sábado, setembro 30, 2006



ZADATOTH-RÁ
Por R. Silvério de Farias


Zadatoth-Rá, o horror nefando e blasfemo que rastejou das sombras movediças das estrelas tenebrosas, lá dos confins de um planeta proibido, de um lugar estranho e distante, muito além, nas profundezas imemoriais do cosmo infinito, a criatura horrenda e violenta de carnes violáceas e putrefatas que, em tempos remotos, assumindo uma forma semi-humana, mutilou toda a vida e toda a infantil esperança na mente e nos corações dos tolos mortais em sua primeira peregrinação pelo nosso velho e amaldiçoado mundo.
Agora que certas estrelas tinham se posicionado novamente, e astros errantes haviam perambulado a certa distância das fímbrias de nossa galáxia, ele estava livre novamente, após a magia da ressurreição infernal das esferas cloacais, dos esgotos virulentos das câmaras de um inferno maldito, vivo outra vez no fútil e patético mundo dos homens para uma vez mais destruir, devastar, matar e invadir os pueris sonhos humanos, levando seus corpos físicos e consciências para a morte ou para além dos jardins negros da loucura, e suas almas para as profundezas do mais negro dos infernos, além da vida e do túmulo.
Como tudo ocorreu, não lembro muito bem. Estou velho e minha memória começa a fraquejar. É tudo muito vago. É tudo como se fosse lembrança de um pesadelo maldito e infernal. Agradeço a Deus por não ter sucumbido nas trevas da loucura, embora há quem duvide disso.
Era o frio de Abril. O frio do sul. O frio da noite sinistra. E num instante seria o tenebroso frio da morte e o frio da loucura a nos envolver como mortalhas gélidas de horror indescritível, inominável.
Era um passeio na floresta, o bosque enevoado e fantasmagórico perto das colinas verdejantes de Porto dos Duendes, meu provinciano torrão natal. O bosque maldito onde no passado remoto seitas sinistras realizavam rituais macabros em sabás terríveis, sacrifícios humanos sangrentos de virgens seqüestradas, imoladas em holocausto a uma entidade malfazeja.
Ao todo éramos cinco. Eu e meus companheiros. Tínhamos ido a busca de aventura. Éramos jovens aventureiros de fim de semana. Era eu, mais o Sérgio Morcego (um vadio e trapaceiro), Juninho (meu sobrinho músico e dado a bebedeiras), Pedro Gambá (um gatuno amigo nosso) e o soturno, esquelético e pessimista Abadias, o mais velho, desempregado há doze anos, corvo sorumbático e macambúzio e poeta nas horas mortas. Todos fracassados da sociedade de consumo, todos derrotados na vida, quase enterrados vivos nas tumbas escuras além da mediocridade cotidiana.
Sim, era o frio de Abril em Porto dos Duendes, a cidade onde a politicagem era a grande geradora de empregos, mormente para os militantes do partido vencedor das eleições, cujos prêmios eram umas belas sinecuras, mamatas maravilhosas em funções públicas inúteis. Mas mesmo assim decidíramos passar o fim de semana fazendo o que mais sabíamos fazer: coisa nenhuma. Sim, o ócio total e irrestrito era a nossa droga predileta, além do LSD e dos chás de cogumelos alucinógenos que conseguíamos a muito custo em certos campos úmidos próximos ao cemitério. Aventuras psicodélicas, desafios à morte simplesmente vivendo as horas que se passam entre o berço e o túmulo, entre esporádicas jornadas alucinantes, desafiando o deus morto dos fanáticos, elevando nossos gritos eloqüentes aos anjos inoportunos que infestam todo sonho malogrado dos inúteis. E rindo-se de nós, em delírio, o lobo astral numa cova qualquer da lua...
Sim, era o frio de Abril. Éramos todos jovens rebeldes e inconseqüentes, e, portanto, dane-se tudo e todos, amém, e que o inferno da mediocridade e da loucura sem sentido acolha a todos, independente de credo, cor, raça e posição social.
Jamais podíamos acreditar que os portais seriam abertos naquela floresta aziaga, e que uma criatura terrível atravessaria o tempo e o espaço num piscar de olhos. Chaves mentais de alguma forma foram usadas por nós, dando acesso a um túnel hiperespacial, se é que me compreendem. O que eu quero dizer é que conseguimos, de algum modo, estabelecer contato direto com Zadatoth-Rá, e assim selamos nosso fadário, pois ele voltaria ao nosso plano de existência para nos matar a todos, numa orgia de sangue e morte.
Depois de usarmos o LSD e os chás de cogumelos retirados de bostas de bois e cavalos como catalisadores mentais e espirituais perigosos, depois de viajarmos por mundos alucinantes de outras dimensões, aqui mesmo na terra, abrimos o portal interdimensional, assumimos nossos destinos, os destinos negros daqueles que ousam ver coisas que não deveriam jamais ser vistas por olhos sãos.
A criatura atravessou os vácuos siderais, a quarta dimensão, e veio para a Terra, foragida de um mundo distante chamado Margziaumbar. Disse seu nome e sua intenção. Matou Sérgio Morcego, devorando-lhe a cabeça como se fosse uma goiaba cuja polpa era formada de seus miolos e de seus sonhos fracassados.
Juninho passou a pintar quadros de um mau gosto terrível, grotesco, e depois virou um ermitão e sumiu e nunca mais foi encontrado. Pedro Gambá e Abadias enlouqueceram. Quanto a mim, fui preso, acusado de assassinar o Sérgio Morcego.
Hoje estou na prisão, aguardando a sentença de uma juíza que pensa ser uma deusa da terra. Meu advogado está lutando para me tirar das grades. Desconfio que seja um rábula inútil e traidor, pois é época de eleição novamente, e a situação precisa de um bode-expiatório para que a demagogia se faça presente outra vez em Porto dos Duendes.
E o maldito Zadatoth-Rá continua lá, na floresta maldita, sempre a espera de novos jovens aventureiros de fim de semana...Até quando, não sei. Só sei que dentro em breve ele destruirá toda a raça humana; ele espera, como se quisesse nos torturar com o medo, a expectativa de morte.
Compreendam-me. Estou dizendo a verdade. E não sou louco! Não sou louco, ouviram, seus néscios!...
Por que não vão até lá, ver com seus próprios olhos que um dia os vermes devorarão, para ver que eu estou dizendo é pura verdade? Por que não enfrentam os horrores da floresta onde mora, agora, a maligna, a feroz, a imbecil besta-fera das sombras de uma galáxia desconhecida, muito além do sonho e das negras esferas da loucura humana, uma criatura maldita e perversa chamada Zadatoth-Rá?

SITES DO AUTOR:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/rogerio727
http://www.rogerio.siteonline.com.br

4 comentários:

  1. Bravo, Rogério! Fico aqui a imaginar o quão terrível é Zadatoh-Rá e qual será o nosso destino...

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  2. Como sempre uma bela historia fantastica.

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  3. Gostei muito deste conto, especialmente sobre a descrição da criatura e a forma como a cabeça da vítima foi comparada a uma goiaba. Parabéns ao autor.

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  4. Rogério esse conto é de uma influência persuasiva naqueles que o lê. Muito bom, nefasto e blasfemo.

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