segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A Carta de Alberto Edwin

Por Luciano Barreto e Luiz Poleto

“Deverá, pois, quando for culpado numa destas coisas, confessar aquilo em que houver pecado.” – Levítico 5:5


Um homem caminhou até o confessionário e ajoelhou-se. O padre, do outro lado, fez o sinal da cruz e quis ouvi-lo.

— Olá padre. Meu nome é Ivan e quero lhe falar algo. Mas não é relativo somente a mim.

— Ora, filho. Fale o que lhe couber. E o restante a própria pessoa fala, se assim desejar. Ela está aí?

— Padre, por favor, ouça o que tenho a dizer.

— Pois não meu filho. – O pároco meneou a cabeça afirmativamente dentro do tribunal de penitência. Ivan criou coragem com um prolongado suspiro, fitou os olhos do religioso pelas quadrículas e começou a relatar.

— É incrível como podemos nos arrepender de atos cometidos, padre. Mesmo que seja um arrependimento coagido, por algo que foge à capacidade humana de conceber como real. – Ivan cessou sua fala por segundos, parecendo concentrar-se no que iria dizer. E assim o fez.

— Dizem que Alberto Edwin era louco. Não era! Fui seu melhor amigo e pude perceber que era um homem de extrema sensibilidade. Morreu há exatamente um mês. Ontem eu subi, pelas janelas do vizinho, um paredão que cerceava sua casa e vi dois tijolos. Alberto gostava muito de ficar naquele paredão, contemplando o horizonte. Era uma obra bem larga e alta, comparando-se com paredes tradicionais. Mede quase um metro de largura e ostenta mais de oito metros de altura. Ele era de família abastada, talvez o senhor o conhecesse. Um sujeito um tanto esquecido para a realidade, mas não era doido. Isso não. Era uma pessoa especial. E não era para viver nesta época. Tudo terminou quando ele escreveu isto. – O penitente revelou um papel aos olhos observadores do clérigo. — Seu último contato comigo. Embaixo dos tijolos estava esta carta. Eis o escrito. – Ivan passou a missiva ao homem que o escutava por fora do confessionário. — Leia em voz alta, por favor. – O padre abriu o documento, lançou um rápido olhar nas primeiras linhas e começou a ler.

Caro Ivan, o pessoal estava banhando-se na piscina. Mas o céu está plúmbeo. Trovões ribombam vez por outra. Em poucos segundos, todos se guarnecerão quando cair as primeiras gotas de chuva. Estou aqui em cima do paredão. Estou sentado olhando o horizonte. Vi uma fila de homens-cacto caminhando, macambúzios, o horizonte chuvoso. Vi seus semblantes espinhosos. Pareciam sofrer. Não pelos espinhos que são inerentes à sua natureza, mas por alguma situação que minha sensibilidade ainda não aventou causa.

Amigo, lembra-se do Ohuthir? Se não, o recordarei. É um guia. Um enviado para acompanhar certas pessoas ao mundo. Acho que você já está se lembrando. Ele está do meu lado agora! Está falando ao meu ouvido.

Ivan o interrompeu:

— O ser em questão, padre, era um que Edwin jurava que o acompanhava, cuidando para que morresse da pior forma possível. Isso ele me disse segurando meu ombro com extrema força, após descobrir a meta do ignóbil acompanhante do outro mundo. Apesar de eu nunca tê-lo visto e nem ele. Era apenas uma voz a qual se juntava a ele em alguns momentos. – Ivan agora parecia um tanto atemorizado, pois trespassava os dedos por entre as quadrículas, que o separava do homem de batina negra, e ostentava olhos arregalados. — Mas como relatei antes, ele era muito astuto e nunca se enganara nas confabulações maléficas de Ohuthir. Edwin tinha sede de vida! Apesar de conhecer o que e saber de suas intenções, Edwin nunca deixou o Ohuthir ir embora. Até criou um epíteto para ele: o esperto. Mesmo sabendo que estaria fadado à derrota nas mãos de meu amigo, o ser invisível também nunca o abandonou. Decerto cultivaram amizade. Se é que pode existir amizade entre um pretendente a carrasco e um possível condenado. Continue padre, continue! O interlocutor pigarreou e continuou. Ivan continuava com as mãos espraiadas e os dedos vazando os pequeninos quadrados do confessionário.

O esperto disse que hoje eu deveria viajar com ele. Imediatamente, indaguei se essa viagem era a morte. Ele negou. Mas como confiar nele? Eu gosto de sua companhia, no entanto não confio nele. Acho que tenho motivos para isso! Ele alegou viagem para abstrair meus pensamentos. Torná-los mais filosóficos.

Desta vez aceitei. Intui verdade em suas palavras. O esperto calou-se por segundos desconfiando de minha resposta. O Ohuthir é muito limitado. Não possui sensibilidade alguma. Se possuísse saberia que digo a verdade. Saberia que digo a verdade como ele a diz agora neste convite para passear pelo mundo. Um passeio sem sair deste paredão. Um passeio mental conduzido pela voz chirriada de uma entidade invisível. Ele pediu para eu colocar os óculos. Indaguei-o que óculos? Mas quando desviei o olhar para o lado direito, mesmo não o vendo, mas a voz vinha daquela direção, eu vi um par de óculos redondos e antigos. O objeto recebia as primeiras gotas d´água.
Vesti-os e nesse momento as coisas começaram a acontecer.Ventos principiaram perto de meus dois ouvidos e sibilaram estranhos sons. Eu parecia mover-me a uma velocidade nauseante. Mas pela visão periférica via que ainda estava no paredão, a receber a chuva caindo do céu plúmbeo. Contudo me concentrei no movimento que em poucos segundos tornou-se um vórtice nublado demais para meus olhos. Rapidamente cheguei a uma vila. Havia pessoas nanicas correndo por um descampado poeirento. Elas nutriam medo de alguma coisa. Tremiam sobre o chão seco daquele lugar. Ao que me consta pareciam japoneses. Então ouvi tiros. Vários tiros. A realidade era tamanha que tentei me proteger. Um exército brotou das matas secas. Uma investida apavorante. Exterminou aquela multidão um tanto nanica e avançou pela planície. Eu não sofrera nenhum arranhão.

Após a hecatombe, senti algo atrapalhando minha visão. Pisquei os olhos e estava, outra vez, a encarar o vórtice brumoso. Clarifiquei minha visão numa praça antiga. Homens ostentando chapéus de couro. Uns sobre cavalos e outros a pé. Algumas mulheres trajando enormes saias sobre bisonhas armações. Modelos bem antigos. Escutei um alarido num coreto. As pessoas gritavam enfurecidas. No cavalgar dos eqüinos e nos passos apressados das pessoas sobreveio uma poeira do chão. Havia um cadafalso. Três homens estavam sobre o coreto. Dois encapuzados e um outro, de barba hirsuta, que parecia comandar os trabalhos. Quando o barbudo fez um movimento decidido com as mãos, espalmando-as para o ar. Um dos encapuzados puxou violentamente uma ripa de madeira e o outro afundou num vão que surgiu a partir do movimento. O homem desceu no buraco até a cintura. Ficou preso por grossa corda através do pescoço. Para o deleite dos presentes, seu corpo balançou já cadáver. O verdugo tirou o capuz e, com horror em minha mente já bastante tresandada por aquela viagem inoportuna, vi que o homem o qual executava o condenado não tinha cabeça. Apenas um tétrico e imbecil pescoço que não terminava em nada. Os outros ao redor pareciam não reparar aterrador detalhe.

Ouvi a palavra “vamos” e o redemoinho reiniciou a frente de meus olhos adriçando poeira do solo. Eu senti meu corpo leve. Em vão, tentava esbofetear as nuvens que atrapalhavam minha visão e quando vi, esbofeteava areia grossa e quente. Parei os movimentos, pois ouvi gritos. Olhei o horizonte, os homens-cacto ainda caminhavam tristonhos sobre areia fofa. Eu estava num deserto. Meus olhos viram e minhas mãos gelaram mesmo sob o forte sol daquele lugar. Uma menina, que mais parecia um animal, com enorme língua bífida cuspia uma substância esbranquiçada sobre um homem de meia-idade. Ele retrocedia a cada investida. Quando escutei os gritos horrendos dela também eu retrocedi. Falava em vários idiomas frases que não soube detalhar. Mas que, garanto, não eram aprazíveis. O sol ardia meu corpo. Eles não me viram. Mas eu os via muito bem. E também via, assistindo a cena sobrenatural, outro homem. Um homem gordo e peludo. Ele me viu, mas nada gesticulou nem falou. Nisto a areia começou a levantar-se sob meus pés e fiquei dentro de um tipo de tempestade de areia. Então novo vórtice começou. Era outra viagem a algum lugar.

Agora tinha parado numa estrada. Parecia bastante com os dias atuais. E creio que era. No máximo ano passado ou ano que vem. Nevava demais. Era um posto de gasolina. Eu estava perto da bomba de abastecimento quando apenas vi, e não li, frases escritas numa outra língua, parecia usar letras do alfabeto cirílico. Desviei a atenção para um motociclista que e pedia para o frentista velho e magro completar o tanque da moto. O funcionário preparava a bomba de combustível, no entanto aproximou-se um carro preto. Parou ao lado da moto e um homem magro apontou uma enorme pistola cromada para o motociclista. Este somente levantou as mãos. Ouvi dez ou onze tiros. Depois o carro arrancou e sumiu na estrada. O frentista havia se escondido atrás de uma das bombas. Eu me escondi atrás de um mourão que sustentava a cobertura. O homem da moto agonizou duas vezes e morreu com a mão esticada. Ele apontava para o carro que sumia no horizonte. Horizonte este que me mostrou, outra vez, os homens-cacto a percorrem no crepúsculo cândido os contornos horizontais. E a imagem do homem caído e do frentista tentando ajudá-lo girou nos meus olhos. Era outro redemoinho do tempo.

O esperto havia me levado de volta ao paredão ao lado de minha casa. Retirei os óculos e olhei a chuva tamborilando a água da piscina.

Ivan, pensei nos problemas que o mundo tem. Pensei na maldade do homem. Pensei na maldade das coisas sobrenaturais. Enfim nada me agrada neste mundo. Vou pular do paredão. A voz do Ohuthir pediu para eu tomar remédios. Ele além de meu amigo, deseja morte tranqüila para mim agora. Quer que eu morra sem muita dor. Pediu para tomar remédio para dormir e em seguida ingerir veneno de efeito tardio. Disse que eu estaria dormindo quando morresse. Não quero. Quero sair deste corpo agora. Quero saber o que pode vir para mim de melhor. Ou quero tentar tudo de novo com outras idéias. Minhas atuais idéias não servem para este mundo. Daqui de cima posso mergulhar na piscina. E se o fizer tenho chance de viver. Afinal ela é funda. A mãe, o pai e a Ana gostam de nadar e não têm medo da profundidade. Mas meu mergulho será no chão. Cabeça dura no chão duro não é mal, não é?Estou indo amigo. Pensando melhor não sou tão cabeça dura assim, pois queria muito viver e agora quero morrer. Cabeça dura ou não, vou pular. Esta carta vai ficar aqui no paredão onde meus pais não conseguem chegar e a Ana tem medo de escalar as janelas do vizinho para subir. Sei que você vai subir e pegar a carta. De alguma forma você vai subir no paredão quando tudo se acalmar. Depois de meu enterro, bem depois será o melhor momento. Mostre esta carta a um padre e peça para ele orar por minha alma. E peça perdão por mim. Não a mostre a ninguém de minha família. E se alguém perguntar a você que era meu único amigo diga que não cometi suicídio. Diga que escorreguei do paredão. Não macule minha imagem. Não quero ser lembrado como suicida!

O padre suspirou profundamente e estalou a língua nos dentes em desaprovação à atitude do jovem. Depois garantiu ao outro.

— Vou orar pela alma de Alberto. – Ivan estava de cabeça baixa, mas as mãos ainda presas na divisão do confessionário. Para o transtorno espiritual do padre, ele confessou:

— Padre, quero confidenciar que empurrei Alberto do paredão. Escrevi esta mentirosa carta e toda esta estória é uma farsa. Eu o matei. Planejava contar a mentira e depois revelar a verdade ao senhor, pois há algo pior e o senhor precisava saber os detalhes de minha mentira. – Ivan agora com as mãos encravadas na divisória do confessionário. Estava irrequieto. Algo o aterrorizava.

— Deus do céu. O que pode ser pior que isso? – Balbuciou o sacerdote, após colocar a mão trêmula na testa. Subitamente, o homicida falou desesperado:

— Vou contar tudo! - O padre o interpelou ante o inusitado grito.

— Meu filho, acalme-se. Ainda há algo que eu deva saber? – Perguntou o outro em tom apaziguador.

Ele fitou os olhos do pároco, os dedos já vertendo sangue pelas quadrículas, e rogou com assombro:
— Ore pela minha alma, também. Por isso vim aqui. A mentira tornou-se realidade! Há dois dias, uma voz, num tom perturbador, vive a me atormentar sussurrando destinos tétricos para minha vida. – O padre arrepiou-se ao ouvir aquela frase. O penitente, ainda exasperado, citou que homens-cacto o espreitam das profundezas de qualquer escuridão onde ele estivesse perto. Talvez o sacerdote, antes de saber o motivo que o impelira a se confessar, fosse dizer que o sincero arrependimento poderia salvá-lo, entretanto, com uma voz que de serena passou a assumir um tom tétrico, disse:
— Acalme-se, meu filho. Talvez seja a hora de fazermos uma pequena viagem.
Ao ouvir estas palavras, Ivan desequilibrou-se e caiu sentado ao chão, lançando um olhar assustado e com desespero visível em direção à pequena cabine que outrora encontrava-se o padre.
— Esta voz, não é possível…
Antes que pudesse terminar de proferir sua frase, o padre caminhou em direção a Ivan, que não pode conter um gemido de espanto ao ver que não havia ali nenhum padre. O que estava parado de pé a sua frente era a figura que assolava seus sonhos, um homem-cacto, imponente em suas formas assustadoras. Ivan levantou-se e correu em direção à saída da igreja, ainda sem acreditar na visão que o assolava. Ao abrir a porta, uma nova onda de terror invadiu seu corpo: a pequena rua que o levara até a igreja não mais estava ali. Em seu lugar, um imenso descampado, com o horizonte a perder de vista, banhado por um céu vermelho que refletia sua dura cor por todos aqueles parsecs de distância.
— Não há saída, Ivan. Volte e venha comigo.
Mas Ivan não pretendia juntar-se ao homem-cacto. Deu o primeiro passo, mas recuou, jogando o corpo para trás e caindo sentado na porta da igreja. Logo abaixo dos três pequenos degraus, Ivan pôde ver que não havia chão. Um imenso abismo, tomado por uma escuridão que parecia viva, extendia-se a perder de vista. Olhando mais atentamente, Ivan viu cabeças sem rosto, mãos, braços, olhos que expressavam agonia e sofrimento, todos movendo-se aleatoriamente e criando uma dança infernal que por um momento ofuscou sua vista.
Com medo, à medida que a criatura aproximava-se dele, Ivan chorou; não havia saída. Foi agarrado pelo homem-cacto, e sentiu sua carne perfurada pela enorme quantidade de espinhos que saíam de seu corpo, e, sentindo o sangue escorrer, foi arremessado ao abismo, junto com a criatura.
E fez-se a escuridão.
Quando abriu os olhos, Ivan ainda estava em queda livre, o que fez com que seu estômago virasse do avesso. Agarrado ao seu corpo, ainda estava o homem-cacto; que emitia sons guturais do que parecia ser sua boca. Ao seu lado, milhares de braços e mãos tentavam desesperadamente agarrá-lo, sem sucesso. E novamente, Ivan desmaiou.

Acordou sobre um monte de terra, escura e com um odor pútrido, parecia que havia caído sobre uma centena de corpos em estado avançado de decomposição. Quando seu estômago voltou ao lugar e sua cabeça parou de rodar, Ivan olhou ao redor, e estava no que parecia ser uma pequena ilhota, perdida em meio a um imenso oceano de sangue. Em um ponto distante, percebeu que havia o que parecia ser um corpo caído, totalmente inerte; não havia nenhum sinal do homem-cacto. Cautelosamente, Ivan aproximou-se do corpo, que estava em avançado estado de decomposição, e ficou ali, fitando-o. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando reconheceu aquele que ali jazia: Alberto Edwin. Suas pernas cambalearam, e sua força o abandonou por um momento. Sem poder evitar, caiu sentado.
Novamente, Ivan despertou do que parecia ser o seu pior pesadelo, e voltou a fitar o corpo de Alberto. Não conseguia formular qualquer teoria em sua cabeça sobre o que havia acontecido. “Estaria eu no fundo do paredão?”, pensou.
— Sim, Ivan, estamos no fundo do paredão. É aqui que passado e presente se encontram; vida e morte chocam-se em uma explosão cósmica.
Ivan deu um pulo, coração acelerado e respiração intensa. Olhou para o corpo de Alberto, e eis que este estava de pé à sua frente, encarando-o, embora seus olhos já tivessem sido comidos há tempos.
— Alberto? Mas como? O que está acontecendo? — Perguntou, intrigado e ainda tomado pelo pavor.
— Não percebe? Você nos matou quando pulou do paredão. A sua tentativa desesperada de livrar-se do Esperto culminou com a nossa morte.
— Nossa morte? Não entendo. Eu empurrei você! — Ivan estava agora mais curioso do que nunca.
— Não Ivan, você, nos empurrou. Eu sou você, sempre fui parte de sua mente. — Alberto pronunciava estas palavras da forma mais tranquila do mundo.
— Não é possível! Eu empurrei você para que parasse de sofrer com o Esperto. — Ivan estava agora aos berros.
— Sim, Ivan, tem razão. Você me empurrou, e ao fazê-lo, empurrou também a si mesmo, e ao Esperto. Somos todos frutos de sua mente doentia.
— Não! Não é verdade! E vou provar matando-o mais uma vez.
Ivan correu para cima do cadáver de Alberto, arremessando-o naquele mar impuro. Ao longe, habitando pequenas ilhotas, homens-cacto observavam calmamente, como se estivessem esperando pelo momento certo.

O corpo de Alberto boiou por um momento, para depois dirigir-se às profundezas daquele mar cor de sangue. E, por um momento, Ivan sentiu uma certa leveza em seu interior, como se houvesse livrado-se de algum peso que há muito o atormentava. E o esperto, que antes o atormentava, também havia calado-se. Mas os homens-cacto, que antes espreitavam, agora dirigiam-se para cima de Ivan, como se estivessem flutuando sobre a água. Desesperado, Ivan tentou correr, mas a ilha não era grande o suficiente. Desesperado, começou a gritar, um grito histérico, amedrontado; e os homens-cacto chegaram mais perto, começando a furá-lo com seus imensos espinhos. O sangue já escorria por todo o seu corpo quando perdeu os sentidos, e desmaiou.

Quando acordou, Ivan estava deitado em uma cama, vestido com roupas de hospital; ao seu lado, um homem o encarava de forma curiosa e ao mesmo tempo espantada.
— Andou se auto-flagelando novamente, Ivan? — Perguntou o homem, que parecia ser um médico.
— Não senhor — respondeu Iva, com a voz cansada.
— Então por que os incontáveis furos em seu corpo?
— Foram os homens-cacto, senhor. Os que acabei de lhe contar; os mesmos que assolavam meu amigo Alberto. Acabei de relatar a carta que ele me deixou. O senhor não se lembra?
— Novamente o Alberto, Ivan? E novamente esta estória de homens-cacto? — O médico mostrava um claro ar de desagrado ao ouvir a resposta de Ivan. Virou-se para um enfermeiro e fez um sinal com a cabeça, provavelmente indicando que deveriam sedá-lo mais uma vez.
Amarrado na cama, Ivan só conseguia gritar, em desespero, pedindo para não ser sedado. Sabia que, se isso acontecesse, teria que enfrentar os homens-cacto novamente, e teria que encontrar o corpo em decomposição de Alberto, e estaria perdido naquele mar de sangue e podridão. Mas ele estava fortemente amarrado àquela cama, e nada pôde fazer quando, rapidamente, o enfermeiro o sedou.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Sonetos Sombrios

Três Sonetos de Minha Autoria

Dama Morte

Oh dama porque seres tão tétrica
Sinta em min’alma o desejo de beijar-te
Livre-me de minha prisão de carne
Solva-me a pouca vida que ainda me resta

Leva me aos reinos mais obscuros
Destroça minha carne aos corvos
Conduza-me ao reino dos mortos
Deixa-me entregue ao soturno

Dimensão maldita de homens imundos
Terreno absorto de sangue sujo
Lar sórdido, habitat do mal absoluto

Meu desejo enfim se aproxima
Vejo as nuvens negras acima
E a dama vim enfim selar minha sina



Rosas Negras


Rosas negras ao vento dançam já sem pétalas
Repousam hoje um ramo sobre meu caixão
Restos do que sobrou do pouco de compaixão
Que tinha por mim minha amada etérea

Miserável dor inescrupulosa que nunca termina
Que nem respeita-me em meu leito de morte
Assombra-me pela eternidade minha triste sorte
Os terríveis tormentos de minha sina

Colha cuidadoso as pétalas pelo ar espalhadas
Leva, vento gélido, as mãos de minha amada
Degrada com ferrugem o resto de sua vida desgraçada

Perde-se no ar meu amor platônico divinal
A história que nunca será contada por nenhum mortal
Pois sepultado a sete palmos morre minha esperança afinal


Soneto de Despedida

Morte eis me aqui, de joelhos ao seu julgo,
De braços abertos peço sua piedade.
Punhal cintilante esperando sua vontade,
Repousa sua lâmina rutilante sobre meu pulso.

Oh morte livra-me de tudo, imploro-te;
Dê-me a coragem dos fortes tão necessária,
Pois minha vida não vale mais nada,
A não ser repousar nos teus braços: Oh morte!

Aos pés da sepultura vazia
Meu corpo se inclina devagar
Entrando na vala onde há de repousar

A ti entrego min’alma imunda
Aos vermes entrego minha carne suja
E ao mundo a alegria do fim da minha luta


LINX

Os Escolhidos de Charlise

Charlise retorna ao Blog com um conto mais que sinistro!

Por Charlise de Orleans

“ No princípio Deus disse: e haja luz!E houve luz, e em seis dias foi criado o mundo e tudo que nele há”
( Gênesis, I)


Ela o amava. Tanto, que teria dado sua vida por ele. Mas ele não. E esse foi seu pior erro. Nunca passou pela cabeça de Charles que ele pudesse ser o escolhido. Tantos que ela poderia ter amado, e logo ele, tão singelo, a magoou. Mas agora não! Ela não podia para. O desejo de matar a consumia, fazia seu sangue ferver nas veias! E não! Eles nunca a pegariam! E haveria mais! Muitos ainda serão escolhidos.

Com os cumprimentos de Nêmesis...... A inevitável!

Aquela fora a primeira carta que chegara. Lucio Ferreira, comissário de polícia, a olhava entrigado. O que seria? Uma mulher tentando um serial killer? Ah, mais era só o que me faltava pensou ele. Como ela seria? Bonita? Ou apenas uma feia amargurada?

06/06/06

Dia do crime

Tudo estava tão bem planejado. Nada poderia dar errado. Mas e eu? Terei coragem? Sim. Sou Charlise de Orleans. E claro que terei. Olhou-se no espelho.

Vamos sair á caça!

10/05/06

Dia do casamento

Aline estava linda. Véu, grinalda. Vestido branquíssimo, e toda sua pureza e inocência estampadas em seu olhar. Sim! Era o dia mais feliz de sua vida. Desceu do carro, acompanhada pelo pai. Tava tão bela. Exibia um sorriso contagiante. Entrou na igreja. Silencio. Não havia marcha nupcial. Não havia convidados. Apenas um padre com uma carta na mão.

06/06/06

Apesar de todos os esforços, Aline jamais o perdoou. Não podia mais. Ela já não era a mesma. Agora era Charlise de Orleans. E vingaria. Ela sim. Recebera um dom, um chamado, uma premonição, nem sei. Ela planejara com afinco. Saíra da cidade a dois dias. Comprara seus aparatos, instrumentos. Não podia simplesmente mata-lo. Seria pouco. Ele deveria digamos, sofrer um pouquinho. E agora ela estava lá. Em frente a casa dele. Aguardando a sua presa, estava tão sedenta de vingança e cega de ódio. Mas era paciente, tudo estava guardado para ele, o seu amado.

Charles saía de casa tranquilamente, assoviando e cantando. “Aguardando mais uma vítima pensou ela”. Charles sempre fora assim conquistador, e agora estava ali, feliz, indo para onde ia sempre. Foi quando Charlise apareceu em sua frente. Apenas uma exclamação saiu da boca de Charles. “Meu Deus que mulher linda, que olhos penetrantes. Charles perguntava quem seria aquela mulher tão intrigante.

Olá ! Passeando- perguntou ela.
Sim, dando uma voltinha e você?
Tomando uma fresca.

E assim foram caminhando, e Charles sempre atento aos enigmas que ela fazia com os olhares. Após aquele jogo de sedução, ela o levou até um casarão distante.

- Eu moro aqui. Com uma voz um tanto sexy.
- Nossa como uma moça tão linda pode morar tão longe? Mora sozinha.
- Sim, moram apenas eu e meus gatos.
- Interessante, vai me convidar para entrar?
- Claro! Por favor.

Um casarão esquecido pelo tempo, pela luz e pelo mundo lá fora. Charles entrou, e sentiu um arrepio pela espinha, porém ele não ligou, até riu, achando que era de tesão. Mal sabia ele que devemos estar sempre atentos ao sinais.

Charlise o conduziu até seu quarto, escuro, sob luz de velas, com paredes em vermelhos, pinturas antigas, uma cama redonda, um perfume inebriante, e sempre olhos brilhantes na escuridão. Mesmo com todo seu corpo arrepiado e gélido, Charles só pensava em satisfazer seu ego masculino que aquela altura já estava mais que notável. E assim, na calada da noite, Charlise o seduz, o envolve, Charles não consegue entender como não a encontrou antes, sem dúvida era a melhor noite de sua vida, e de Charlise também.


06/06/06

23:55

Abrindo os olhos, Charles não estava entendo mais nada, outrora deitado ao lado da mulher mais perfeita do mundo, exausto de tanto prazer, agora estava amarrado, com o corpo curvado e dolorido.

- Olá Charles, dormiu bem? Desculpe as acomodações, mas é o que estou dispondo no momento.
- O que é isso? Você ficou louca ? Onde estou ? Porque fez isso comigo?
- Está em minha casa. Uma pena que você não é atento aos sinais, estava dormindo com o inimigo.

Só então que Charles percebeu estar em uma câmara, de cócoras, com cacos de vidro por todo o lado, e seu corpo todo cortado, ou unhado, parecia..... unhas de gato!!

- Me tire daqui por favor- agonizava....
- Calma meu querido, já vou tirá-lo. Só um aviso, pra você não ficar perdido meu amor. Esta Câmara contém o chão forrado de cacos de vidro, seu corpo está sangrando, porque digamos, os moradores da minha casa não gostaram da sua presença.... Vou descer os compartimentos agora, onde seu corpo estará separado, e isolado. Nos seus pés ficarão formigas saúvas, no seu tronco, ratos atraídos pelo seu sangue, e é claro sua cabeça estará livre para que você possa literalmente ver a morte. Ah, me esqueci, pode gritar a vontade, eu estou bem aqui na sua frente, ouvindo ópera ok?

Charles soltou um grito de desespero, ao ver seu corpo deitar na câmara,o barulho das câmara descendo e encaixando-se perfeitamente em seu corpo.... O baruhos dos animais sedentos de sangue.... As formigas elas apenas mordem.... incomodam.... Já os roedores, com seus caninos afiados, vão mordendo, arrancando pele, esguichando sangue....

Charlise, lindamente em seu vestido vermelho.... Sentada bem a sua frente, acariciando um de seus gatos.....
A primeira badalada da Meia Noite...


07/06/06

Socorro!!!!
O grito desesperado da mãe de Charles, ao encontrar o corpo disforme de seu filho enrolado em um lençol vermelho,
com uma carta ao lado......


Com os cumprimentos de Nêmesis, a inevitável ......

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Irmãos Nunca se Esqueçam do Nosso Blog

Sei que aprece pouco essa página aqui, mas ela tem muito valor sentimental a Irmandade das Sombras, então aos irmãos que passarem por aqui, lembrem-se nunca se esqueçam desse humilde blog, fundado no começo de nosso grupo por mim e pelo Roger. Não se esqueçam também de mandar textos afim de enriquecer esse espaço!

Aos visitantes um abraço também, vocês são muito impotantes para que continuemos a jornada. Nunca deixem de comentar e assinar nosso livro de visitas, pois só assim teremos incentivo e coragem para seguir adiante

E se você tiver um texto (Irmão ou não), que saber sobre a Irmandade (ou quer se juntar ao nosso grupo literário das sombras), pode mandar um e-mail para lhf_87@hotmail.com


Linx

A Ilha

Um conto do escritor e irmão Marcio, estreando hoje no blog

Por Marcio Bordin

Diego acorda com o corpo todo suado.
- Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.
Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo, todo roto; olha para os lados, seu quarto?!? Não está mais em seu quarto, ele acordou dentro de uma choupana aparentemente abandonada; teias de aranha por todos os lados; vasos de argila quebrados, poeira e mais poeira.
Está fazendo um calor de rachar, Diego procura por água, sua cabeça gira confusa, tenta entender o que está acontecendo, como que ele foi parar ali, nada faz sentido.
Olha em um canto da choupana, um vaso inteiro, talvez esse tenha água; sua garganta está em chamas; Diego pega-o e chacoalha, sim, tem algo líquido aqui, mas o cheiro está horrível; joga um pouco no chão de areia para conferir o que tem dentro, é um liquido grosso, vermelho escuro, fedorento... É sangue, junto com o sangue cai do interior do vaso algo meio redondo, de inicio não dá para ver direito o que é; Diego pega um galho e limpa o sangue e a areia que grudou na estranha bola ao cair... Meu Deus! É um olho humano.
Apavorado, o rapaz deixa o vaso cair, derramando todo o sangue sujo de dentro e vários olhos humanos; lembra-se de sua mulher e seus filhos; os procura desesperadamente; corre pra fora da choupana; o céu parece em chamas, sente como se sua pele pegasse fogo, seus pés descalços pisam em uma areia fervente como lava, seus joelhos dobram, ele chora, precisa ficar em pé, rastejando Diego continua procurando por sua esposa e seus três filhos; ao longe ele avista algumas árvores, talvez eles estejam em baixo de suas sombras se escondendo desse sol escaldante.
Mas Diego procura, grita pelos nomes e não ouve resposta; tudo levava a crer que ele estava só e pelo jeito estava no inferno. Diego se senta encostando-se ao pé de uma das enormes árvores, tentando se lembrar dos últimos acontecimentos que ocorreram no dia anterior, antes de se deitar para dormir em seu quarto ao lado de sua esposa; lembrou-se que estava em uma festa havaiana, bebeu muito, dançou com algumas dançarinas contratadas para animar a festa, elas até juravam de pés juntos serem mesmo havaianas, se fosse uma festa do dia das bruxas, elas jurariam ter 300 anos cada; lembrou também de ter discutido com sua esposa por causa dessas dançarinas, foi um pouco mais além de uma discussão, ela lhe deu um tapa e Diego lhe retribuiu o carinho; um garçom que também estava vestido de havaiano entrou na briga para acalmar as coisas, mas foi agredido por Diego com um soco no queixo; o agressor foi seguro pelos seguranças da festa, e o pobre garçom pegou sua bandeja do chão, olhou nos olhos de Diego e sussurrou algumas palavras desconhecidas por ele:
- Libo gabi sa ang impiyerno.
- Só pode estar me ofendendo- Diego pensou no momento, mas agora, em sua lembrança, as palavras do garçom estão tendo sentido:
– “Mil noites no inferno”. Foi isso que aquele maldito disse; será que estou no inferno? Só pode ser isso; esse calor, o céu, essa sede e nenhuma água...
Diego, com todo seu tormento, não tinha antes prestado atenção no som que vinha de suas costas, é o som do mar, ele se levanta e corre, saindo de baixo da sombra das arvores e voltando ao sol em chamas, pisando nas areias que lhe queimavam a sola dos pés deixando em carne viva, mas ele corria quase que se rastejando em direção à aquele som...
Enfim, seus olhos vêem ao longe, é mesmo o mar, mas conforme ia se aproximando, esse mar se tornava vermelho, é só o reflexo desse céu estranho e castigador; como se carregasse o mundo nas costas, sentindo toda a força da natureza empurrando seu corpo ao solo, ele resiste e, chega à margem das águas do mar; não é o reflexo do céu que a deixou vermelha, é um mar de sangue... Diego cai de joelhos, lágrimas escorrem de seu olhos, de braços abertos, ele olha para o céu e aos berros repete a pergunta que não quer se calar em sua cabeça:
- Por quê??? Diz-me o por quê???
Nada, nenhuma resposta; ele se levanta, tentando manter o corpo ereto, olha para todos os lados e onde seus olhos alcançavam só existia aquela areia cercada por sangue, de repente ele nota algo se movendo em baixo daquele liquido rubro, parece que são pessoas lhe acenando, fixa a vista já cansada e distorcida pelo sol, as imagens começam a ganham uma forma...
- Meu Deus o que é isso?
São pessoas presas pelo pé ao fundo desse mórbido oceano, porém elas estão vivas, acenando com as mãos para Diego, mas não parecem pedir por ajuda e sim o estão chamando; Diego olha diretamente no rosto de algumas dessas pessoas, algumas parecem sofrer, outras estão rindo, felizes.
- Será que a dor deles é menor que a minha? - Ele se questiona.
Dá alguns passos em direção ao mar de sangue, ele quer se juntar à elas, quer parar de sofrer, estão lhe chamando e suas pernas querem obedecer ao chamado, mas ele reluta, lembra-se que debaixo das árvores o sol não lhe castigava tanto, a sede ainda lhe ardia a garganta, porém nesse momento esse era o menor de seus males.
Longos minutos de caminhada que pareciam horas, Diego retorna a sombra das arvores, senta-se ao pé de uma delas novamente, chorando, seus olhos inchados se viram para o alto, nos galhos, quatro corpos dependurados, enforcados, corpos sem os olhos, os corpos de sua mulher e de seus três filhos...
-Nããããooo!!!
Ele grita em desespero, seu grito é ouvido pela enfermeira do manicômio, ela adentra ao quarto correndo acompanhada de outros dois enormes enfermeiros que o seguram enquanto ela lhe aplica uma injeção no braço. Diego sente seu corpo pesado, pouco à pouco o sono vai lhe tomando por completo, mas consegue ouvir a voz daquela enfermeira comentar com os outros dois rapazes:
- Ele assassinou a mulher e os filhos, foi algo brutal, arrancou os olhos de toda a sua família enquanto vivos e depois os enforcou...
Diego acorda com o corpo todo suado.
- Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.
Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo...

Eis que Chamei o Escuro para Testemunhar meu Renascimento

Esse conto foi escrito pelo amigo Cayus (C.M.poco.) continuando a obra de Henry. Um conto primoroso, vale a pena le-lo!

Por C.M.poco.

ESTA É UMA HOMENAGEM A MEUS MAIS NOVOS AMIGOS QUE ME INSPIRAM, ME INCENTIVAM E PRINCIPALMENTE ME ACEITAM COMO SOU E O QUE SOU.


" Im Reich Der Farbtöne agora entraremos, e não mais dele sairemos. Escolhestes vós, ó mortais, viver segundo o conselho dos fantásticos. Arcai agora com o peso dos segredos obscuros. Saboreai seu amargo deleite nas incomensuráveis trevas. Chamo agora diante dos que me invocaram o primeiro manuscrito da nova era."
Tais eram as palavras da criatura que Richmond, outrora incrédulo, agora tremia diante da situação tão singular em que se encontrava. Harmony nunca tivera dúvidas quanto ao sucesso de sua missão, mas agora vendo as consequências de tal sacrilégio refletia se realmente havia tomado a decisão correta. Para todos os efeitos, era tarde demais.
"Porunactum, ocsianort. Redrum invicti rinu
Mene, mene, taquel ri parsim.
Sent vás todunarum!
Coruegai atod redrum"

Aquela voz era diferente de qualquer outro som conhecido pelos homens. Toda a multidão observava atentamente cada gesto e movimentação do ser, enquanto este pronunciava palavras que só poderiam proceder dos rituais mais macabros da face da Terra. Mesmo entre todos os feiticeiros, bruxos e magos que se encontravam ali presentes, ninguém era capaz de traduzir sequer uma sílaba dos conjuros sentenciados pela irmandade. Harmony não podia sequer falar, tantas as emoções que seu corpo provava naqueles instantes que pareciam eternos.
De repente, o céu começou a escurecer violentamente. A noite de lua cheia deu lugar ao negrume das nuvens que cobriam todos os arredores do castelo. Aquela cena de horror se estendia até onde os olhos humanos podiam enxergar. Um vento forte ecoava nas árvores ao redor produzindo uma marcha fúnebre infernal, anunciando o caos que estava por vir. O povo começava a ficar agitado. A irmandade estava calada e apenas observava a sequência de fatos desencadeados por seu canto diabólico. Naquele corpo disforme via-se uma expressão de satisfação, que levemente lembrava um sorriso.
" Meu senhor, meu senhor. O que fizeste! Tal fizemos para despertar-te de teu sono e agora com que nos retribui?"
Richmond falava com imenso temor na voz, demonstrando o sentimento mútuo de todos ali presentes. Só mesmo Harmony conseguia manter-se em total estado de tranquilidade, como se aquela cena fosse a coisa mais natural por ele presenciada. Tidas as circunstâncias, qualquer um diria que ele também não era humano.
" Cala-te um instante mais, mortal. Não temas por tua vida insignificante e aguarda o que há de ser. Acaso não queríeis vós as trevas sobre a Terra? Eis que chamei o escuro para testemunhar meu renascimento. E para este novo reino, é necessário que todos meus companheiros estejam presentes!"
As palavras da irmandade vieram como uma bala arrojada sobre os pensamentos insólitos de Harmony. Estaria realmente o ser fazendo o que ele imaginava? Acaso fosse, coisas por demais tremendas adviriam. E sua árdua busca estaria próxima do fim.
A boca da criatura uma vez mais se abriu:

" Despertum , tucâmicon. Saracbás diamiratur.
Vedic, tosbash mavitramon.
Me servistes bem. Através de teu conhecimento permaneci.
Surge também mais uma vez, para que minha palavra
Se cumpra hoje aqui! "

Richmond punha-se de joelhos, demasiadamente atônito ao que contemplava. Um raio de fogo cruzava os céus, clareando aquela imensa escuridão. Distante avistava-se um objeto cortando o espaço com velocidade. Quem ainda permanecia descrente pôde atestar a verdade á luz de todos os fatos. Uma carruagem dourada guiada por dois alazões negros de patas incandescentes sobrepujava os ares da magnífica noite. Algo incomensurável para se expor totalmente em simples versos humanos!
Dentro do compartimento parecia constar uma espécie de caixão encrustado em ouro e pedras preciosas cintilantes ao reflexo daquela intensa luz. Toda a carruagem vinha ornamentada de crânios e ossos banhados numa espécie de verniz arroxeado que derramava espessas gotas por onde passava, deixando um odor nauseabundo e característico de sangue. Os olhos dos cavalos estavam vazados. Em seu lugar só restavam duas imensas cavidades, tão profundas que refletiam as almas dos homens que ousavam sondar demais todo aquele quadro de horror e beleza caótica. Harmony agora não podia se conter de tanta euforia. Tinha razão!
" É Lord Március, só pode ser. Então os escritos estavam corretos. Os últimos cavalheiros perdidos da irmandade surgem novamente!"
Logo que a carruagem atravessou as ruínas, houve um imenso estrondo e ela sumiu tão misteriosamente quanto apareceu. O objeto que se encontrava em seu interior caiu pesadamente sobre o castelo, vindo parar próximo da irmandade que aguardava ansiosa o aparecimento do senhor da noite: Lord Marcius Renatus Bordin.
A tampa do recipiente foi arremessada há muitos metros pelo ente que o habitava adormecido há tantos séculos, aguardando também sua hora de despertar. Levantando-se e olhando ao seu redor viu que muito tempo havia se passado desde que fizera o ritual de repouso da irmandade, unindo os membros decepados de seus componentes e escondendo o corpo remontado ali, no lar que tantas vezes havia visitado. Agora estavam juntos de novo. Prontos para recomeçar suas aventuras e contar suas histórias.
" Que bom que vós sois seres de palavra, amigos. Não fosse assim ainda estaria hibernando em meu sepulcro tantos séculos mais aguardando a sorte porventura me reerguer das entranhas da Terra. Vejo que aprendestes bem os rituais que vos ensinei. Vim tão logo ouvi vossa majestosa voz que há décadas não ouvia. E quem são todos estes mortais que nos olham com olhos tão sobremodo espantados?"
Sua voz, diferente da irmandade, era aveludada e sedutora. Num tom propício para dissuadir reis e enganar os doutos. Um caçador exímio da noite pronto a seduzir tantas donzelas quanto quisesse.
" Não te esqueças, caro amigo, que foi tua sabedoria o instrumento de nossa sobrevivência. Não fosse assim nossos ensinamentos teriam morrido. Eis aí nossos novos servos, sedentos do conhecimento sombrio que só nossas palavras podem dar. Toma agora tua pena, prepara teu pergaminho para que começemos a redigir nossa nova história, Marcius."
A irmandade estava ansiosa por compartilhar com tantos ouvintes tudo o quanto tinha ainda a dizer.
Marcius usava um belo sobretudo negro, semelhante aos trajes que os antigos celtas utilizavam em seus sacrifícios humanos. Sua aparência era jovial e trazia no rosto um semblante enigmático, típico das criaturas de sua espécie. Era dotado de muitos atributos, e no momento se utilizava da leitura mental a fim de prescrutar os intentos do senhor que o observava tão atentamente. Travava-se ali um intenso conflito psicológico, disputado lado a lado por oponentes de igual valor. Harmony analisava-o com ironia.
" Por que te escondes, Lord Cayus, por detrás desta casca humana? Revela logo a todos quem és, ou desejas que o faça eu mesmo?"
As mãos de Marcius se fecharam instintivamente.
" Nada temas, Senhor do escuro. Já que de tudo o sabes, não mais fugirei da realidade. Permita me apresentar, ó Irmandade viva e caro sr. Lord Marcius. Me chamo Cayus Marcws Pocotirios, seu criado. Mas podeis me chamar de C.M.poco. Tudo isto fiz, amigos, para que pudesse encontrar a vós, já que há tantos anos sumistes. Mas agora estão todos novamente aqui. Resolverei minhas pendências convosco e tudo entenderás."
Os olhos da Irmandade cerraram-se grosseiramente, demonstrando uma indignação mistificada á cólera desencadeada por aqueles últimos fatos. Seu corpo descomunal caminhou alguns passos em direção de Harmony, agora chamado de Cayus Marcws pocotirios. Este por sua vez resignou-se em erguer suas mãos em sinal de paz.
" Como ousas ludibriar todos aqui presentes com tuas mentiras, ó insolente ser! Primeiro dizes ser quem não é. Depois usas a mim, a Irmandade viva, para teus propósitos egoístas. Acaso não temes o mal que te sobrevirá? "
Cayus pediu silêncio por um momento e estendeu seu braço a Richmond que se encontrava prostado ao chão, pedindo que nada temesse também. Este mal podia se por de pé, tamanha era a falta de forças que apresentava seu débil corpo, completamente esgotado pelos acontecimentos tão aterradores naquele local.
" Queiras me perdoar irmandade, ó detentora das palavras etéreas. Mas foi a forma que encontrei para reunir meus aclamados mestres. Tanto vós como Lord Marcius tem parte em minha existência amaldiçoada. Nos tempos de suas publicações em vida, a irmandade foi meu espelho, meu guia nos caminhos do mal. Com o aprofundamento em seus escritos cheguei a conhecer o trabalho de Lord Marcius também e me iniciei no vampirismo vivido por ele. Mas diferente de seu processo tão bem sucedido de eternidade, acabei caindo numa tortuosa desgraça. Fui impelido pelo destino a me consumir dia a dia ardendo em desejo de ler seus contos. Sorver novamente daquelas delícias literárias que contagiavam minha condenada alma. Infelizmente fui frustado em minhas perspectivas. Dado que todos desapareceram antes que eu pudesse conhecê-los, passei a estudar ainda mais vossas obras em busca de uma forma de trazê-los á vida. Algo talvez subliminarmente lançado em seus manuscritos a favor deste propósito. Graças ás forças do medo e da perdição que estamos aqui hoje, reunidos. Mas uma pergunta ainda bate em meu coração, caro Marcius. E talvez seja a maior de minhas dores. Conte-me o fim de tua história. Teu último conto inacabado que se refere ao futuro da irmandade e aos sombriáticos. Como sobreviveram tanto tempo na imortalidade?
A irmandade viva e Lord Marcius se entreolharam no mesmo instante, filosofando mecânicamente a única resposta possível e cabida somente a eles de dar. Tudo esclarecia-se novamente, e o coro foi uníssono:
" Está nosso futuro nas mãos dos discípulos, caro Cayus. Sempre esteve e permanecerá para sempre nas mãos dos que perpetuam nossos ensinamentos. Enquanto esta multidão que vês diante de ti nos ler seremos lembrados. Só aí continuaremos existindo."


Im Reich Der Farbtöne - NO REINO DAS SOMBRAS






ESTA OBRA É UMA CONTINUAÇÃO DO CONTO DE HENRY EVARISTO, EM HOMENAGEM AO ANIVERSÁRIO DE UM ANO DA IRMANDADE DAS SOMBRAS C.M.poco.

O Último Cavaleiro das Trevas

Com muita honra posto hoje o conto de Henry Evaristo em homenagem a Irmandade

Por Henry Evaristo

(Conto comemorativo ao primeiro aniversário da Irmandade das Sombras)

Richmond não acreditava na possibilidade de que o morto pudesse retornar mas Harmony fora enfático: Ele retornaria após a leitura correta do “Im Reich Der Farbtöne”(1). Os dois estavam em uma das inúmeras salas escuras do castelo gótico do barão Von Sorian, na Moldávia. Ele havia sido o ultimo representante da Irmandade das Sombras e desaparecera misteriosamente no ano de 2057. Agora Richmond e Harmony haviam localizado o local incrustado em meio às inóspitas e solitárias montanhas dos Cárpatos. Sem sombra de dúvidas aquele havia sido o lugar de reuniões do grupo de literatos mais perturbador de toda a história da literatura universal; produtores de obras que aterrorizaram o mundo e foram capazes de transformar o senso de horror a níveis globais. Houve muita perseguição à concepção artística da Irmandade; governos americanos e europeus tentaram a todo custo banir suas publicações mas o povo insistia em ler cada um dos novos trabalhos de seus membros. Foram os discursos públicos e campanhas publicitárias cada vez mais agressivas, promovidas pelos governos dos países mais conservadores, que fizeram com que o grupo buscasse o isolamento nas montanhas. Um local escondido dos olhos de todos onde eles poderiam buscar inspiração e concentração total. E foi então que seus temas e suas produções encontraram um nível jamais imaginado nos anais das concepções de arte sombria. As publicações continuaram de forma clandestina, mas, ainda assim, chegando frequentemente ao alcance de seus leitores nas mais diversas linguas. E houve quem afirmasse, em lugares tão diversos do mundo quanto a África e a Suíça, que a leitura das obras dos escritores era prejudicial à saúde física e mental de quem lia. Richmond e Harmony, a duras penas e depois de vinte anos, obtiveram autorização do governo local para explorarem as ruínas do velho castelo. Foi entre as inúmeras salas, e em meio a extensas e mofadas estantes de livros, que eles encontraram a passagem para a sala secreta da Irmandade, conhecida como “A câmara dos Tormentos”; porém, daquele lugar escuro e úmido saíram durante o tempo em que os escritores ali permaneceram apenas os mais puros deleites sombrios que um leitor jamais sonhou em desfrutar. Não causavam tormentos ao corpo como queriam crer os puritanos do mundo. E na mente, o único mal que originaram talvez tenha sido a libertação dos afetados deste mundo apenas material oferecendo-lhes mergulhos profundos em vastos e encantados universos etéreos. O que Richmond e Harmony queriam era encontrar o lendário corpo insepulto do ultimo representante do movimento. Os outros, todos eles, havia sido descobertos em ruínas abandonadas ao redor do mundo sempre mutilados de forma bastante sistemática. Os dois pesquisadores do insólito encontravam razões para crer que as partes extraídas dos cadáveres estariam naquele local, junto ao corpo do barão Von Sorian. Estes motivos eles cooptavam das leituras e da interpretação da obra máxima da Irmandade, o terrível livro escrito em conjunto por todo o grupo, “Im Reich Der Farbtöne”. Segundo o compêndio seria possível, através da execução de determinados rituais, manter eternamente acesa a chama da imaginação obscura do grupo. Mas, lendo atentamente, e de posse das traduções dos trechos escritos em aramaico, se poderia encontrar “um livro dentro do livro” e este era muito mais terrível. Harmony o lera, e seus cabelos haviam embranquecido do dia para a noite. Para Richmond, sempre menos curioso que o amigo, aquela era a suma confirmação de que o material era sim danoso ao corpo e a alma; todavia, como fã incondicional da obra da Irmandade, nunca se opôs em seguir o outro em sua empreitada. Os rastros do barão haviam sido seguidos desde sua fonte original, no nordeste brasileiro, sendo elaborada uma detalhada reconstituição de sua trajetória entre a cidade de Salvador e as montanhas dos Cárpatos. Ele adquirira o castelo através do investimento de recursos próprios, muito provavelmente originários de espólios de família. Depois agrupara os irmãos em Londres e de lá partiram para sua ultima morada terrestre. Depois disso, não se sabe como, seus livros de contos, romances e novelas terríficas apareciam nas bancas e livrarias sempre sem que nenhum funcionário desse conta de sua encomenda e compra. Depois que as atividades cessaram, e os primeiros corpos mutilados foram surgindo, o ultimo livro apareceu numa biblioteca de Amsterdam. Foi lá que Peer Harmony o viu pela primeira vez. Nele descobriu, lendo as entrelinhas, um plano sinistro. Sua casa, nos subúrbios, era repleta de livros de terror e ocultismo. Juntando informações de inúmeras fontes ele entendeu o propósito da obra e assumiu para si a missão implícita ao descobridor. Foi apenas um dia antes de chamar a sua casa o amigo Albertus Richmond que ele terminou a tradução da ultima parte do rito principal. Era uma cerimônia de ressurreição. E dizia que seria dado o poder de dar continuidade à obra da Irmandade das Sombras àquele que, encontrando o cadáver do ultimo cavaleiro das trevas, o reerguesse da morte. As páginas finais do grimório continham todo o planejamento e prática da missa a ser realizada. No dia 06/06/2076, dezenove anos depois do desaparecimento da Irmandade das sombras, Richmond e Harmony estavam no interior do castelo abandonado para trazê-la de volta. Não havia o que questionar: O corpo encarquilhado e escuro que jazia em uma pedra de frio mármore negro era de fato o do barão Von Sorian; Porém, ele não era de forma nenhuma apenas isso. Seus membros não eram apenas aqueles com os quais viera ao mundo originalmente; eles estavam misturados, com costuras grossas e malfeitas, aos pedaços retirados dos cadáveres dos outros irmãos das sombras. Suas pernas não eram apenas suas pernas; eram também as de Lord Linx e Lord Henry. Seus olhos não eram apenas os seus olhos, mas também os de Lady Celly e Lady Hell. Todo o seu corpo era um imenso retalho, tal qual um Frankenstein ainda mais horrendo, que agregava as partes de todos os outros membros. Viam-se aqui partes das mãos de Lord Roger Silver misturadas com as unhas de Sir Luciano Barreto e os dedos de lady Mauren Müller; ali, a pele de Lady Catherine costurada aos cabelos de Sir Luiz Poleto e Dom Alexandre Nunes. Via-se na abominação híbrida, um rosto magnânimo: Numa metade era o do próprio Barão; na outra, o da condessa Victoria Magna. A visão estarrecedora derrubou o livro das mãos de Richmond à primeira vez que ele a avistara de sob a cortina de poeira que se erguera quando a passagem por trás da estante fora aberta. Depois, como ocorre com um odor nefando, ele acostumou-se e não mais sentiu os nervos abalados. Ou curara-se ou não tinha mais nervos. De qualquer forma tinha que se controlar; os planos de Harmony iam muito mais além. Foi numa sexta-feira que o ritual foi realizado. Uma descrição detalhada de todo o ocorrido seria deveras traumática para o leitor. Opto por partir do ponto em que tudo se tornou tão palpável quanto as pedras das paredes bolorentas do castelo Von Sorian. Tudo o que era necessário à manobra mágica se encontrava na própria câmara secreta. Os autores haviam cuidado de tudo! Às seis da tarde, quando o sol escoava seus últimos raios avermelhados por entre os picos cobertos por neves eternas dos Cárpatos, Richmond e Harmony iniciaram a missa da ressurreição. Após a consagração dos pontos cardeais aos espíritos da terra, depois que os signos mágicos haviam sido traçados, leu-se a conjuração principal: “Per Adonai Eloim, Adonai Jeovah!Adonai Sabbaoth, Metrathon ou Aglamethon!Verbum Pythonicum, mysterlum salamandrae,Cenventus sylvorum, antra gnomorum, daemonia coelli god.Almosin, Gibor,Jehosua, Evam, Zariathnatmik!Veni, Veni, VeniEgo te provoco!Ego te provoco!In domine meum!VeniVeniVeni!” (2) Primeiro foram as velas que se apagaram sem que houvesse vento algum, depois as dobradiças das portas estalaram sem que ninguém as manipulasse. Os livros das estantes, então, saltaram de seus lugares e, espalhados no chão, se abriam e fechavam sozinhos. Lá fora, a noite provinha o ar de sons lamentosos; de gemidos de um quase prazer bestial. Eram como o frenesi de uma multidão cujas vozes se espalhavam pelas florestas e montanhas geladas. No interior da Câmara dos Tormentos, Richmond e Harmony presenciaram o ressurgir do mito. O nascimento de uma nova era livre. De súbito, a coisa em cima da pedra negra abriu os olhos. E seu corpo foi percorrido por violentos espasmos. No ambiente espalhou-se um forte odor de raiz de mandrágora em meio a densa fumaça azul esverdeada e ouviu-se o som de ossos se partindo quando o ressurrecto tentou se erguer. E ele, o último cavalheiro das trevas, olhando no fundo das almas de seus renovadores, falou, e sua voz era a de todos os irmãos juntos: “Tu lestes bem nossos ensinamentos!” E enquanto falava se dirigia a Harmony. Depois, encarando com seu rosto retorcido a massa trêmula em que se tornara Albertus Richmond, disse: “Tu, não temas! Não há razão para os teus temores!”. E continuou: “Temo eu, pois esta algazarra que vem lá de fora me perturba deveras. O que são, pois, estes gritos, estes risos, estas exclamações?” Neste momento o pior medo, o horror mais desmesurado, se apossou do coração de Richmond. Não havia meios de prever a reação do ressurrecto à segunda parte do trabalho de Harmony. O que fizeram era para toda a humanidade, mas não se poderia saber se a coisa iria aprovar. Assim, a única ação cabível aos dois mortais mais completamente tomados pelo poder da literatura das sombras, era abrir de uma vez a enorme janela que dava para a paisagem fria do lado de fora. Num pulo, correram a destrancar e retirar as travas que haviam mantido no escuro aquele quarto por mais de vinte anos. Em menos de trinta segundos as duas partes pesadas do janelão se abriram deixando entrar uma rajada de vento frio que espanou para o ar toda a poeira de muitos e muitos anos. Junto com o vento o som dos gritos de êxtase invadiu os cantos do velho castelo e a coisa que era toda a Irmandade das Sombras levantou-se de seu leito de mármore. Seus velhos ossos estalavam depois de décadas de inércia. E os sons continuaram pela noite. Repercutindo pelos vales e bosques ao luar. Era um som portentoso, nítido, próximo. Quando o ressurecto alcançou a sacada, a visão que teve o encheu do mais puro e indescritível deleite. Lá, cobrindo toda a extensão visível da terra, mergulhando em direção ao horizonte escuro como um enxame pululante interminável, estavam milhões de pessoas. E elas traziam consigo artefatos luminosos que brilhavam na escuridão. A coisa que era a Irmandade virou-se para Richmond e Harmony mas não precisou falar. “Eis aí, mestre! Teus fãs de todo o mundo que vieram celebrar este vosso renascimento. Eu mesmo, e meu amigo, chamamos e convencemos cada um deles a estar aqui nesta noite. Eles são milhões, e o início do teu reino!” Disse Harmony e seus olhos estavam cheios de lágrimas. “Vê Mestre!” Disse Richmond vencendo o medo em face da emoção. “Cada um trás papel e caneta. Eles querem ouvir o início da nova estória! Fala a eles!” Então a Irmandade das Sombras avançou mais para fora da janela até um ponto em que já quase se debruçava para o ar. E do umbral ouviu e viu a maior ovação que as forças do mundo já testemunharam. Com um sorriso no rosto ergueu os braços e, depois que a multidão fez silêncio, começou a escrita de uma nova era.

(1) - “Im Reich Der Farbtöne” = No Reino Das Sombras (N. do E.)
(2) - Ritual de invocação retirado do livro \"O caso de Charles Dexter Ward\" de Howard Phillips Lovecraft que por sua vez o adaptou ao seu conto extraindo-o da obra \"Dogma e ritual da alta magia\" do ocultista francês Elifas Levi. (N. do E.)

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Esta é minha singela homenagem para o dia do aniversário deste grupo do qual tenho a honra de participar. Agradeço por todos vocês terem um dia entrado em minha vida, ainda que virtualmente.Alguns membros não foram citados formalmente por este texto mas isso não diminui, de forma nenhuma, sua importância perante o grupo. Todos, como foi visto, somos um só! Henry Evaristo

sábado, dezembro 15, 2007

A Cabeça da Mula

Por Mauren

CONTO COM LEVE APELO ERÓTICO

O Padre Alcides desligou o telefone e se vestiu, a contragosto, mas apressado. Sabia que a questão era urgente. Vestiu uma capa por cima da batina, pegou o guarda-chuva e saiu.
Enquanto dirigia o carro pelas ruas estreitas daquela pequena cidade, pensava no que ouviria quando chegasse na casa de Pedro. O jovem parecia bastante perturbado. Mesmo assim, o Padre Alcides não sairia de casa no meio da noite, debaixo daquela chuva torrencial, se não fosse a grande amizade que nutria com Mariana, a mãe do garoto, sua paroquiana há muito tempo – o receio em desgostá-la era o que o movia, muito, muito mais do que a preocupação com a mente abalada do rapaz.
Pedro tivera uma educação muito rígida. Repressiva, até. Não que seu pai tivesse prestado para tanto. O marido de Mariana era um homem pusilânime, um fraco, quase um covarde. Mas a mãe, seguindo os conselhos do padre, esforçara-se para torná-lo um homem puro e livre de vícios. Porém, desde o dia em que o pai de Pedro morrera, há mais ou menos um mês, o garoto estava bastante transtornado. Praticamente não falava, comia muito pouco, quase não saía do sobrado em que morava com a mãe. Quando o pai de Pedro fora vítima de um ataque cardíaco, o jovem estava sozinho em casa com ele. O padre desconfiava que o rapaz se sentisse culpado, de alguma forma. Ou que tivesse ficado traumatizado com aquela situação horrível.
Quando bateu na porta, esperava que quem viesse abrir fosse Mariana. A mãe de Pedro era uma mulher ainda bastante bonita. Tinha pele muito clara, como porcelana, cabelos cor de trigo e olhos muito azuis. Quando usava um véu para ir à igreja, o padre a achava parecida com uma imagem de santa. E ele sabia que fora assim que Pedro se acostumara a vê-la: como uma santa. A personificação da pureza. O jovem havia inclusive composto poemas para sua mãe, onde a comparava com as mártires da Igreja, e o padre acreditava que ele só não a colocava no mesmo patamar da Virgem Maria por não se considerar digno de ser filho de Nossa Senhora.
Mas quem abriu a porta foi o próprio Pedro. O padre o olhou com interesse. O jovem tinha o olhar perdido, e lhe pareceu que tremia ligeiramente, mas seus gestos eram calmos e estudados. O rapaz o convidou para entrar e lhe pediu que se sentasse.
 Pois bem  disse o Padre Alcides, ao se acomodar.  Vim o mais rápido que pude. De que precisas?
 Preciso que o senhor me ouça, padre  respondeu o jovem.  Em confissão.
 Certo, meu jovem. Mas não poderias ter esperado até amanhã e ido à igreja?
Súbito, o rapaz tomou-lhe as mãos.
 Não, padre. Eu não agüentaria esperar até amanhã. Eu precisava falar com o senhor hoje. Agora.
Alguma coisa na atitude do rapaz o inquietou. O padre olhou em volta.
 Onde está a tua mãe? perguntou.
 No quarto. Dormindo.
 Ela não sabe que tu me telefonaste?
 Não faz idéia, padre.  Suspirou.  Mas eu precisava, eu precisava muito conversar com o senhor hoje, e não queria que ela soubesse.
O padre o encarou com severidade e retirou as mãos das dele.
 Não deverias esconder coisa alguma da tua mãe  disse.
 Oh, padre, mas eu não poderia lhe contar! Não quero vê-la sofrer de novo, como sofreu quando teve de me castigar.
 Quando teve de te castigar?
 Sim, padre. Aquela vez, quando eu tinha onze anos. O senhor lembra?
O padre engoliu em seco. Sim, lembrava. Ele ajudara a infligir-lhe o castigo.
Mas Pedro sabia que o que incomodava o padre não era qualquer espécie de sofrimento causado por aquele castigo, fosse o que lhe causara no paciente, fosse o que teria causado em sua mãe  se ela realmente tivesse sofrido com suas dores. O que incomodava o padre era a causa do castigo. Era a menção a um assunto que tanto o padre quanto sua mãe evitavam ao máximo, como se a simples idéia os aterrorizasse e lhes trouxesse a ameaça dos mais terríveis castigos.
O garoto tímido e reprimido, que nunca assistia televisão e não tinha amiguinhos na escola, que não fazia idéia de como se fazia sexo e nunca ouvira a palavra masturbação, fora flagrado por sua mãe quando os hormônios da pré-adolescência o levaram a descobrir novas sensações a partir da exploração do próprio corpo.
Horrorizada, a mãe chamara o padre. Primeiro, uma surra com um cinto de couro. Depois, um banho de água gelada, “para tirar a sujeira do corpo”. Então, haviam-no esfregado com sabão até esfolarem sua pele. Por fim, haviam-lhe amarrado as mãos às costas por uma semana. Uma semana inteira, na qual ele não saíra de seu quarto, nem para ir à escola. Uma semana comendo como bicho, enfiando o rosto num prato. Uma semana sem ir ao banheiro, urinando e defecando nas próprias roupas, e sem higiene  o padre dissera: “se a alma é impura, que o corpo então também apodreça.”
Ao cabo dessa semana horrível, haviam-lhe perguntado se jurava que jamais tornaria a cometer tal pecado. E o menino, embora ainda não fosse capaz de entender afinal de contas que pecado havia cometido, jurara por sua vida e por sua alma  juraria qualquer coisa para se livrar das aflições que lhe estavam impondo.
 E qual é o seu pecado desta vez, meu jovem?
Pedro baixou os olhos.
 Eu fiz de novo, padre. A mesma coisa.
O padre se levantou, furioso.
 Mas como? Não bastaram os castigos que eu e sua mãe lhe demos?
O jovem levantou o rosto e o encarou. O padre notou uma ligeira chama de ódio naquele olhar.
 Aqueles que poderiam ter me matado, Padre Alcides?
 Pois é pena que não o tivessem matado! Antes morto do que pecador, meu filho!
Desta vez o jovem se levantou.
 Não me chame de “meu filho”, padre. Guarde seus cuidados pastorais para as outras ovelhas de seu rebanho.
 O quê?
 O fato é que eu me cansei de tudo isso, padre. Cansei, quero ser normal, quero ser igual aos outros.
 E não te preocupas com o fato de que os outros são almas perdidas?
Pedro deu uma gargalhada.
 Almas perdidas, padre? O que o senhor sabe sobre almas perdidas? Pois eu lhe digo que uma alma só se perde quando o corpo deixa de se encontrar.
O padre pegou o guarda-chuva.
 Não sei por que me chamaste a esta hora da noite, garoto, mas estou vendo que não é para uma confissão arrependida. Pensa bem esta noite, e vai me procurar amanhã pela manhã. Aí, eu te passo uma penitência.
Pedro sentou-se. De repente, pareceu acalmar-se. Olhou-o de soslaio, sem encará-lo.
 Mas o senhor não está curioso, padre? perguntou, falando devagar.  Se não estou arrependido, não quer saber por que eu o chamei aqui, no meio da noite?
 Amanhã tu me contas.
Pedro suspirou.
 Está bem. Amanhã, o senhor pergunta para a minha mãe e ela lhe conta.
O padre já estava com a mão na maçaneta da porta, mas subitamente paralisou-se. Voltou-se lentamente e olhou para o jovem, cujo olhar ostentava um ar de desafio. Respirou fundo.
 Está bem  disse.  Conta-me por que tu me chamaste agora.
 Calma, padre. Tudo a seu tempo. Sente-se, por favor.
O padre obedeceu.
 Agora, espere aí, que eu vou chamar a minha mãe.
 Chamá-la? Mas por quê? Tu mesmo disseste que não era bom acordá-la...
 Mudei de idéia, padre. Espere aí.
Levantou-se, com gestos calculados, e subiu a escada que conduzia aos quartos no andar de cima da casa.
O padre se sentia desconfortável na cadeira. A casa permanecia num silêncio desolador. À medida que o jovem demorava para voltar, o padre foi-se sentindo cada vez mais angustiado. Um suor frio começou a escorrer de seu corpo. Sentia o ar pesado, opressivo. Quinze minutos. Vinte. O padre começou a sentir seu coração cada vez mais acelerado, sua cabeça começou a latejar. Meia hora. Quarenta minutos. Certo, era demais. Levantou-se para ir embora.
Súbito, um pressentimento...
Pegou o guarda-chuva e subiu as escadas que levavam ao segundo andar, procurando não fazer barulho. Prendeu a respiração. Esgueirou-se, encostando-se às paredes, até chegar à porta do quarto. Estava aberta. A luz estava acesa.
Foi então que viu, sobre a cama, algo que fez seu estômago se revirar e uma golfada de vômito subir-lhe à garganta, para ser imediatamente engolida, num reflexo que havia aprendido e automatizado durante longos anos fazendo encomendações.
Entrou, devagar, deixando cair o guarda-chuva. O corpo de Mariana jazia, completamente nu, sobre uma poça de sangue que empapava os lençóis. Mas não estava completo. Faltava-lhe a cabeça. Permaneceu estático por alguns segundos, horrorizado, agoniado, quando ouviu uma voz por trás de si:
 Dizem que uma mulher que dorme com um padre se transforma na mula-sem-cabeça.
Voltou-se. Era Pedro. Nem chegou a ver a janela aberta, denunciando que ele saíra do quarto por ali e voltara a entrar na casa pela porta do andar de baixo. Não estava em condições de raciocinar tanto assim. Mas foi capaz de perceber que nas mãos do jovem havia um machado ensangüentado.
 O que dizes? perguntou, trêmulo.
 O que digo? esbravejou o rapaz.  O senhor sabe muito bem o que eu estou dizendo! O senhor e essa cadela hipócrita! Por que não podiam ouvir falar em sexo? Por que não queriam que eu chegasse nem perto das garotas? Porque estavam atirando para cima de mim o nojo que tinham de si mesmos!
 Não sei do que estás falando  balbuciou o padre, enquanto recuava, tentando pôr-se longe do alcance do machado que o rapaz empunhava ameaçadoramente.
 Ah, o senhor não sabe? Pois então eu vou lhe contar! No dia em que meu pai teve um ataque do coração, eu estava sozinho em casa, com ele. Então, como eu não sabia o que fazer, fui buscar minha mãe. Ela tinha dito que ia à igreja. Só que eu fui à igreja e não a encontrei, padre. Então, fui procurá-la na sua casa, porque eu sabia que ela costumava ir à casa paroquial para conversar com o senhor. Só que, quando cheguei lá, por algum motivo, em vez de bater na porta, resolvi espiar por uma fresta na janela. E foi aí que vi o senhor em cima dela, resfolegando como um animal, e ela se contorcendo como uma meretriz, padre! Foi aí que eu entendi tudo!
O padre arregalou os olhos e o encarou, sem palavras.
 Primeiro, fiquei completamente desnorteado. Espero que o senhor seja capaz de entender que, nesse momento, meu mundo desabou. Tudo aquilo que o senhor e ela tinham me ensinado a vida inteira ruiu por terra. Voltei para casa, sentindo-me como se estivesse num sonho, num pesadelo. Então, quando cheguei, meu pai já estava morto. Aí, padre  encarou-o com sarcasmo , eu cuspi no cadáver daquele frouxo infeliz. E me refestelei ali mesmo, diante dele. Eu me masturbei, padre, diante do meu pai morto. Depois, quando caí em mim e vi o tamanho do meu desatino, o tamanho da porcaria que eu tinha feito... Resolvi acabar com vocês dois.
Dito isto, avançou, brandindo o machado.
O padre se desviou do golpe, num reflexo. Então, o instinto de sobrevivência o trouxe de volta a si, como se houvesse despertado de um transe. Atirou-se no chão, pegou o guarda-chuva e investiu contra o rapaz de inopino. Como não esperava um contra-ataque, o jovem deixou o machado cair. Rapidamente, o padre o pegou, e conseguiu cravá-lo no crânio do rapaz, que tombou, pesadamente, enquanto o sangue esguichava da ferida, já sem reação  embora seus olhos muito arregalados parecessem continuar chispando fagulhas de ódio e de ressentimento.
O Padre Alcides respirou fundo e olhou em volta. Sentia-se absurdamente frio e insensível. Por outro lado, não conseguia raciocinar direito. Mas achou que tinha condições de resolver aquela situação. Pensou em chamar a polícia, mas aí teria muita coisa para explicar, e não queria revelar seus segredos. Não naquela cidade, onde seus paroquianos o crucificariam. Isso para não falar no Bispo da Diocese.
Precisava de um álibi...
Retirou o machado da cabeça do rapaz, procurando não olhar para a massa ensangüentada que saiu de dentro de seu crânio junto com a lâmina. Limpou cuidadosamente as impressões digitais da arma. Provavelmente encontrariam impressões suas na casa, mas todo mundo sabia que ele a freqüentava. Saiu dali e entrou no carro. Dirigiu para fora da cidade, foi à casa de uma tia sua, e a convenceu a dizer a quem quer que perguntasse que ele chegara na tarde anterior. Ela não discutiu: sabia que seu sobrinho cometia lá os seus pecados, mas ela também tinha seus segredos, e não queria que o marido soubesse deles. E o padre não estava preso ao segredo de confissão: descobrira as escapadelas da tia por acaso, ao chegar para visitá-la no meio de uma tarde, e por ter espiado por uma fresta da janela  bem como o jovem Pedro descobrira seus próprios pecados.
No dia seguinte, resolveu voltar à sua cidade. Dirigia devagar, cautelosamente. Não queria ser parado pela polícia rodoviária. Tudo o que queria era distância da polícia. Justamente por isso, escolheu viajar ao meio-dia, quando sabia que os policiais estavam mais interessados em seu almoço do que em fiscalizar os carros que transitavam pela estrada.
Porém, à medida que o sol esquentava o interior de seu carro, começou a sentir um cheiro estranho  estranho e vagamente familiar, que foi-se tornando mais intenso...
Já estava a ponto de identificar a que lembranças o odor desagradável o remetia quando, para seu azar, ao passar por um posto da polícia, um guarda rodoviário lhe fez sinal para que parasse. Estacionou, a contragosto, abriu o vidro e, enquanto procurava os documentos que o policial lhe pedia, este fez uma careta.
 O que o senhor leva aí? perguntou.
 Hem? Não levo nada.
 Padre... Por acaso o senhor está levando algum produto alimentício?
O padre já estava indignado por ter sido parado, e irritou-se ainda mais.
 Ora, mas é claro que não! disse.
 O senhor sabe que não pode transportar certas mercadorias sem cumprir com certas exigências legais...
 Por favor, rapaz, eu sou um sacerdote! Não estou levando nenhuma mercadoria.
O homem aspirou novamente o cheiro estranho.
 Tudo bem. Mas será que o senhor poderia abrir o porta-malas?
O padre desceu do carro, contrariado, e aproximou-se do porta-malas.
Quando foi usar a chave para abri-lo, percebeu que não seria necessário. Estava destrancado. Então, lembrou-se de que, há alguns dias, quando fora visitar Mariana, perdera  ou lhe haviam sido roubadas  todas as suas chaves, inclusive a do carro. Como tinha cópias de todas, não dera importância. Afinal, achara que, se estivesse perdida dentro da casa, mais cedo ou mais tarde apareceria.
Ao perceber-lhe a hesitação, o guarda rodoviário tomou a iniciativa de abrir o porta-malas. Primeiro, o padre empalideceu e se paralisou completamente. Depois, sentiu uma tontura e não pôde controlar uma golfada de vômito que parecia contida há muito tempo.
Dentro do porta-malas, com os olhos e a boca abertos, apoplética e branca como cera, a cabeça loura de Mariana já começava a apodrecer...


Nota: esta é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças, idéias ou opiniões; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência