segunda-feira, outubro 09, 2006


A MALDIÇÃO DE AKLATHENOHM
Por Rogério Silvério de Farias


Na misteriosa e remota infância do mundo, quando o homem era apenas um sonho incipiente dos deuses esboçado em carne, sangue e fúria, havia uma grande terra, chamada Druzuxkulhulpion, constituída de um único e gigantesco continente sobre as águas de um oceano turbulento e de águas quentes e revoltosas, onde a vida subaquática ainda era escassa e jovem. Os sábios do futuro chamariam esse oceano de Pantalassa, e essa terra de Pangéia, mas seus nomes verdadeiros eram Garith e Druzuxkulhupion, respectivamente. Na grande cidade-estado de Lmnir, também capital de Druzuxkulhulpion, onde habitava o estranho povo-lagarto, grotescos humanóides, meio homens e meio répteis, com seus palácios de ouro e prata e suas espadas de djiryuwn (uma espécie de aço negro e cintilante de então, tirado e forjado de um grande meteorito em forma de caveira humana que caíra no vale de Zizar), vivia e mandava o malvado e opressor rei do povo-lagarto, Aklathenohm, que mandara construir uma torre gigantesca de ouro maciço, maravilha do continente único de Druzuxkulhulpion. Aklathenohm, com seu orgulho titânico, resolvera construir aquela torre colossal que, segundo ele, tocaria o céu e faria cócegas no ventre rotundo dos deuses antigos das estrelas distantes. A rainha, sua esposa Arktília, de índole perversa também, concordara em tudo, submissa, lasciva, entregue a concupiscências pecaminosas. Em Lmnir, eram cultuados os sete deuses maiores druzuxkulhupionitas: Zantrah, Tarabachibuch,Vlig, o branco Milac, Zorthiay, Guh, o folião do pandemônio e também o terrível e negro Bed. Todavia, o rei de Lmnir adorava o deus menor, malévolo e antigo chamado Sharthak, também conhecido como deus-lagarto da discórdia e do ódio; Aklathenohm e seus sacerdotes e fiéis adoravam Sharthak como se fosse um deus único. Mas o orgulho de Aklathenohm era mais satânico do que o povo pensara. Entre o povo-lagarto, havia uma casta menor de druzuxkulhupionitas, mestiços, híbridos de primatas e répteis humanóides, considerados párias. Eram os Hadanos, que futuramente dariam origem aos australopithecus e pithecanthropus, numa evolução alucinante esboçada pelos deuses da Criação. Os hadanos eram como um esboço dos homens feito pelas mãos dos deuses antigos e esquecidos no tapete da existência terrena, e quem tenha ouvidos que não sejam moucos, ouçam estas minhas palavras e esta minha história, pois fui o cronista desta era de sombras perdida na grande noite dos séculos. A maioria dos hadanos servia como escravos, gladiadores ou serviçais, mas também havia uma parte de hadanos livres e nômades, de uma outra casta de mestiços, e alguns desses eram xamãs , guerreiros e até mercenários bárbaros. Um dia, Aklathenohm mandou exterminar todos os hadanos da face de Druzuxkulhulpion. Ele queria a supremacia e a pureza total da raça dos homens-lagarto druzuxkulhupionitas. Nenhum maldito mestiço seria poupado, segundo seu louco pensar. Todos os hadanos, livres ou escravos, de todas as castas, seriam presos e sacrificados em honra ao maldito deus Sharthak (“Sharthak” na língua dos druzuxkulpionitas queria dizer “aquele que chafurda nas cloacas imundas do inferno do caos” ou “o que rastejou das sombras dos lamaçais do inferno caótico para matar os viventes”). Hadanos escravos ou hadanos livres seriam queimados vivos em grandes fornos em forma de caveiras nas misteriosas montanhas de Zlor, ao sul do continente único de Druzuxkulhupion, maravilha única do mundo antigo. Trancados nos sinistros fornos nos cumes das montanhas zlorianas, os hadanos foram sendo dizimados pouco a pouco, dia após dia, noite após noite, num genocídio lento e horrível. Os gritos medonhos de horror e morte foram ouvidos durante anos pelos homens-lagarto de Lmnir, sem nenhuma piedade. O insano Aklathenohm costumava dizer sarcasticamente a Arkitília, quando ouvia os gritos de agonia:”Estou ouvindo a minha música favorita, minha querida: a música da morte violenta dos seres inferiores, os hadanos!’’. E ambos gargalhavam em meio a uma esdrúxula luxúria pecaminosa. No dia em que queimaram vivo o filósofo, profeta e xamã hadano de nome Merugiteth, da aldeia livre de Kzor, ouviu-se uma maldição negra ser vomitada da garganta desse mago hadano antes de sua morte, uma maldição do velho sábio hadano versado em conhecimentos místicos proibidos de esferas ou reinos astrais e etéricos invisíveis ao olho comum. A maldição do mago tido como louco pelo rei do povo-lagarto ecoou por todo o reino de Lmnir, chegando aos ouvidos de Aklathenohm como um hino de vingança macabra. Aklathenohm, postado paranoicamente em seu trono, lá no alto de sua torre colossal feita de ouro maciço, parecia estar atravessando os portais da loucura e do remorso. Sem dúvida, Merugiteth evocara entes demoníacos da natureza e da face oculta da lua para atormentar a consciência de Aklathenohm que pesara tal qual uma montanha de granito. Em seu trono de ágata e lápis-lazúli, Aklathenohm ouviu em sua mente a maldição negra de Merugiteth, lançada ao rei durante noites e noites inteiras de delírio e febre alucinantes. Eis, em síntese, a maldição proferida pelo feiticeiro Merugiteth: “Amaldiçoada seja o reino de Lmnir e toda a corrupta Druzuxkulhulpion, maravilha pecaminosa do continente único! Eu a amaldiçôo com todas as forças negras de meu coração hadano apodrecido e carcomido pelo ódio e pelo desejo de vingança! Haverá um dia em que este reinado de ódio contra o povo hadano perecerá para sempre. Virão muitas chuvas, trovões, terremotos, maremotos, cataclismos criados pelos deuses invisíveis da natureza e pelos demônios verdes que dançam silenciosamente na face escura da lua, e tudo será destruído, tudo será purificado, desenhando-se, assim, um novo mundo com uma nova geografia, um mundo que não mais se chamará Druzuxkulhulpion, mas sim...Lemúria!... Que fique o maldito rei Aklathenohm, com seu orgulho anormal e satânico sabendo que os hadanos não irão morrer nunca!...
“Conseguimos ocultar um jovem casal nas montanhas de Saphyr, nos bosques e jardins ao norte das montanhas de Éthen, que servirá como sementeira para uma nova raça. O hadano macho chama-se Hadan e a fêmea chama-se Revah. Revah dará a luz em breve, perpetuando e evoluindo a raça hadana para a raça humana, no ciclo inteminável de nascimento e morte da vida neste mundo. E, após as pestes e os cataclismos, a maldição perpétua cairá implacável sobre o último dos homens-lagarto, o reio Aklathenohm! E então o tirano perecerá em dores e solidão atrozes e eternas!” Quando por fim vieram os cataclismos profetizados, vieram também os terremotos e os maremotos, vieram pragas e doenças terríveis que mataram todos os homens-lagarto, até que restou apenas um, aquele em sua torre gigantesca de ouro, perto do céu, perto das estrelas distantes e desconhecidas, perto da lua cheia maldita, o tirânico e louco rei Aklathenohm, sozinho com sua arrogância, sua luxúria e sua empáfia, com seu egoísmo diabólico, com seu louco e abominável deus Sharthak, que o abandonara para sempre. E com sua terrível doença que o tornara um autêntico morto-vivo! A mesma coisa aconteceu com a rainha Aktília, completamente vencida pela insanidade nascida da voluptuosidade malsã, teve sua pele e carne apodrecidas em vida. Aklathenohm gritou de horror e loucura em sua torre dourada, que inexplicavelmente não fora destruída pelos cataclismos e pela Era Glacial que se seguiu. O rei, atônito, viu ruir seu império e sua nação. Segundo os Pergaminhos Negros de Saahrhayrtrung, encontrados ainda nas ruínas dos templos de Saphyr, escritos pelos próprios Hadan e Revah, que então começaram um novo mundo, o rei Aklathenohm, no auge do seu desespero e horror, juntamente com a rainha, teriam visto uma estranha e luminosa nuvem verde de aspecto discoidal e fantasmagórico descer da lua numa noite fria e agourenta, envolvendo o topo da torre e levando o rei tirano e sua rainha inteiramente vivos, porém enlouquecidos, para muito além das estrelas do firmamento negro.
O tempo passaria por anos e séculos antes dos demônios cosmonautas que viajavam na estranha nuvem luminosa e espectral oriunda do lado negro da lua trouxessem de volta ao então mundo da Lemúria o rei Aklathenohm e a libidinosa rainha Arkitília, que involuíram de tal modo, que se tornaram tiranossauros (foi assim que surgiram esses monstros colossais do passado remoto da terra!), e que, no decorrer das eras, involuiriam ainda mais, passando de dinossauros até tornarem-se aquilo que os homens do futuro chamariam... lagartos.

domingo, outubro 08, 2006

Ao Destruidor dos Meus Sonhos



Como poderei agradecer-te por tãos bons momentos...Esses os quais jamais sairão da minha memória... Seu jeito de tocar, seu jeito de beijar..Com você me sinto uma diva...Uma deusa..Amada e respeitada..e como meu Deus? Como pode tudo acabar? Porque você destruiu todos os meus sonhos... Tantos momentos de desejo, tantas loucuras que fizemos juntos. Eu sempre dizia que era louca e apaixonada. Hoje sou triste e melancólica. Triste porque você não está mais aqui..você acabou com meus sonhos...Porque fizes-te isso? Como pode acabar com algo tão precioso? Por uma simples desconfiança, um ciúme sem sentido... Uma dor toma conta do meu coração. Porque você fez isso comigo? Eu estava tão apaixonada... Não tinha olhos pra mais ninguém... E até meus olhos você os rancou.... Olho ao meu redor,só vejo sofrimento..pessoas que como sofrem por um amor perdido..Lembra-se o que fizes-te comigo? Mesmo aqui onde estou... meu corpo ainda têm as marcas que deixas-te com aquele facão... Lembro-me quando dizias... tens um corpo lindo e ele é fruto do pecado... cobiça de muitos homens... algo jamais sonhado pelos fracos homens... e então você levantou o facão para o céu e começou a minha desgraça... acho q a única coisa inteira que restou foi o meu cabelo... algo que o você não podia ferir... e muito mais q isso... MINHA ALMA.... nela não tocaste... e nunca tocarás... espero te encontrar um dia... porque pagarás pelo que me fez.... e muito mais sofrido que possa imaginar... muito mais doloroso e lento... pode apostar... hahahaha... cuide-se... a dor chegará...

CHARLISE DE ORLEANS

sábado, outubro 07, 2006

A CRIATURA DO MAR


A CRIATURA DO MAR

Autor: Paulo Soriano (www.contosdeterror.com.br)

Não sei como sobrevivi. Se é que sobrevivi verdadeiramente.

O Urano, um galeão de bandeira grega, saíra do porto de Roterdã com destino às Antilhas, com escalas em Lisboa e nos Açores, mas foi surpreendido por uma tempestade, a poucas milhas do arquipélago. O dia estava claro e o ar diáfano. Respirava-se uma atmosfera luminosa e pura. Mas, de repente, do nada veio uma neblina fria, pegajosa em seus múltiplos tentáculos, que engolfou o galeão como a mão de um deus inclemente. E depois veio a chuva, uma chuva áspera, pesada, e contínua, encontradiça apenas nas regiões mais agrestes e desoladas dos trópicos. Então ribombaram trovões. Os raios retalharam a neblina como finíssimas garras nervosas. Sentimos todo o casco estremecer, perfurado pelos gumes afiados dos arrecifes angulosos. O casco rompeu-se docilmente, como se a sua substância fosse tênue como o invólucro de um ovo. A água jorrou por todos os lados e eu fui violentamente arremessado ao mar. Embora fosse dia, a névoa densa convolava tudo em treva, e foi com muita sorte que consegui segurar-me a um barril de vinho em que um velho companheiro já havia buscado refúgio.

A tempestade amainou, mas o ar continuava saturado pela neblina fria. O mar estava incrivelmente calmo, mas não nos era admitida a projeção de um olhar capaz de perfurar a espessura de toda aquela névoa. Nada mais se enxergava. Mas, de longe – muito longe, supúnhamos –, o vento trazia uma canção melodiosa, cuja origem nos parecia um mistério tão espesso quanto o eram as brumas circunstantes. Quando, finalmente, a treva se dissipou, tão inesperadamente quanto viera, eu e meu companheiro constatamos que não estávamos sós. Com horror, verificamos, aos poucos, que muitos corpos flutuavam no espelho d’água, bem próximos de nós. Eram marinheiros do Urano e todos eles traziam, singularmente, as cabeças decepadas. Os corpos desolados exibiam os pescoços cruelmente dilacerados. E não nos e era possível estimar a dimensão das mandíbulas que produziram tamanha aberração.

Anoitecia. Oh, como era linda a moça que vinha ao nosso encontro, em seu bote gracioso, para nos salvar! Com que elegância e delicadeza nos estendeu os braços brancos e majestosos! Com que cuidado deu-nos água, vinho e pão! Era ela diáfana como o orvalho da primavera e longos eram os seus negros cabelos, que a brisa enfunava com uma meiguice sem fim. Vestia uma túnica branca, como de deusa grega, que descia do colo e lhe escondia completamente os pés.

Quando a noite veio, repleta de luar, a nossa salvadora acendeu o lume e nos cantou maviosamente, como nos cantaria uma sereia. Quando meu companheiro adormeceu, a musa chamou-me a si e me selou com um beijo calmo e profundo. A princípio doce, saboroso, seivoso... Mas a seiva azedou, ganhou uma consistência de uma gosma, repugnante como o sabor de ostras apodrecidas. Nauseado, o meu companheiro despertou. Fora a intensidade do cheiro pútrido, de criaturas marinhas decompostas, que a mulher exalava, que o fizera acordar-se. A verdade é que eu queria me desvencilhar da criatura, mas não podia. Estava preso a ela como ostras incrustadas nos cascos de navios avoengos. Então a coisa me repeliu. Avançou para o meu amigo, engendrando um bote assustadoramente rápido e eficaz. Seus olhos, que agora eram dois imensos globos de azeviche, refletiram o grito inerme do meu companheiro. E da fralda de sua túnica escapuliu, pesadamente, a cauda de peixe, a mesma cauda que ela tão bem escondera de nós, mas que agora, em sua excitação, pôs-se a abanar num ritmo frenético. Percebi, na luninescência que o candeeiro irradiava, que a pele da coisa se rompia, rasgava-se em tiras, desnudando malhas de escamas sobrepostas, fortemente unidas entre si, mas maleáveis, escuras e fétidas. Seu rosto se fazia bojudo, opaco, guarnecido de fortes e salientes mandíbulas, encrespadas por dentes anavalhados. Então aquilo distendeu assustadoramente os maxilares, de onde escorria uma gosma fétida, e, num assalto voraz, lacerou a cabeça de meu amigo. Com horror, vi que a coisa se punha a mastigar e a engolir ruidosamente, com uma voracidade somente comparável ao deleite que o triturar do crânio lhe produzia.

Depois, a coisa atirou-se ao mar. E, enquanto lentamente se afastava, a Lua me permitia ver que a sereia retomava, aos poucos, do púbis para cima, a bela forma de mulher.

Novamente anoitece. A brumas vieram e agora se dissipam. Estou trancafiado num catre de um pequeno barco pesqueiro. O mesmo que me recolheu, há dois dias. Julgam-me louco. Não me ouvem. Mas, como eu gostaria de gritar aos homens do bote salva-vidas – que consigo divisar da escotilha esfumada desta cela imunda – para que não se aproximem aquela mulher. “Oh! – eu diria – Não socorram aquela coisa de túnicas brancas e cabelos negros! Oh, não socorram o demônio cruel que, como um anjo indefeso, clama por socorro em um bote à deriva!”

quinta-feira, outubro 05, 2006

Um encontro com o Demônio



O PRIMEIRO CONTO QUE EU PUS NO RECANTO DAS LETRAS, ESPERO QUE GOSTEM

ABRAÇOS A TODOS DA IRMANDADE DAS SOMBRAS, O UNDERGROUND DO TERROR BRASUCA NA INTERNET

Estava chovendo aquela noite, e fazia muito frio também, afinal o inverno paulistano costuma ser muito rigoroso nessa época do ano, e para muitos não era algo tão terrível, pois a essa hora estavam dormindo debaixo de seus tetos, em suas camas confortáveis, cobertos e aquecidos, mas para muitos, como os moradores dessa praça no centro da cidade, era realmente terrível e não só pelo frio, mas também pela chuva que cismava molhar seus corpos mesmo quando tentavam se proteger embaixo de uma arvore ou marquise. Em um dos bancos, embaixo de uma arvore estava J., deitado pensando na sua vida, ou sobrevida como costumava chamar, pois aquilo não era vida, aquilo era o próprio inferno, um inferno gelado naquela noite. Olhava a chuva, e os pensamentos vinham em sua mente, recordações de outros tempos, recordações daqueles dias...
“...era um dia muito bonito até e eu tinha acordado muito feliz, como já não fazia tempos, olhei para o lado e ela estava lá deitada, dormindo como um anjo, olhava para ela e não conseguia acreditar que ela me traia com outros homens e naquele dia olhando ela, com a luz do dia atravessando a janela, não acreditava realmente. As pessoas falam demais pensava eu, mas eu estava errado, mais do que eu imaginava que pudesse estar. Tomei um banho, escovei os dentes, tomei um belo café da manhã e fui trabalhar. Não tinha muito trabalho e eu resolvi ir para casa mais cedo, afinal era o último dia da semana e até meu chefe havia ido embora, porque não ir. Passei antes de chegar em casa num mercado e comprei algo para comer e beber, pensava que porque não fazer um agrado a ela, ela merece e eu estou tão bem hoje, meu Deus como pude ser tão idiota. Cheguei em casa e ao abrir a porta ouvi uma música baixa e vozes de homens. Deixei tudo no chão e subi as escadas até o nosso quarto e vi ela com outros dois homens fazendo... merda e eu não consegui fazer nada além de sair do quarto e sentar na porta e deixar ela terminar. Ouvia os gemidos, os gritos dela, aquilo me cortava por dentro, me sentia um nada, um lixo. Algum tempo depois, percebi que eles tinham terminado e me escondi atrás de outra porta, a do quarto de hospedes, e esperei que eles saíssem para falar com ela. Corri até ela e lhe dei um tapa no rosto com tanta força que ela caiu no chão.
— Vagabunda, como pode fazer isso comigo?
— Porque você é um frouxo, um merda, que nem me satisfazer direito você sabe!
— É que você queria mais, queria ser metida por dois ao mesmo tempo, sua puta!
— Queria sim! Sou mesmo uma vagabunda. E você não passa de um corno!
Aquilo estava ficando insuportável, e eu apenas virei as costas em meio aos seus gritos histéricos e sai dali...”
Depois daquele dia, acabamos nos divorciando e ela com a ajuda de alguns amigos (muitos até amantes), pagou bons advogados, acabou no final ficando com tudo que era nosso, não sei como até hoje, mas ela conseguiu, acabou comigo. Depois de um tempo acabei perdendo meu emprego, meus amigos, minha vida, e tudo que me sobrou foi essa praça e esse trapos que estou vestindo.
Dormir eu não estava conseguindo, o frio, a chuva e aqueles pensamentos na minha mente, não me deixavam em paz nem um segundo. De repente reparo em algo estranho: uma senhora vestida de preto, com um xale vermelho escarlate cobrindo sua cabeça, olhando o chão. Não via direito seu rosto, nem outros detalhes mas o que mais me chamou a atenção para aquela senhora era que a sua volta parecia estar seco e se dava a impressão de estar quente, mesmo com toda aquela chuva, estava seco, como podia, mas pensei ser só impressão causada pelo meu sono e um pouco pela fome que estava passando. Não demorou muito e reparei que ela também olhava para mim agora e me fez um sinal que me pareceu um convite para me aproximar (confesso que começava a sentir um pouco de medo).
Pensei um pouco e resolvi me aproximar. Sentia uma leve sensação ruim, mas minha curiosidade era maior que aquele simples arrepio que sentia pôr dentro. Aproximei-me dela e me fez um gesto para que eu me sentasse ao seu lado. Me sentei e virei o rosto em sua direção e pude ver seu rosto com mais detalhes: era bem enrugado, com varias marcas, seus olhos eram pretos e pareciam não Ter pupilas, seu cabelo era bem preto o que não seria muito comum para uma senhora na idade que ela aparentava. Tinha um queixo pontudo, e orelhas grandes e compridas, bem mais que o normal. Reparei também que sua roupa estava suja de algo que parecia terra e que suas mãos além de tão enrugadas quanto seu rosto, tinham grandes unhas pretas e pontudas, como unhas de algumas raças de cães. Ela virou seu rosto para mim e deu um sorriso sarcástico, o que me fez notar que seus dentes eram todos podres.
— Olá J.
— Como sabe meu nome? Perguntei eu bastante intrigado
— Ora J., eu te conheço, conheço sua vida.
— Como? Perguntei eu, agora assustado mesmo.
— Não pode imaginar quem eu sou
— Não.
Ela deu um novo sorriso, e olhou no fundo dos meus olhos e eu vi aquela cena, da minha mulher com aqueles dois homens no nosso quarto, como se a tivesse vendo ao vivo, como naquele dia. Desviei o olhar e ouvi que ela deu uma leve risada. De repente veio uma idéia a minha mente, uma idéia de quem poderia ser aquela velha. Me recusava a acreditar em aquela hipótese que veio a minha mente aquela hora ser verdade, mas algo me dizia que era: estava diante do demônio.
— Conseguiu entender quem está diante de você
— Você é um..., pensei um pouco, gaguejava muito mas falei... demônio
— Não sou um demônio. Sou o demônio, Satanás ou Lúcifer se preferir.
— Meu Deus. Disse eu meio pôr impulso
— Deus, que invocar Deus agora. Veja só sua vida, olha o que Deus fez a você
Ao dizer isso olhei para minhas roupas e minhas mãos. Tudo sujo e rasgado, e apesar de tudo, agora naquela situação, achei mesmo que era tudo culpa de Deus.
— Porque você apareceu a mim. Falei eu baixo, mas com um pouco mais de coragem
— Não tenha medo. Eu só quero te ajudar, te dar a ajuda que Deus não quis lhe dar
— O que? Disse eu já com uma voz alta e segura
— A se vingar o que mais, não é esse seu maior desejo
— Sim!
— Então não quer se vingar
— Sim eu quero
— Não quer matar aquela vadia?
— Sim! Disse eu agora com uma mistura de prazer e ódio
— Então, te darei essa chance, de matar sua mulher
Ao dizer isso um prazer demoníaco me consumiu e todo ódio que sentia pôr aquela que tinha destruído minha vida aflorou. Vi a chance de me vingar e queria aquilo mais do que tudo agora.
— E o que você ganha em troca?
— Uma alma, sua alma
O sangue congelou em minhas veias e senti o arrepio mais gelado da minha vida corre minha espinha. Ele queria me levar ao inferno, queria que eu lhe vendesse minha alma, como eu faria aquilo? Como....
— Pôr que você tem tanto medo? Não quer me servir, prefere servir ele – disse isso e apontou para cima – é isso que prefere, ele só quer que você o adore pro resto da eternidade, eu não, só quero que você seja um dos meus homens na batalha final contra ele. Fique do meu lado, do lado dos vitoriosos.
Pôr mais que tenha ouvido falar sobre céu e inferno, Deus e o Diabo e tudo isso, pôr deveria acreditar nos outros, nos que me excluíram quando eu precisei. E Deus? Porque crer nele? Tinha a chance de me vingar e não iria a perder.
— Irei ser seu solado é isso?
— Sim claro, e quando chegar a hora, você lutará junto com os outros contra Ele.
— Então eu aceito, me de minha vingança e eu serei seu soldado.
— Então que assim seja!
Dito isso tudo ficou escuro e quando vi alguma coisa, vi minha casa, a casa que eu perdi e onde ela estava. Vi também que minha roupa tinha mudado: era a mesma que eu estava usando naquele dia em que ela me traiu – uma camisa verde claro, uma calça jeans azul claro e sapatos pretos. Olhei para o lado e vi um cachorro todo sujo e machucado e com marcas de sarna pôr todo corpo até as orelhas. Estava pronto para chuta-lo dali quando reparei em seus olhos, pretos como os dá..., agora eu entendi, era ela (“ele”, melhor dizendo). O cachorro foi até a porta da frente, parou na frente dela e olhou para mim, como se dissesse para eu vir a ele. Cheguei perto dele e da porta, tentei abri-la e para minha surpresa ela abriu. Entrei dentro da casa e ele logo atrás, olhei a entrada me lembrando dos velhos tempos, quando eu chegava do trabalho cansado e sentava no sofá da sala em frente, onde ficava minha televisão e meu rádio. Ele caminhou até a cozinha e indo atrás dele, vi ele parado do lado da mesa de jantar e uma faca de cozinha brilhante, como se tivesse sido lustrada, com um cabo preto, grande e afiada em cima dela. Peguei a faca e a contemplei, logo depois olhando a direção da escada. Olhei para ele, mas ele ficou onde estava, até voltou o olhar para mim, mas voltou o olhar para frente e ali ficou, passei então pôr ele e caminhei até a escada com a faca nas mãos. Subi degrau pôr degrau bem devagar e silenciosamente, cheguei ao topo e novamente parei e recordei os bons momentos. Como era bom chegar em casa e ver aquele corredor, com meu quarto no final dele e com minha..., parei de pensar e caminhei até o quarto. Cheguei na frente da porta segurei a maçaneta, respirei umas três vezes bem fundo – meu coração parecia que ia sair pela boca – e abri a porta vagarosamente. Vi ela deitada na cama de bruços, sozinha, bem no meio dela. Usava uma camisola rosa claro, uma que eu tinha lhe dado em um dos seus aniversários e que ela dizia gostar muito. Estava meio coberta, meio descoberta e a luz da lua refletia sobre lua. Olhei aquilo e pensei em desistir, dei até um passo para trás, mas ao olhar para baixo ele estava lá, olhou bem no fundo dos meus olhos e novamente eu vi aquela cena, abaixei a cabeça, fechei os olhos e me aproximei da cama. Fiquei bem ao seu lado, levantei a faca no máximo que conseguia e lhe dei o primeiro golpe, perto do coração, mas só lhe acertei um ombro. O sangue jorrou pelo corte e molhou toda cama; ela acordou com um grito de pavor, se arrastou para o lado e eu lhe dei outro golpe, dessa vez na perna.
— Ahhh! O que está..., o que está fazendo, pare! Gritava ela apavorada e chorava muito.
— Cale a boca! Disse eu e lhe dei outro golpe, dessa vez no braço.
— Pare, pelo amor de Deus! Pôr favor! Não!
— Morre vadia!
Dito isso golpeei-lhe o pescoço com toda minha força. O sangue jorrou no meu rosto e nas paredes, ela deu um último grito, caiu na cama e morreu. Joguei a faca no chão e dei um grito. Corri daquele quarto, desci as escadas com o coração acelerado e de um vez cheguei do lado de fora. Tinha me vingado, tinha me vingado até que enfim. Olhei bem para frente e lá estava aquela velha, olhando para mim com um meio sorriso.
— E então, gostou?
— Sim, muito. Disse eu olhando para o sangue nas minhas mãos. Matei a vadia!
— Isso, muito bom. Agora você é meu servo.
— É eu me lembro, quando morrer irei te servir.
— É, pena para você que isso não vai demorar.
— Do que está falando...
Comecei a sentir uma forte dor no peito que começou a se irradiar para meu braço. Cai ajoelhado e olhei para cima, vendo a velha me olhando e rindo.
— Comendo aquelas porcarias, bebendo, fumando e usando aquelas drogas, achou que ia viver até quando? Disse ele dando uma gargalhada alta e grossa.
— Não posso morrer! Não agora! Não me deixe...
A dor aumentava e eu comecei a ver tudo escuro. Meus olhos foram ficando pesado e meu corpo também. Cai e não senti mais nada, mas logo senti meu corpo e meus olhos conseguiram se abrir novamente. Estava num lugar sujo, com várias ruínas pôr todos os lados. Pessoas magras e sem vida no rosto vagavam pelo lugar e me vendo, começaram a se aproximar. Chegando perto começaram a me bater, tentei fugir e depois de um pouco de luta consegui. Corri olhando para trás e ao olhar para frente vi uma mulher com o braço, o ombro e o pescoço cortado; era ela que veio me dar as boas vindas a meu eterno sofrimento...

LINX

quarta-feira, outubro 04, 2006

SUBMISSÃO




Por Lady Catherine Gordon of Gigth

Lasciva que sou,
Lascivo que és,
Das virtudes desfeita, em meus delírios sorvendo sangue de vossos pés!
Serva perversa em desespero impassível
O lamento em meus lábios,
Amaldiçôo, pobre de mim, minha sorte, meu revés,

Apesar da laje que te cobre, ainda posso ver-te
Do solo fétido, da nevoa de vermes e do gramado verde,
O riso de escárnio breve, gentil verdugo,
Estás na podridão e eu embriagada, sob o teu jugo!
Até o mais vil humano se apiedaria,
Os olhos a revirar no êxtase dos lábios teus!
Meus lábios a venerar da tez de Mármore a glória
Teu aroma em minha carne, teus olhos doces na memória!
Das profundezas meu sangue clama
Meu verdugo, Impiedoso,
Teu olhar malévolo, capuz infame,
O machado sanguinário

Imploro-te, sê o meu sudário!Retorna!
Eis o clamor que regurgito!
Atravessa o cal, quebra o mármore
Irrompe do tumulo, maldito!

VELÓRIO DANTESCO


Por Cláudio Soriano e Roberto Brandão.
Havia, numa sala jamais iluminada pela felicidade, um móvel escuro, sombrio, pessoal. Tão pessoal que sempre o usamos uma inédita e única vez na vida ... ou na morte.
Um corpo jazia frio e inerte, sem observar — porque não podia — as pessoas que em prantos ali estavam. Elas tocavam o esquife dolorosamente. Muitas adjacentes ao caixão permaneciam. Choviam gotículas garoentas naquela fúnebre cerimônia.
Todos sustentavam a idéia de que ele estivesse realmente morto — porém, não! A catalepsia vem para este infeliz de maneira trágica; a anomalia estréia de forma decisiva.
O cataléptico, jazido ali, em sua geométrica caixa fúnebre, num velório dantesco, não podia ver ninguém, mas ouvia com uma perfeição lupina!
Apavorado com a terrível situação, sabendo de um provável sepultamento, desespera-se com a macabra oportunidade: ao término do prazo de enumação, quando desenterrado for, estará horrendamente revirado, como quem não goste de descansar na tradicional fúnebre posição.
Tenta mover um músculo que sugerisse aos parentes alguma referência de sua existência como vivo, mas não obtém êxito... já não adianta mais! Alguns homens já trazem a tampa do caixão: o selo da morte!

OSSADAS ESQUECIDAS


Autor: CLÁUDIO SORIANO

Sob a efígie do monumental deus da morte, Tanatos, estabelece- se a sepultura da criatura humana; a vala que a todos enterra com extremíssima simplicidade.
A estátua marmórea observa atentamente o processo da putrefação. Antes, vivo e alegre a respirar, o homem; agora, crânio e túmulo, ossadas esquecidas, entregues ao tempo.
Assim, Tanatos mais uma vez profetiza: “ O que se ergue do pó, que deste se surge, a ele retorna; engulo todos os homens, inclusive aqueles que não me temem!”
Os outros sepulcros coexistem de maneira secundária, formando uma extensa necrópole. Contudo, seja Tanatos o rei dessa temida vastidão.
Mas, tentando fugir do implacável destino que vos aguarda, caro leitor, não podeis entregar os vossos restos ao esquecimento eterno; algumas ervas daninhas da vida ainda podem ser regadas, pois!

terça-feira, outubro 03, 2006

PESADELO




PESADELO

POR: HENRY EVARISTO


Noite passada sonhei com uma invasão de alienígenas. Vi milhões de naves, pequeninas e gigantescas, avançando por sobre os prédios de uma grande cidade adormecida. De algum ponto de uma região rural em que me encontrava, sentia-me impossibilitado de auxiliar quem quer que fosse, meus entes queridos, meus amigos, meus inimigos. Tudo para mim agora se acabava na visão daquelas luzes multicores oscilando por sobre os campos longínquos abaixo de um céu revolto de tempestade. Uma tristeza tão profunda se apossara de mim que o peso em meu peito quase chegava a ser ainda maior que o medo da violência que parecia se avizinhar.

Com lágrimas em meus olhos corri por uma estrada deserta que cortava extensa e sombria região de fazendas antigas e silentes e, à falta de qualquer avistamento de alguma criatura humana, meu corpo tremeu como o de uma criança perdida no escuro de seu quarto quando lá fora o vento açoita os galhos de alguma árvore ancestral que lança sombras como diabos dançantes nas vidraças. Do horizonte chegava aos meus ouvidos como que o zumbido de algum engenho demoníaco misturado aos lamentos dos primeiros homens e mulheres massacrados pelas intenções que se apoderavam da terra. Senti o frio da madrugada ardendo em meus pulmões enquanto continuava avançando por tamanha escuridão solitária, e então me chegou às narinas o hediondo odor adocicado de algum tipo de carne escusa que queimavam ao longe. Junto a tudo, como que para piorar ainda mais meu horror, havia a fina chuva que caia e que tornava o mundo ainda mais soturno e terrível.

A estrada parecia não ter fim e minha exposição naquele lugar aberto colocava cada vez mais minha vida em risco. Eu, porém, apenas conseguia pensar naqueles que me eram caros e que, misteriosamente, naquele momento, se encontravam longe de mim. Meus pensamentos me faziam avançar cada vez mais rápido a despeito das possibilidades de meu corpo que já começavam a me abandonar. Em minha mente via aqueles veículos alados, discos voadores prateados e cinzas, atacando impiedosamente os lugares que me eram caros pelos quais pareciam ter uma nefanda predileção; e contra tudo o que eu mais amava eles incidiam com fúria titânica. Era como uma perseguição cósmica; como se aqueles inimigos houvessem saltado de seu porão no universo para liquidarem especificamente comigo e, em meus loucos devaneios, até mesmo suas caras repuxadas se assemelhavam à minha enquanto apontavam suas estranhas armas para os meus familiares.

Alucinado corri e corri por aquela estrada escura e as cinzas dos mortos da terra me cobriam as vestes ensopadas. Por todos os lugares via agora os executores dos homens. Podia enxergá-los saindo de detrás das árvores que margeavam meu caminho. Soube então, agora mais do que nunca, que finalmente estava só no mundo e a mortificação desta vez me dominou por completo fazendo-me dobrar os joelhos e desabar sobre o asfalto úmido embaixo de meus pés.

Prostrado fiquei no meio daquele caminho que era antes um solitário corredor de campos, fazendas e matas longínquas, mas que agora fervilhava com a presença ominosa de seres metade pássaro, metade peixe. Dominado por um medo mortal, curvei minha cabeça num desesperado sinal de submissão pelo qual talvez tivesse minha vida poupada. Depois de alguns minutos uma daquelas coisas "peixe-pássaro" se aproximou de mim flutuando num uniforme translúcido que deixava a vista sua pele flácida e asquerosa. Ela me olhou e tocou-me com uma de suas mãos... Ou... Patas. Depois falou qualquer coisa com os outros que nos rodeavam e então, ó agonia minha, todas aquelas bestas começaram a rir de mim e apontar-me com suas garras encarquilhadas.

No momento seguinte, todos, de uma só vez, desapareceram. E todo o som e toda a cinza se escoaram junto de forma que tudo voltou a estar imerso em silêncio e calma como estivera antes, em seus dias comuns. Como se nada daquilo houvesse existido, me encontrei só novamente no meio da estrada. Mas um sentimento esmagador de inquietação começava a me dominar para além de tudo o que eu já experimentara até então.

Calado e atento avancei para a cidade e, por onde passei, mesmo depois do amanhecer, jamais avistei outra presença que não fosse a da minha própria sombra se arrastando atrás de mim. Não restara mais ninguém em todos os lugares que visitei e, nos anos seguintes, em minha triste solidão, me aventurei por todos os recantos que me eram humanamente possíveis sem o auxílio de um automóvel; visto que todas as máquinas estavam paradas, queimadas, mortas como o resto do mundo. Porém, suas carcaças continuavam intactas brilhando ao sol como vi em uma enorme rodovia abandonada ao sul: milhares de carros, vans, caminhões; Inertes como se tocados pela morte que toca o homem; E aquilo servia apenas para demonstrar para meus nervos abalados que o poder que viera com os estranhos ainda estava presente de alguma forma e que, algum dia, era provável, seus proprietários voltariam para reivindicá-lo.

Estabeleci-me bem alto em um edifício de luxo quando entendí que agora tudo me pertencia. Com o passar do tempo meu organismo acostumou-se a ingerir e processar os mais diversos tipos de alimentos não comuns ao homem.

Toda noite ia até a janela e observava a escuridão lá fora. Jamais avistei sequer o brilho de alguma ínfima luz no horizonte e as silhuetas dos prédios imersos nas trevas se assemelhavam a terríveis animais gigantes me espreitando do escuro. Do alto, as estrelas com seus fantasmagóricos brilhos bruxuleantes eram as únicas testemunhas de minha agonia; elas e as caras repuxadas que se esgueiravam por trás. Esperava avistá-las, a qualquer momento, olhando de volta para mim em meio às trevas do mundo.


Assim foi o meu sonho... Meu pesadelo. Não sei até que ponto ele faz sentido a não ser como testemunho de nossa solidão eterna em meio à vastidão opressora de um universo mal-intencionado.