domingo, outubro 29, 2006

A Lenda da Louca Estéril


Essa é mais uma daquelas lendas dos povos interioranos. Um mito passado de geração em geração, contando a luz de fogueiras pelos mais velhos a seus filhos e netos.Ela reza que antigamente, numa vila isolada de tudo e todos, existia uma mulher, muito linda e prendada, que prometida a um homem simples e trabalhador, casou-se nova com um sonho de ter com ele uma linda família.Apesar de no começo não o ama-lo, logo devota de criação e de caráter, começou a lhe dedicar um carinho especial, algo que ela podia até chamar de amor. Afinal era casada com um homem digno, respeitado por todos, trabalhador e muito amoroso com ela Os anos se passaram e seu sonho foi ficando cada vez mais distante. O lindo casamento começou a ficar vulnerável. Por mais que eles tentassem ela não conseguia engravidar. Seu marido, homem de honra, não podia aceitar que sua mulher não gerasse um filho dele. Não agüentava mais os olhares nas ruas, os comentários em voz baixa, as risadinhas discretas .As brigas começaram a surgir e seu marido cada dia mais violento, vitima agora da bebida e do ópio. Por muitas vezes a deixou roxa, sangrando , estendida no chão, e não era raro a molestar depois de tudo.Mas no seu coração, bem no fundo, o sonho de uma família feliz ainda permanecia, aquele sonho ainda vivia forte em seu interior. Sabia que tudo aquilo era apenas pela falta de um filho, sabia que se ela pudesse dar um filho ao seu amado, o tão sonhado filho que eles tanto tentaram ter e que agora era motivo de discórdia entre eles.Em uma de suas raras saídas pelas ruas, passou por entre os amontoados de pobres coitados, marginais, esguios da sociedade. Mas agora eles não eram mais uma ameaça, nem sequer tinha medo de se esgueirar por aqueles guetos sujos, pois ali ninguém lhe olharia piedosamente, ninguém comentaria seus olhos roxos e nem o ferimento de sua boca, ali ela era só mais uma pobre infeliz.Mas seus passos foram diminuindo, parando seus pés um do lado do outro, ficando de frente a uma pobre mulher segurando uma menina. A garota devia ter seus cinco anos, usava uns farrapos, mas mesmo assim lhe chamou muita a atenção, principalmente seus olhos, azuis claros como o céu. Ficou ali vendo aquela menina um longo tempo até ver a senhora olhando a ele o que fez ela correr daliOs dias passaram, mas aquela menina não saia de sua cabeça. Aquela cena, aquela menina jogada naquela imundice, aquela menina tão linda, tão perfeita, podia ser até sua filha.Os dias continuaram a passar e ela agora ia quase todos os dias ver a pequena menina nos guetos imundos. Ficava ali por horas as vezes, indo e voltando, vendo de longe a menina e cada vez era mais forte a idéia de que ali estava sua filha, a filha que Deus nunca tinha lhe posto no frente, mas que agora ela a havia encontrado.As surras continuaram e as humilhações se tornaram mais freqüentes. Ela tinha que salvar seu casamento, tinha que realizar seu sonho.Numa noite em que seu marido não voltou a casa, ela tomou em suas mãos uma faca e a colocou em um dos panos de seu vestido, pôs seu véu e antes de sair pegou uma das lamparinas e a acendeu seguindo até o gueto onde iria encontrar sua filha perdida.Foram cerca de oito golpes até conseguir tirar a vida da jovem, golpes cuidadosos afim de manter a pobre menina livre de tal cena, golpes que ela deu com uma força e destreza que nem ela sabia que possuía. Recolheu então a criança e fugiu dali o mais rápido que podia. Suas pernas tremiam agora que dera conta do que havia feito, mas tudo havia sido por uma boa causa, pois agora ela tinha uma filha, a filha que ela sempre sonhou, a filha que faltava na vida dela e de seu maridoAo chegar em casa, ainda um pouco tonto por causa do vinho, viu no sofá sua mulher toda suja de sangue e uma menina que dormia ao seu lado em um sono profundo. Um desespero tomou conta dele, enquanto ela lhe dizia que agora tudo seria diferente, pois ali estava a filha que tanto sonharam. Ele desesperado correu da casa, deixando sua esposa parada em frente a porta em prantos.Mas as coisas não duraram por muito tempo, e naquela noite mesmo já se sabia da barbaria que a jovem havia praticado, pois seu marido em desespero saiu gritando pelas ruas que sua esposa era uma assassina e junto com algumas pessoas que viram a jovem sair do gueto com a criança. As tochas foram acesas e o amontoado de aldeões enfurecidos se dirigiam a casa onde estaria a jovem assassina.Os aldeões enfurecidos arrombaram a porta e lincharam a mulher. Enquanto agonizava ela olhou nos olhos do marido e disse que voltaria com a filha que ele tanto desejou e eles seriam enfim uma família feliz.Desde então o marido se pôs a peregrinar afim de fugir do espírito de sua mulher que lhe perseguia onde ia, até morrer de sede no meio de um deserto em meio a uma visão de sua mulherMuitos dizem que ela ainda busca a sua filha e que em noites sem lua ela corre as regiões próximas em busca de uma criança de olhos azuis, de cinco anos, para que seu espírito consiga enfim a paz...

LINX


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Um comentário:

  1. Gostei, grande Linx! Muito bom este conto.

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