi a um amigo e colega de trabalho, Waldir Santos, para revisar alguns dos meus contos. Ele gostou muito e criou uma comunidade no Orkut, “Escreva mais contos, Paulo Soriano”. Atendendo a pedido de amigos, criei uma “home page” no Yahoo, na qual publiquei algumas narrativas. Daí para o “site” foi um pulo. Hoje, o “site” conta com um grande número de colaboradores. Tenho exemplos de muitas pessoas que foram incentivadas a produzir narrativas de horror e fantasia acessando e lendo os Contos Grotescos, o que é mais que gratificante. E creio, também, que o “site” está conseguindo cumprir o seu desiderato: ser um veículo de publicação de novos talentos que não conseguem publicar em papel.

S.E.- Existe também a "Irmandade das Sombras", que de acordo com seu site, é uma confraria literária que reúne vários colaboradores contistas de horror e fantasia. Fale mais sobre essa Irmandade... seus feitos, blog, publicações etc...


P.S.- A Irmandade das Sombras é uma confraria de escritores amadores criada por Linx e Rogério Silvério de Farias, cujo objetivo é cultivar e disseminar o gênero fantástico. Dela faço parte, com muito orgulho, desde o dia de sua criação. A confraria se reúne no “site” Recanto das Letras e, graças a colaboração de todos, dispomos de um blog (www.recantodassombras.blogspot.com) e já publicamos uma antologia de contos, pela editora Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Atualmente, a Irmandade das Sombras mantém uma revista literária, a IS Magazine, periódico eletrônico ancorado no “ site” Contos Grotescos e que, atualmente, já vai em seu terceiro número. No futuro, deveremos publicar, também, antologias em “e-book”.

S.E.- Seu site, Contos Grotescos, atualmente, possui mais de trezentos contos. Qual sua visão em relação às publicações de textos na internet, suas implicâncias para nossa literatura, o que se ganha e o que se perde com essa liberdade digital?


P.S.- Acho que a “internet” é uma grande conquista. Certa vez registrei que, no Brasil, fazemos uma constatação amarga e iniludível: o livro é um objeto de luxo, ao alcance de muito poucos. A evolução tecnológica na produção de livros é inversamente proporcional ao acesso da população a eles. É dizer, as editoras publicam ótimos exemplares, cada vez mais belos e sofisticados, para uma casta privilegiada: a dos que podem, sem sacrifício, desembolsar de 60 a 100 reais por uma brochura de trezentas a quatrocentas páginas. Ao seu turno, é tarefa quase impossível publicar no Brasil. Em se tratando de ficção, o mercado editorial vale-se essencialmente de traduções de autores estrangeiros consagrados. A "internet" vem a ser, assim, de fato, uma ferramenta poderosa para disseminação de textos e idéias. Não houvesse tal ferramenta e, certamente, os meus contos não seriam conhecidos por mais de uma dúzia de pessoas. Assim como eu, muitos outros autores se valem do meio cibernético para divulgação de sua obra, formando uma extensa malha de difusão e assimilação da literatura. E há ainda sítios especializados na divulgação de trabalhos literários, como é o caso do Recanto das Letras, que congrega autores – profissionais ou não – das mais variadas tendências. Creio que com a “internet” não há o que se perder. Todos têm a ganhar, autores ou leitores. O que se pode afirmar é que, como toda mídia, a eletrônica tem suas exigências e especificidades; cumpre ao autor se adaptar a elas.

S.E.- O terror como inspiração literária, no seu caso, vem de quais fontes?


P.S.- Sobretudo de Allan Pöe. Mas exercem-me, também, influências autores que não se dedicaram - ou pouco se dedicaram - ao gênero, como Eça, Alexandre Herculano e Emily Brontë. Mais recentemente, e com menor intensidade, posso citar a influência de autores como Bierce, Lovecraft e King.

S.E.- Além da literatura, existe outra forma que você gosta ou gostaria de se expressar?


P.S.- Não, não há. No passado, gostava de desenhar e de pintar. Hoje em dia não tenho mais paciência. E, recentemente, descobri que estou enxergando muito mal...

S.E.- Quando começamos a ler seus contos, uma espécie de feitiço, lentamente, nos toma a atenção e nos deixamos absorver pela leitura. Como você inicia a criação de seus textos, e como se desenrola o processo de criação até o desfecho?


P.S.- É verdade? Não sabia! Fico feliz com isso. Bem, na maioria das vezes elaboro os meus contos deitado, esperando o sono chegar. Sofro de uma insônia terrível desde a adolescência. Assim, para induzir-me ao sono, fico criando histórias em minha mente. As palavras vão surgindo, as imagens vêm chegando. Muitas vezes, quando resolvo ir ao computador, a narrativa já está praticamente pronta em minha cabeça. Outras vezes, descarto sumariamente a história. Atualmente, por exemplo, estou induzindo o sono com uma história em que, no futuro, cientistas conseguiram criar uma espécie de intersecção no espaço-tempo. Através dessa intersecção, eles verificam que, na realidade, Jesus morreu na cruz, mas não ressuscitou. Concluíram que esta verdade seria um duro golpe para a civilização ocidental. Então eles interferem na linha espaço-temporal, alterando o passado e a ajustando à tradição cristã: antes que a morte de Jesus advenha, os cientistas injetam no Salvador uma espécie de droga que o deixa em estado similar ao da catalepsia. Jesus é dado por morto e sepultado. Mas ao final do terceiro dia... ainda não sei como vai acabar. Talvez hoje, antes de dormir, conclua a história, que, aliás, já está descartada. Mas nem sempre é assim. Não poucas vezes me sento ao computador, com a cabeça completamente vazia e, em vinte ou trinta minutos, tenho uma história pronta. Como eu sou muito ansioso e impaciente, as minhas histórias saem sempre de chofre. Jamais escreverei um romance.

S.E.- Você tem muitos fãs. Já pensou no lançamento de um livro de contos seus para breve?


P.S.- Outra coisa que não sabia... Eu tenho fãs! Coisa difícil para um escriba criticado justamente pela linguagem “difícil”, que afasta muitos leitores. Bem, já pensei, sim. O problema é que não consigo elaborar uma seleção de contos para publicação. Por mais que eu tente, não sei o que incluir e o que deixar de fora. Tenho a idéia de publicar contos ambientados na Idade Média (eis aí a influência de Eça e de Herculano). Mas não sei se a idéia irá vingar. King disse certa vez que o pior crítico do autor é o próprio autor. Acho que ele tem razão.

S.E.- Obrigado pela atenção, Soriano, seja sempre bem-vindo em Sombrias Escrituras. E para finalizar, deixe seu recado pois o espaço é seu!


P.S.- Eu agradeço às Sombrias escrituras por esta oportunidade. O cronista João Costa escreveu, com pertinência, e eu gosto sempre de frisar, que "é provável que não haja gênero literário de mais difícil construção e, não obstante, de maior tendência para ser intelectualmente discriminado quanto o sobrenatural. Muitos críticos consideram tal gênero um exercício intelectual de segunda ordem, aquém da profundidade e complexidades necessárias para, a partir dele, elaborar-se um verdadeiro clássico literário..." Pois bem, digo aos leitores de Sombrias Escrituras que não se deixem seduzir pelos críticos preconceituosos: continuem fãs do fantástico. Com isso, só temos a ganhar. E muito.